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Religio

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mãos sujas




Na peça de teatro “As mãos sujas”, Jean-Paul Sartre apresenta o choque entre as visões políticas pragmática e idealista. Hugo, jovem idealista, recebe ordem de seu partido para matar Hoederer, líder da mesma facção, considerado traidor dos ideais revolucionários, por ter feito conchavos com os adversários. Para cumprir sua missão, ele vai trabalhar como secretário de Hoederer. Porém, aproximando-se deste, passa a admirá-lo, embora discorde de sua estratégia política. A política, segundo Hugo, é uma ciência capaz de demonstrar que uma pessoa tem razão e que as outras se enganam. Para ele é inaceitável que um partido revolucionário chegue ao poder à custa de traficâncias, e que Hoederer se utilize do partido para fazer uma política colaboracionista, afrontando o programa partidário de implantação do socialismo por meio da luta de classes. O jovem, que não esconde sua opinião diante do chefe, ouve deste o seguinte:

HOEDERER: (...) Como tu prezas a tua pureza, meu filho! Que medo que tens de sujar as mãos! Pois bem, fica puro! Quem é que aproveitará com isso, e porque é que vem então meter-te conosco? A pureza é uma ideia de faquir e de monge. Vocês, os intelectuais, os anarquistas, utilizam-na como um pretexto para não fazer nada. Não fazer nada, ficar imóvel, apertar os cotovelos ao corpo, usar luvas. Pois eu tenho as mãos sujas. Até aos cotovelos. Mergulhei-as na merda e no sangue. E depois? Imaginas que se pode governar inocentemente?

Contrariando sentimentos íntimos, Hugo mata Hoederer, é preso, e, liberto do cárcere, procura Olga, militante do partido. Mas a política deste havia mudado radicalmente. Passaram a defender o colaboracionismo de Hoederer, cuja imagem de traidor foi mudada para a de herói. Por isso seu assassino deveria ser apagado da história, o que faz de Hugo um estorvo para a cúpula do partido, que resolve eliminá-lo. Olga, então, pede um tempo aos companheiros para tentar convencer Hugo a se submeter à nova orientação partidária e viver na clandestinidade. Hugo, porém, não aceita a proposta:

HUGO: (...) Escuta: eu não sei porque é que matei o Hoederer, mas sei porque o devia ter morto: porque ele impunha uma política má, porque mentia aos camaradas e porque fazia o Partido correr o risco de apodrecer. (...) Na prisão, julgava que vocês estavam de acordo comigo, e isso dava-me forças; sei agora que ninguém pensa como eu, mas não mudarei de opinião por causa disso.

Mesmo alertado que os companheiros vão matá-lo, e que isso pode ser evitado se ela lhes garantir que Hugo é “recuperável”, este não volta atrás:

HUGO, avançando para a porta: Eu ainda não matei o Hoederer, Olga. Ainda não. Mas vou matá-lo agora. A ele e a mim também.

(Batem à porta novamente.)


OLGA, gritando: Vão-se embora! Vão-se embora!

(Hugo abre a porta com um pontapé.)


HUGO, gritando: Não recuperável!

(Cai o pano).


Não é de hoje que o jogo da política é jogado tanto com cabeças idealistas quanto com mãos sujas. O reinado pacifista de Salomão não se consolidou sem antes ser banhado no sangue dos partidários de Adonias. E ainda que não tenha a dramaticidade da peça de Sartre, o teatro da política ainda é cheio de cenas de dissimulação e boa-fé, de corrupção e decência, de pragmatismo e idealismo.

Não rezo na cartilha existencialista de Sartre; não concordo com a “pureza” de Hugo, capaz de matar por ideologia partidária, nem com o pragmatismo de Hoederer, para quem “a Revolução não é uma questão de mérito, mas sim de eficácia”, pois o “Céu não há.” Mas não há como negar que, no palco da política, não se pode ter as mãos totalmente limpas. Pois o papel dos personagens, inclusive o de cada um de nós, depende de nossas escolhas. Lavando as mãos, Pilatos não as tornou mais limpas que as de Hoederer. A sorte é que, mesmo não sendo possível governar ou ser governado inocentemente, sabemos que nem a história da salvação, conduzida pelas mãos imaculadas de Deus, dispensa as mãos sujas de mulheres e homens.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O Deus desconhecido




