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[Guarabira] -

Religio

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sinais dos tempos


Ao meu tio José Henriques da Costa,

o eterno maestro “José Pereira.”

No primeiro plano (da esquerda para direita): meu pai, eu e meu tio.

Tio Zé Pereira foi um dos maiores músicos que conheci. Maestro exigente e virtuoso saxofonista, formou discípulos na arte da música. Meu pai dizia que meu tio fazia uma festa sozinho com seu clarinete, instrumento que um dia ousei experimentar, e que ainda me faz guardar no peito a saudade do músico que não fui. Mas que hei de fazer? Se a história humana, como diz Mário Ferreira dos Santos, não deixa de ser a história das decepções, essa é apenas mais uma na conta do rosário pessoal de sonhos irrealizados. Meu tio também tinha o dom de ler os sinais da natureza. Consultando os sinais do firmamento, ele profetizava, com autoridade de mestre nas experiências do tempo, se ia ou não ia chover.

Decifrar sinais meteorológicos não é exclusividade de artefatos sofisticados. A natureza também se dá a ler a quem procura interpretá-la na simplicidade da sabedoria popular acumulada ao longo dos séculos, interpretação que pode ser difícil, mas não tanto quanto a dos sinais dos tempos. Jesus Cristo, não dando trela às artimanhas de saduceus e fariseus, disse-lhes certo dia que eles sabiam interpretar os sinais atmosféricos: “ao entardecer dizeis: vai fazer bom tempo, porque o céu está avermelhado; e de manhã: hoje teremos tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio” (Mt 16,2-3). Os sinais dos tempos, contudo, eles não eram capazes de compreender.

A expressão “sinais dos tempos”, naquele contexto, tinha conotação messiânica, apontando para o mistério da Encarnação. Todavia, essa expressão passou a ser utilizada, tempos mais tarde, em documentos do Concílio Vaticano II, para designar os fenômenos gerais e frequentes que marcam cada época, e que precisam ser interpretados à luz do Evangelho, se quisermos, como adverte a Gaudim et Spes, continuar na terra a missão do Redentor, que habitou entre nós para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido.

Interpretar os sinais dos tempos à luz da Boa Nova não dispensa, mas, ao contrário, exige que se leia o mundo também com as cintilações e penumbras das mediações humanas. Não é fugindo do tempo que entenderemos melhor os fios da história que junto tecemos. É claro que o aprofundamento nos saberes humanos não é garantia de visão plena dos sinais dos tempos, principalmente por se tratar da tentativa de compreensão da história dos dias atuais, na qual estamos mergulhados até a medula. Nossas bolas de cristal científicas e filosóficas não predizem com total segurança para onde a humanidade caminha: estamos progressivamente construindo a paz perpétua profetizada por Isaías e imaginada por Kant ou precipitando armagedons pressagiados por videntes que se regozijam em agourentar o futuro?

Não bastassem as dificuldades normais à interpretação em tempo real de uma história do presente, não há como negar que o mundo parece cada vez mais complexo, acelerado e paradoxal. Gilles Lipovetsky diz que estamos vivendo os tempos da hipermodernidade, na qual a humanidade se vê diante de paradoxos quase esquizofrênicos. De um lado, “é preciso ser mais moderno que o moderno, mais jovem que o jovem, estar mais na moda do que a própria moda; de outro, valorizam-se a saúde, a prevenção, o equilíbrio, o retorno da moral ou das religiões orientais.”

Vejam o paradoxo entre consumismo e sustentabilidade. Defendemos um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Mas será que estamos dispostos a abrir mão do bem-estar e das riquezas derivadas do consumismo? Tome-se o exemplo do aumento vertiginoso de veículos tomando conta de nossas cidades. Parece uma tragédia anunciada: vias públicas coalhadas de veículos ultramodernos, automovendo-se como tartarugas e impedindo gente de se automover. E no cenário global, se antes falávamos no problema da sustentabilidade diante dos níveis de consumo dos Estados Unidos, como será, então, com a China no topo do mundo?

Mesmo diante dos problemas e paradoxos da hipermodernidade, Lipovetksy se prefere otimista, embora, como observa, isso hoje pareça um defeito. Para ele, crises sempre foram inerentes ao capitalismo, sistema flexível e de admirável adaptabilidade. Quem também prefere o direito à esperança é Karl Jaspers. Se não temos certeza do porvir, “quando filosofamos, não devemos deixar-nos dominar por profecias pessimistas. Como ignoro, tenho o direito de esperar na medida em que – no que me concerne e a partir da certeza que tenho quanto às origens – faço o possível, por pensamento e conduta, para me opor à catástrofe.”

Toda essa reflexão me fez voltar o pensamento para meu tio. Ao seu modo e no seu mundo, o eterno maestro lia sinais da natureza, lia e transformava em beleza os sinais da música, mas também não deixava de ler sinais dos tempos. Mesmo com as dificuldades de um maestro de cidade pequena, fazia o possível, por pensamento e conduta, para fazer da vida dedicada à arte um instrumento para ajudar o mundo a ser um lugar mais bonito de se viver. E de repente me bateu uma vontade danada de tocar um clarinete.

sábado, 8 de outubro de 2011

Palavras humanas, Palavra de Deus

São Jerônimo (Caravaggio).

