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Religio

sábado, 30 de julho de 2011

Café filosófico: Deus existe? Sim ou não?

No último domingo, 24.07.2011, participei do primeiro café filosófico de nossa região. Foi uma agradável oportunidade de encontros e reencontros. Eu, que me afirmo católico e tento ser cristão, fui convidado a provocar a discussão sobre o tema: Deus existe? Sim ou não? Não sendo o caso de apologia a qualquer credo religioso, resolvi percorrer caminhos do mito, da religião, da filosofia e da ciência, como possíveis fragmentos de verdade, descobertos ou inventados pelo ser humano a respeito da existência de Deus. Depois houve um debate sobre o tema, que foi muito fecundo. De parabéns o INTEPPB pela iniciativa pioneira. Que venham outros cafés filosóficos, pois a nossa sede e a nossa fome não são apenas de água e de pão. Enquanto isso, deixo aqui algumas reflexões sobre o assunto.

PRIMEIRAS PALAVRAS. A pergunta sobre a existência de Deus tem como ponto de partida a experiência humana. O ente humano, com racionalidade limitada, subjetividade condicionada e liberdade restrita, tem sede de compreender a origem, a existência e o sentido do Ser, o que implica questionar a origem e o sentido não apenas da divindade, mas do universo e dele próprio, ou seja, da inextricável “trindade metafísica” Deus-mundo-homem. Nessa perspectiva, podemos perguntar com Gesualdo Bufalino: “Se Deus existe, quem é? Se não existe, quem somos?”

Sendo a pessoa um ser-no-mundo (Heidegger), a resposta, explícita ou implícita à pergunta sobre a “trindade metafísica” influencia o nosso modo de agir no mundo. Isso não significa pensar no crente como alguém bom e o ateu como um desalmado. Não vejo barreira intransponível para se imaginar uma ética ateia, fundada na liberdade responsável ou até mesmo numa tolerância utilitarista. O certo é que, na prática e teoria da vida, as respostas sobre a “trindade metafísica” não deixam de ser respostas às perguntas fundamentais kantianas: o que podemos conhecer? O que podemos fazer? O que podemos esperar?

MITO. Para Heidegger, o desvelar-se do ser não se dá no palavrório, mas na linguagem autêntica da poesia. Os poetas ─ alguns deles maravilhosamente loucos como Hölderlin, o predileto não só de Heidegger, mas de Nietzsche ─, parecem ser os melhores ouvintes da linguagem do ser. A linguagem da poesia é rica, pois sempre está grávida do símbolo, sendo apta a cristalizar literariamente o que se esconde no mito. Fico indignado quando alguém pergunta: “verdade ou mito?” Ora, mito não é mentira. Mito, como disse Fernando Pessoa, “é o nada que é tudo.” Ele carrega em si opacidade e brilho, é força vinda dos confins dos tempos, que impregna a realidade e permanece nas religiões, filosofias e ciências, mas sendo anterior a elas, talvez permita ouvir com mais originalidade os ecos da voz do Ser.

RELIGIÃO. Religião não é necessariamente fé no transcendente. Durkheim, quando trata das formas elementares da vida religiosa, apresenta o budismo primitivo como religião sem deuses. Aliás, demonstrar a existência de Deus pode implicar até numa atitude anti-religiosa, se a divindade for compreendida como indiferente aos destinos do mundo e do homem. Será então a religião o mito que a sociedade faz de si mesma (Durkheim)? Será uma neurose coletiva, ilusão nascida do desejo, que gera imaturidade e dependência, o preço que se paga pela saúde psíquica (Freud)? Será o ópio do povo na perspectiva de Marx? Mas quando este fala numa religião como ânimo de um mundo sem coração e alma de situações sem alma, ele fala de que tipo de religião? Será, ainda, que o destino da religião, como observa Nietzsche, é mesmo o de vampirizar o homem, beber até a última gota de sangue, todo amor e toda esperança da face da terra?