Desconhecido quer dizer incógnito, ignorado, não conhecido. Mas, cá entre nós, você já ouvir falar de escritor mais badalado que o autor desconhecido, ou de guerreiro tão reverenciado quanto o soldado desconhecido? Sobre o primeiro, aposto que você já leu mais textos dele do que os meus. Já o segundo, para este não há nação que não lhe erga um monumento, nem qualquer outro herói que, como ele, mereça jazer sob o Arco do Triunfo em Paris, ou junto ao Pórtico Monumental erigido aos pracinhas no Aterro do Flamengo, circundado por jardins de Burle Marx. Não quero, porém, me deter em soldados e autores; desejo fazer como fez Paulo, apostolizar sobre o Deus desconhecido.

Estando Paulo em Atenas, não se contentou em disputar com os judeus na sinagoga. Subiu ao Areópago e dirigiu a palavra aos cidadãos atenienses. Disse-lhes que os considerava, sob todos os aspectos, os mais religiosos entre os homens. Pois, percorrendo aquelas ruas e contemplando os monumentos, descobriu um altar com a seguinte inscrição: “ao Deus desconhecido”.

- “Ora bem”, disse Paulo, “o que adorais sem conhecer, isto venho eu anunciar-vos.” Anunciou então que o Deus desconhecido é o que fez o mundo e tudo o que nele há; o Deus que não habita em templos de pedra, e não precisa ser servido por mãos humanas, como se carecesse de alguma coisa, pois é Ele que a todos dá vida, respiração e tudo o mais. É ainda o Deus que cuida para que todos, mesmo às apalpadelas, encontrem enfim a divindade, que não está longe de cada um.

A retórica de Paulo, naquele caso, seguiu por caminhos diferentes do discurso habitual de judeus e cristãos. Estes, em vez de uma teologia natural, mais acessível aos que buscam a divindade às apalpadelas, sempre preferiram colher seus argumentos na Escritura, canal de comunicação mais direto com o Deus desconhecido.

Só que até hoje, muito de nós, mesmo privilegiados por dispormos desse canal, se dependêssemos do conhecimento da Bíblia, continuaríamos a fazer como os gregos de outrora, professando a fé num Deus desconhecido. Pelo menos é o que se pode concluir de uma pesquisa sobre a leitura da Bíblia, realizada no ano de 2008, em nove países, oito da Europa (Grã-Bretanha, Holanda, França, Alemanha, Itália, Espanha, Polônia e Rússia) e Estados Unidos da América.

Os evangelhos são parte da Bíblia?; Jesus escreveu livros da Bíblia?; Quem, entre Moisés e Paulo, era personagem do Antigo Testamento?. Perguntas elementares como estas fizeram parte dessa pesquisa, encomendada pela Federação Bíblica Católica. Dos treze mil entrevistados, só uma pequena minoria respondeu corretamente as perguntas. Russos e espanhóis, com 7 e 8% de acertos, respectivamente, foram os piores classificados, enquanto poloneses, os que melhor se saíram, não passaram de 20% de respostas corretas. Tal resultado levou à conclusão de que a Bíblia, mesmo sendo o texto mais difundido no mundo, com traduções completas em mais de quatrocentos idiomas e versões parciais em mais de dois mil, ainda é bastante desconhecida, mesmo entre aqueles que haurem sua fé nas Escrituras.

É bom, portanto, dar ouvidos a Paulo, que continua a tomar a palavra nos Areópagos do nosso tempo, pois o que adoramos sem conhecer, isto é o que precisamos anunciar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Anawim de Deus



Em julho de 2007, assisti a uma homenagem prestada pelo nosso Tribunal ao escritor Ariano Suassuna. Coisa muito bonita: auditório lotado, poesia para cá, cantoria para lá, e, calado no meu canto, vendo aquele escritor famoso, mas que de maneira tão simples se fazia um entre nós, eu pensava comigo mesmo: afinal, quem na verdade estava homenageando e quem estava sendo homenageado? Pensei a mesma coisa ao participar da homenagem prestada, em nossa cidade, em abril de 2008, a Dom Marcelo Pinto Carvalheira. Cada um que ali se encontrava para reverenciar nosso primeiro bispo é que se sentia honrado por estar na presença do “Dom da ternura”, que lançava o livro “São José, o anawim de Deus.”

