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Religio

sábado, 21 de junho de 2014

A Copa como ela é




Nestes dias, em que a grande mídia deixa de lado as desgraças cotidianas que dão ibope para focar nas euforias – espontâneas ou induzidas – de nossa paixão pelo futebol, um jornalista, num programa de rádio, dizia que torcer contra a seleção brasileira ou protestar contra a Copa do Mundo são atitudes antipatrióticas. Penso, porém, que é uma falácia colocar a questão como se fosse um dilema: ou você torce pelo “Brasil” – como se a seleção fosse o Brasil – ou comete crime de lesa-pátria.

Eu torço pelo escrete canarinho e sei da sua importância para a autoestima nacional. Nelson Rodrigues, menos de um mês antes da conquista do campeonato mundial de 1958, dizia que nosso grande problema era o “complexo de vira-latas”: “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”  Mas poucos dias depois de sermos pela primeira vez campeões do mundo, afirmou que “o povo já não se julga mais um vira-latas. Sim, amigos – o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na generosa totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas.”

A superação do “complexo de vira-latas” foi destacada novamente pelo  cronista, pouco antes do segundo campeonato, em 1962. Na ocasião, ele afirmou que o triunfo na Suécia foi tão importante como a Primeira Missa, de Portinari, ressalvando que os índios pintados naquela tela, em vez de biquíni e umbigo à mostra, deveriam estar de “calções, chuteiras e camisa amarela.” Disse ainda que o principal papel da seleção de 58 foi ser profeta do grande Brasil, influenciando a vitória do filme O pagador de promessas, que ficou com a Palma de Ouro, no festival de Cannes de 62, num país em que o cinema não tinha nenhum apoio, sobrevivendo na base da cara e da coragem.

Não se de deve esquecer, porém, que além profetizar a força do futebol brasileiro, Nelson Rodrigues foi o cronista da “vida como ela é”, e futebol faz parte da vida. Portanto, é bom que se mostre também o seu lado obscuro, a “Copa do Mundo como ela é.”  Um grande espetáculo que une nações e faz as torcidas cantarem seus hinos, mas que também aparta ricos de pobres. Estes, mesmo tendo a Copa no Brasil, não têm condição de comprar ingressos nas arenas construídas em parte com o dinheiro público; um evento que traz gente de todas as partes do mundo para conhecer nossas belezas, mas também para explorar sexualmente nossas crianças e adolescentes; uma festa de alegria de torcidas, mas que também induz ao consumo de drogas ilícitas e lícitas, fazendo com que nossa dura lex amoleça, pois permissão para beber em estádios é coisa que só se permite provisoriamente a estrangeiro e alguns privilegiados, e não permanentemente no estatuto do nosso torcedor, o que não deixa de ser um reconhecimento jurídico do “complexo de vira-latas”.

Por isso, a questão não é dizer que criticar a Copa ou torcer contra a seleção é crime de lesa-pátria. É bom torcer e festejar, mas sem perder o senso crítico, jamais. A consciência da “Copa como ela é” implica olhos abertos e ouvidos não entupidos pelos gritos histéricos e ufanistas, regiamente pagos pelos patrocinadores do evento. É importante aplaudir nossos jogadores, mas não esquecer que muitos deles vivem num mundo de luxo e riqueza, inclusive fora de sua pátria amada – só um titular joga em time brasileiro -- enquanto grande parte do povo e a maioria dos atletas daqui sobrevivem ainda com a cara e a coragem, como vivia o cinema brasileiro nos tempos d’O Pagador de Promessas.

Torcer pelo Brasil não se resume a torcer pela seleção de futebol. Torcer pelo Brasil é fazer de tudo para melhorar a vida de nosso povo, especialmente dos mais pobres, que certamente, após a trégua da Copa, retornarão às arenas da grande mídia, que costuma enfatizar as desgraças cotidianas que dão ibope.

domingo, 1 de junho de 2014

Um menino advogado





Nascido no mês de maio, como a mãe, o menino sonhava ser advogado, como o pai. Advogado é alguém que a gente chama para ficar do nosso lado, para interceder por nós -- quantas pessoas só são atendidas quando têm alguém que fale por elas --, é voz daquele que não tem voz, mãos que sustentam quem necessita de ajuda. Ramalho Neto, que se eternizou tão jovem, pode ser considerado um menino advogado.
             
Ramalho quer dizer grande ramo. No caso dele, também posso dizer nobre ramo. Identificava-se, como ele próprio falava, com os versos da canção que diz: “confesso que sou de origem pobre, mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez”, ao que nós, brincando, retrucávamos: -- Ramalho,  esses versos, na parte da origem pobre,  parecem mais com a história de seu pai do que com a sua. Mas ao dizer isso, tínhamos a certeza de que ele não se chateava, pois para Ramalho, o pai sempre foi um grande espelho. E o filho, mais um ramo de uma família com raízes plantadas em chão generoso, alimentada na seiva do afeto e da disciplina, do carinho e do exemplo, da fé e do amor. E se pelos frutos se conhece a árvore, a semente da bondade de um filho já vem das entranhas de quem o gerou.
             
Como menino advogado, Ramalho por vezes revelava-se amigo da polêmica, para mim uma de suas virtudes mais admiráveis. O que se pode esperar de alguém, principalmente de um jovem, que não seja questionador. Alguém já  disse que se “Deus é a Resposta, o homem é a pergunta.” Se Deus nos criou à sua imagem e semelhança foi para compartilhar amor e conhecimento. E não há aprendizagem no amor e no saber se não houver sede de saber e de amar. Sou daqueles que pensam que até no céu teremos sempre o que aprender, pois mesmo lá, Deus continua Deus e o homem, minúscula criatura, jamais poderá decifrar completamente a imensidão do Criador, mesmo compartilhando eternamente o seu amor.
            
No caso do Direito, que faz parte dos mistérios da cidade dos homens, a virtude de questionar é fundamental para a produção do saber. Como refletíamos em nossas aulas na Universidade – eu, no papel de professor, Ramalho, de excelente aluno  --, a verdade no mundo jurídico só se constrói no diálogo, e este só existe num ambiente de liberdade, em que se pede e se concede a palavra, aberta às objeções mútuas, em que a verdade resulta da arte de falar e da sabedoria de ouvir.

Ocorre que na cidade dos homens a verdade é sempre precária. Não há resposta pronta para toda pergunta, como havia no “livro do professor”, ainda mais quando se questiona os mistérios da viagem da vida, estação na qual “o trem que chega é o mesmo trem da partida” e a “hora do encontro é também despedida”, como diz outra bela canção. Mas se somos perguntas, e Deus, a Resposta, esta nos é dada pelo Filho do Altíssimo, que assegura e ao mesmo tempo questiona: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?”
 
Mais do que gerado nas entranhas da mãe que, como ele, nasceu no mês de Maria, e filho do pai, que o fez sonhar ser advogado, Ramalho é filho do imenso amor de Deus, ramo amado da videira verdadeira. E se cremos na Palavra do seu Filho Jesus Cristo, temos a certeza que Ramalho está junto à Virgem Maria, Mãe das Mães, Advogada Nossa, a Intercessora, intercedendo também por todos que o amam, no céu dos jovens bons e curiosos, céu do menino advogado.                                                            
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