FILOSOFIA. Haverá provas ou vias para se chegar a Deus por meio da razão? É legítimo falar sobre Deus como motor imóvel ou causa incausada causando? Tomás de Aquino entende que é impossível proceder ao infinito, na série dos seres que se geram sucessivamente, sem ao final esbarrar no ser necessário, que tenha em si toda a razão de sua existência, ao qual chamamos Deus. Mas essa causa primeira não poderia ser o ápeiron de Anaximandro? Por que teria características de um Pai que se relaciona amorosamente com o mundo e com o homem? É possível, filosoficamente, demonstrar esse Deus pessoal? Agostinho de Hipona, filósofo, mas também místico, intuiu que Deus é reconhecível, mas não demonstrável; que o conhecimento pode compreender a verdade, mas não a faz.

CIÊNCIA. Na ciência, marcada pelo ateísmo metodológico, não é fácil comprovar a existência ou inexistência de Deus. Depois da revolução copernicana, descobrimos que a Terra é apenas um planeta errante, e nós, viajantes (ou tripulantes?) nessa nave cósmica. Sendo a matemática a nova chave hermenêutica, não podemos mais confiar nos nossos sentidos. Mas o culto ao cientificismo também sofre abalos. Se Einstein relativizou o espaço e o tempo de Newton, o que dizer, então, de teorias como a das supercordas? Coisa de cientista maluco ou genialidade de quem um dia decifrará a escrita cósmica do Ser? Carl Sagan dizia que se pelo nome de Deus designamos o conjunto de leis físicas que regem o cosmo, então esse Deus existe. Entretanto, não há por que o homem rezar para a lei da gravidade. Richard Dawkings, no polêmico livro Deus, um delírio, afirma que o Deus deísta pode ser visto como o mais notável de todos os cientistas, que ajustou o universo com uma precisão inigualável, detonou o big bang e depois se aposentou. Depois disso ninguém soube mais do seu paradeiro.

ÚLTIMAS PALAVRAS. Herdamos uma cultura religiosa, o que se apresenta como um obstáculo para quem se diz ateu. Dawkings reporta-se a uma anedota corrente na Irlanda do Norte. Quando alguém diz que é ateu, o interlocutor normalmente pergunta: Tudo bem, mas você é ateu protestante ou ateu católico?

Todavia, a pergunta sobre a existência ou inexistência de Deus é muito mais que uma questão religiosa. A chave para auto-compreensão do homem e para compreensão que este tem de Deus e do mundo não pode ser dada exclusivamente pelo mito, pela religião, pela filosofia ou pela ciência. Como se não bastasse, vivemos a época dos pluralismos, tantos e tão diversos que nenhum ser humano dá conta de todos. Como diz Karl Rahner, cada um de nós permanece rude em certo sentido. Mas não é preciso percorrer todos os mitos, religiões, filosofias e ciências para se afirmar (ou negar), com honestidade, a existência de Deus. Ninguém é levado a crer em Deus apenas por razões filosóficas, argumentos teológicos ou especulações científicas. Nietzsche, apesar de anunciar a morte do Deus da tradição ocidental, disse temer que nunca chegássemos a nos libertar de Deus porque ainda cremos na gramática, ou seja, na razão que nos faz falar em unidade, identidade, substância, na razão que se expressa na lógica gramatical da linguagem. Eu, com meus botões, prefiro dizer: graças a Deus, porque ainda cremos na gramática.

sábado, 16 de julho de 2011

MEDO DO INFERNO?

Das pregações que o padre fazia nos meus tempos de criança, ficaram-me na memória as cores fortes com que ele pintava o inferno. Eu, menino, imaginava o vermelho de labaredas terríveis e o pretume do caldeirão do diabo. E aquela história dos cabritos e das ovelhas no Juízo Final, das trevas e ranger de dentes... Tudo me parecia medonho. Até pronunciar o nome inferno soava como blasfêmia, tanto que fiquei um tanto chocado quando, pela primeira vez, ouvi a música de Roberto Carlos, Quero que vá tudo pro inferno.

Hoje o inferno não aparece tão medonho nas homilias que ouço, e nem sei se o TOC do rei lhe permite cantar aquela música que fez tanto sucesso nos anos de minha infância. Mas penso que ainda se pode conjecturar sobre o inferno. Por isso, trago à reflexão alguns breves pensamentos sobre o inferno, além de resumos de ideias extraídas de dois livros, um de Leonardo Boff e o outro, de Andrés Torres Queiruga, que falam sobre esse tema.

Deixai toda a esperança, vós que entrais.

Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.

D. Alighieri (poeta italiano, 1265-1321), Inferno, III, 9.

Não há necessidade da grelha, o inferno são os Outros.