Anawim quer dizer pobres, e São José é um desses anawim. Contudo, a concepção de pobre (anaw, em hebraico) não se restringe ao aspecto sociológico. Os anawim falados pelos profetas e cantados pelos salmistas eram, na verdade, os pobres diante de Deus, humildes, desprezados, e confiantes só e somente só na misericórdia do Senhor.

O modelo maior do pobre de Deus é Jesus Cristo. Este, como diz o hino cristológico da Carta aos Filipenses, tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz!

O esvaziamento de si mesmo, em grego chamado kenósis, também foi vivido por São José. Como observa o livro de Dom Marcelo, não é exagero dizer que José é o mais importante personagem da história da salvação, só inferior a Jesus e Maria. É ele o “Filho de Davi”, a quem o Anjo do Senhor anunciou a missão de ser o elo entre Jesus e a história de Israel. Se por Maria, “Jesus se insere na massa da humanidade, por José, conforme a lei, recebe a cidadania judaica.” Foi ele, jurídica e socialmente, o pai do Filho de Deus: ele que colocou o nome do filho, levou-o ao templo, apresentou-se a todos como seu pai verdadeiro, não abandonando a esposa à infâmia. O evangelista Mateus chega a conferir-lhe o título de justo. Ser justo, na linguagem bíblica, é reunir em si todas as virtudes, o que faz Dom Marcelo invocar São José como o “ornado de justiça”. Todavia, o bom José não se prevaleceu de sua eminente posição. Humilde e obediente, sem ser fraco nem tolo, nunca precisou se valer do milagre nem do excepcional em sua vida; apenas escutava e cumpria o que por Deus lhe era confiado. E, como homem discreto, viveu o silêncio de quem muito trabalha e não tem tempo sobrando para deitar falação; de quem compreende que Deus é silencioso e por isso é preciso escutar o silêncio para entrar em sintonia com Ele.

Esse silêncio, todos precisamos ouvir. E hoje, mais do que nunca, o silêncio eloquente de São José é exemplo a ser seguido por nós. Para os que a Igreja Católica chama de leigos, e convoca a ser missionários na sociedade, pois José era leigo, casado e operário. Para os presbíteros, aos quais, a exemplo de José, compete a missão de guardar o Filho de Deus neste mundo. Enfim, para todo aquele que quer seguir Jesus Cristo. Pois para ser cristão de verdade é preciso, como os anawim, abandonar-se nas mãos do Senhor, e não colocar sua confiança na própria riqueza ou poder; para ser cristão de verdade, é preciso deixar Deus ser Deus em sua vida. Só assim é possível perscrutar o divino, até porque, como ensina Dom Marcelo, só reza quem tem as mãos vazias. Pois “a oração é a consciência de que não temos nada, por isso estendemos nossas mãos Àquele que tudo nos dá, porque tudo é Dele.”

Trabalho infantil e direitos humanos


No dia 10 de junho deste ano, durante a mobilização do “cartão vermelho ao trabalho infantil” na Paraíba, estive presente no seminário “Trabalho infantil: consequências e enfrentamento”, realizado no auditório do Fórum Cível de João Pessoa. Ao lado do Procurador do Trabalho Eduardo Varandas, da professora do Departamento de Serviço Social da UEPB Térçália Suassuna, e com a mediação da Juíza do Trabalho Lilian Leal, apresentamos o painel “aspectos legais e sociais do trabalho infantil”. O texto que segue, serviu como roteiro para a exposição feita naquela oportunidade.