S. Jerônimo é padroeiro dos tradutores, bibliotecários e secretárias.


Acordar, rezar e twittar, eis um pouco da minha rotina no começo das manhãs. Um parêntese: o certo é twittar ou tuitar? Li opiniões de professores que divergem sobre o assunto, mas concordam que só daqui a algum tempo saberemos qual a forma escolhida pelos usuários e produtores da língua, o que me faz lembrar Guimarães Rosa: pão ou pães é questão de opiniães... Mas como eu vinha dizendo, o twitter matinal incorporou-se à minha rotina (ou vice-versa). No limite dos 140 caracteres, compartilho mensagens bíblicas em Português e Francês. E antes que alguém me pergunte o porquê do Francês, eu explico.

Só agora, na idade madura, pude retomar o estudo da primeira língua estrangeira que estudei, na quinta série do Colégio da Luz, com o professor Edgardo Júlio. Não me lembro o nome do livro, mas não me esqueço da folhinha de cartão, com janelinhas cobrindo o texto, para que repetíssemos as frases vendo apenas as ilustrações. Depois o Francês foi expulso do colégio. Vieram, então, as aulas de Inglês, com o bom humor do professor Vicentão e a elegância da professora Madalena. Mas o interesse pelo Inglês, que me fez chegar a dar aulas no antigo C.C.A.A, não diminuiu minha inclinação pela francofonia. Lembro que um dos primeiros LPs que comprei, na antiga Musical, foi o disc d’or de Gilbert Bécaud, do qual não me cansava de ouvir L’important c’est la rose. Estas recordações, que no twitter cairiam bem na #guarabiradasantigas, aqui tentam explicar minha francofilia e a razão das aludidas mensagens, que me ajudam na apreensão do idioma que me fascina desde a adolescência, e na contemplação do mistério que me seduz desde que me entendo por gente.

Deus é mistério que se revela aos homens também por meio das palavras. Para revelar-se, Ele se vale da linguagem que os seres humanos são capazes de compreender, com as fraquezas e riquezas próprias das palavras humanas. Além disso, a compreensão humana se dá na diversidade linguística, que imagino não ter grande valia no céu. Pois no Paraíso não deve haver línguas oficiais, nem necessidade das falas de Deus serem legendadas em Português ou Francês. Seja como for, o certo é que, como lembra a Dei Verbum, por causa do seu muito amor, Deus se revela na história humana falando aos homens como a amigos, para convidá-los a estar com Ele no seu convívio. E essa revelação tem sido narrada em inúmeras línguas e culturas.

Do diálogo amoroso entre Deus e os homens formou-se uma tradição oral sobre as maravilhas de Deus na vida do povo, e cresceu a consciência deste de que era imperativo repassar a sabedoria divina guardada na memória coletiva. Como diz o salmista (Sl 78,3-7): “o que nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos a seus filhos, nós o contaremos à geração seguinte: os louvores de Iahweh e seu poder, e as maravilhas que realizou; ele firmou um testemunho em Jacó e colocou uma lei em Israel, ordenando a nossos pais que os transmitissem aos seus filhos, para que ponham em Deus sua confiança, não se esqueçam dos feitos de Deus e observem seus mandamentos.”

A Bíblia surgiu, então, como memória escrita dessa longa tradição oral. Na verdade, “surgiu” nem é a palavra mais adequada para dizer do processo de produção dos textos sagrados, escritos durante centenas de anos, por diversos redatores (fala-se em cerca de quarenta), geralmente desconhecidos, mas inspirados por Deus, o verdadeiro autor das Escrituras. Não que os textos sagrados tenham sido psicografados ou ditados diretamente por um anjo, mas foram inspirados por terem sido produzidos sob a ação do Espírito Santo, do mesmo sopro divino que nos torna mais do que a argila primordial da qual fomos modelados.

Os originais dos textos bíblicos, escritos sobre papiros e pergaminhos, em hebraico, grego e aramaico, perderam-se no tempo. Mas o trabalho inestimável de copistas, tradutores e exegetas, como São Jerônimo, cuja festa se celebra no mês de setembro (por isso escolhido como mês da Bíblia), permite-nos chegar o mais próximo possível das palavras contidas naqueles manuscritos. E mesmo que haja divergências, aqui e acolá, quanto às palavras humanas das diversas cópias e traduções ─ o que é natural, pois as palavras não nascem amarradas, como diz o poeta Drummond, e toda tradução tem um quê de traição ─, o essencial é termos consciência do que nos ensina o escritor sagrado (2Tm 3,16-17): “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra.”

Materializada em palavras humanas, a Bíblia é Palavra de Deus. Por isso, quer seja proclamada nos templos, lida no silêncio do quarto ou compartilhada no twitter; quer seja decifrada em Português, Francês ou em qualquer outra língua, o importante é que a Palavra chegue aos nossos corações e transforme nossas vidas, fazendo-nos aceitar o chamado para entrar em comunhão com o Amor Absoluto, única via para a bem-aventurança.

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