Pas besoin de gril, l’enfer, c’est les Autres.

J. P. Sartre (filósofo francês, 1905-1980).

O inferno (...) é não mais amar.

L’enfer, (...) c’est de ne plus aimer.

G. Bernanos (escritor francês, 1888-1948).

INFERNO: A ABSOLUTA FRUSTRAÇÃO HUMANA



Ideias extraídas do livro Vida para além da morte,

de Leonardo Boff.

A religião cristã se mostra ao mundo como uma religião do amor absoluto. O Deus judeu-cristão tudo cria e tudo provê por amor. Mas esse amor absoluto de Deus pressupõe a liberdade humana. Amor sem liberdade não existe. E por conta dessa liberdade, ao ser humano é dada a dignidade absoluta de poder dizer um não a Deus. Daí, tal qual o amor, o pecado é fruto da liberdade dada por Deus a suas criaturas. Sendo assim, o inferno pode ser entendido não como uma criação de Deus, mas como criação humana. Como afirma Paul Claudel: “O inferno não vem de Deus. Vem de um obstáculo posto a Deus pelo pecador.”

O inferno existe não como um lugar criado por Deus ou habitado por diabinhos com chifres. O inferno é o endurecimento de uma pessoa no mal. É um estado do ser humano e não um lugar para o qual o pecador é lançado, como se apresenta em imagens de mau gosto que se proliferaram com o tempo.

A Sagrada Escritura se utiliza de imagens para significar essa situação de inferno. Mostra o inferno como fogo inextinguível, o que deve ser tido como um símbolo do que há de mais dolorido e destruidor. Não se trata de fogo físico, que não poderia agir sobre o espírito. Outras imagens que encontramos na Bíblia é a do inferno como choro e ranger de dentes, como metáforas da situação humana de revolta impotente e sem sentido; como trevas exteriores, já que se opõe à luz que vem de Deus e é desejada pelo ser humano. Todas essas imagens são extraídas de experiências humanas, relacionadas a dor, desespero e frustração, e apontam para o inferno como existência absurda que se petrificou no absurdo.

Inferno, nesse caso, significa não ter mais futuro, não ver saída nenhuma, não poder realizar nada daquilo que o ser humano deseja. Inferno é também a solidão, pois se opõe ao amor, que implica dar e receber. Em suma, o inferno, que se tenta expressar em suas inúmeras imagens, significa sempre a absoluta frustração humana, de um ser criado por e para Deus, mas que se fecha definitivamente à graça divina.

Poderíamos, então, perguntar se o ser humano, com vontade e consciência limitadas, é capaz de criar seu próprio inferno. Ora, cada pessoa, na sua liberdade, tanto pode construir sua vida voltada para Deus como para seus próprios interesses. Assim, cada um pode seguir tanto a Cristo quanto a Judas, por exemplo. E quem nega o inferno não nega a Deus e a sua justiça, mas nega o ser humano, não o levando a sério.

Convém esclarecer que a questão de se construir o inferno não é uma questão jurídica ou aritmética. Não é o caso de prêmio ou castigo por atos praticados e contabilizados. É decorrência de uma opção fundamental, de um projeto de vida em que o ser humano, livre e conscientemente, se nega a viver para Deus.

Conclui-se, portanto, que o verdadeiro cristão é extremamente realista. Conhece a existência humana dialeticamente, numa constante tensão entre o bem e o mal, o pecado e a graça, a esperança e o desespero, o amor e o ódio. E como cristãos, todos somos chamados a nos decidir pela comunhão, pelo amor, pela esperança e pela graça. Todavia, também temos a liberdade para cometermos o maior de todos os pecados, o da idolatria. Esta, mais do que simples fabricação de imagens, é a opção consciente de eleger para si outros deuses, e, principalmente, de querer ser Deus de si mesmo, o que pode levar à separação total do amor de Deus, o que é a situação de inferno.

Mas a última palavra do cristão jamais deve ser pessimista. Pois o mesmo ser humano capaz de pecar é capaz de amar. E enquanto houver vida, há sempre a possibilidade de conversão. E se nós nos mantivermos abertos a todos, aos outros e a Deus, e se buscarmos colocar o centro de nós mesmos fora de nós, então estaremos seguros, pois a morte não nos fará mal e não haverá uma segunda morte. E é nisso que reside nossa esperança.