INTRODUÇÃO

O trabalho, nos dias de hoje, é visto como fator de dignidade humana. O compositor Gonzaguinha, num arroubo poético, consagrou no cancioneiro popular o que há muito já estava sedimentado no senso comum: “sem o seu trabalho o homem não tem honra, e sem a sua honra, se morre, se mata, não dá pra ser feliz.” Mas será que todo trabalho é digno? Digno de quê e de quem? Há trabalhos para todos os gostos e desgostos; trabalhos que honram e que aviltam; trabalhos que contribuem para a vida e os que causam doença e morte. Mesmo sabendo disso, parece que preferimos ocultar a face sombria do trabalho e cantarolar o refrão de que todo trabalho é digno, embora nós mesmos não queiramos realizar alguns deles, que reservamos àqueles a quem a organização social não proporciona as mesmas facilidades e oportunidades oferecidas a nós e aos nossos.

A questão sobre a dignidade do trabalho é ainda mais problemática no caso de crianças e adolescentes. Estes são indivíduos em processo de amadurecimento, não se podendo exigir deles o mesmo discernimento dos adultos, tampouco os mesmos deveres a estes impostos. É por isso que a lei, levando em conta a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento, procura assegurar-lhes todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.

Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ai d’eu sodade


No livro Bem-vindo ao Direito do Trabalho, valho-me do ABC do preguiçoso (Ai d’eu sodade), música de domínio público interpretada por Xangai, para iniciar o capítulo relativo a Segurança e Saúde no Trabalho. Também faço menção ao seguinte trecho de um discurso de Alexandre Marcondes Filho, Ministro do Trabalho do governo Vargas:

A vida humana tem, certamente, um valor econômico. É um capital que produz e os atuários e matemáticos podem avaliá-lo. Mas a vida do homem possui, também, um imenso valor afetivo e um valor espiritual inestimável, que não se podem pagar com todo o dinheiro do mundo. Nisto consiste, sobretudo, o valor da prevenção em que se evita a perda irreparável de um pai, de um marido, de um filho, enfim daquele que sustenta o lar proletário e preside os destinos de sua família. A prevenção é como a saúde. Um bem no qual só reparamos quando acidente e a moléstia chegam.

Relendo essa passagem, me veio à mente uma história que li num jornal de domingo, há pouco mais de dez anos. Eram quatro trabalhadores do Curimataú paraibano; todos casados. Um deles com pouco mais de cinquenta anos de idade; os outros tinham entre trinta e trinta e três anos. Segundo a matéria, os quatro morreram vítimas de doença pulmonar adquirida no trabalho em minas de quartzo, mesma moléstia que transformava em pó os pulmões dos mineiros latino-americanos desde o tempo em que as ruas de Potosí eram ladrilhadas de prata.

Sem deixar explícito o nexo etiológico entre as condições de trabalho e a causa mortis dos quatro mineiros, o texto trazia a opinião de um técnico em segurança do trabalho. Segundo ele, o mais comum em casos como aquele era que o empregador se preocupasse apenas em disponibilizar os equipamentos de proteção individual, e, nesse aspecto, cumpriam a lei, sem, contudo, fiscalizar e cobrar o uso dos EPI’s pelos trabalhadores que, por achar incômoda a sua utilização, terminam por não tomar os devidos cuidados, o que pode custar-lhes a vida.

Pelo que me consta, até hoje não foram apontados os verdadeiros responsáveis pelos óbitos: teriam sido os donos das minas? Mas, como referiu o técnico, eles até que observavam a lei. Seria então a lei deficiente, ou a fiscalização, ineficiente?

Uma coisa, porém, é certa: lá se foram mais quatro pais de família brasileiros, coisa que talvez não abale nossas estatísticas, afinal, que representam para elas quatro viúvas a mais ou a menos? Elas, as viúvas, que procurassem alguém ou alguma coisa para enfiar a carapuça, pois a saída menos incômoda, em casos como esse, tem sido atribuir a responsabilidade à falta de cuidado das próprias vítimas, mudas que estão no além-túmulo.

Perdoem-me pela exumação dessa história. Se o faço, porém, é no propósito de lembrar que para a preservação da saúde e segurança do trabalhador não bastam a lei e a oratória, por mais que esta seja bonita de se ouvir, feito a do finado Ministro — que Deus o tenha! (Não só ele, mas também os quatro mineiros fulminados pelo “pó da morte”) — pois, como diz o ABC do preguiçoso, “trabalhar é muito bom, num é minha ‘véia’, mas é um tanto ‘arriscoso’. E ‘ai d’eu sodade.”

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