INFERNO: DOR E TRAGÉDIA PARA DEUS

Ideias extraídas do livro O que queremos dizer quando dizemos “inferno”, de Andrés Torres Queiruga.

Qualquer exposição metódica sobre o inferno só ganha sentido se for feita em relação à salvação. Deve-se abandonar o discurso baseado na pastoral do medo, que caracteriza a visão difundida por muitos que se ocupam em falar sobre esse assunto. A problematização sobre o inferno é um mistério. Por isso é campo propício para especulações, instrumentalização do medo e formulação de discursos destinados a escravizar consciências, fortalecer o poder e legitimar a opressão.

Visto a partir do núcleo da religião, o tema do inferno é secundário e colateral. Entretanto, ele tem despertado o interesse de muitos pensadores no decorrer dos séculos e, de certa maneira, atinge a todos nós, pois ninguém que crê pode escapar aos questionamentos a respeito da condenação eterna.

É importante não perder de vista, no que concerne à hermenêutica dos enunciados escatológicos, que à linguagem sobre o inferno não se deve emprestar um caráter literal, mas metafórico. Por isso, quando a Escritura fala dos postremos, suas proposições não devem ser levadas na conta de uma reportagem sobre o além. Em vez disso, deve ser vista como símbolos fundamentais para iluminar nossa vida. Do contrário, poderemos cair numa leitura fundamentalista.

Todavia, devemos ter o senso de responsabilidade de não enveredarmos levianamente por qualquer interpretação das verdades reveladas, pois mesmo sabendo que a pesquisa teológica é marcada pela liberdade de pensamento, deve ser pautada por uma reflexão responsável.

Não é legítimo falar em inferno como castigo, mas sim como tragédia para Deus. Falar da condenação como castigo é transformar Deus num ser interesseiro, que castiga quem não lhe presta o devido serviço, ou num juiz implacável movido pelo desejo de vingança, o que está longe da verdade revelada pelas Escrituras. Nestas, a condenação é uma tragédia para Deus, pois tudo o que Ele faz ou manifesta é em vista da salvação.

Deve ser evitado, ainda, o abuso moralizante. Em muitas religiões, o inferno tem funcionado como fator de moralização, o que causa o risco de instrumentalizar Deus para controlar consciências, o que é típico de uma educação autoritária.

Mesmo considerando a simbologia que envolve as imagens teológicas sobre o inferno, é possível identificar algumas afirmações seguras sobre este. Ressalte-se que o símbolo não implica deficiência no objeto, mas limitação em nossa capacidade cognitiva. Trata-se de insuficiência subjetiva por suberabundância objetiva.

Inferno é negatividade, não-salvação. Inferno é o que Deus não quer, o que nunca deveria ser. Portanto, ele nunca pode ser visto como ação positiva de Deus, nem como castigo que Deus inflige diretamente às suas criaturas. Como negatividade, o inferno é a culminância do mal, estando sempre do “outro lado de Deus.” Este cria por amor e para a salvação, e o inferno, seja o que for, é a não-realização e a frustração desse propósito, sendo um mal impossível de Deus evitar em respeito à liberdade humana. Assim se explica a ideia de que não é Deus quem condena, mas o pecador que se condena a si mesmo.

Em nível objetivo, nada mais sabemos sobre a possibilidade do inferno, exceto o seu caráter terrível, que podemos intuir não pelos sonhos monstruosos de uma razão subjugada pelos fantasmas da imaginação, mas como o polo oposto daquilo que podemos perder: a salvação como dom de Deus.

Afora as afirmações intoleráveis sobre o inferno e o que de fato sabemos sobre esse conceito escatológico, ainda é possível fazer algumas conjecturas. Podemos sustentar a ideia do inferno como auto-sentença condenatória. Diferente da lógica punitiva e juridicista, essa ideia responde à nova consciência da modernidade, respeitando o valor da liberdade e autonomia humanas.

Por outro lado, surgem algumas críticas a tal concepção. Uma delas é o argumento de que pensar o inferno como auto-sentença condenatória definitiva tornaria impossível a teodiceia, porque poria em questão ou a bondade de Deus (não quereria que todos se salvassem) ou então sua onipotência (querendo-o, não poderia salvá-las). A esse argumento, poder-se-ia contrapor a afirmação que leva em conta o caráter inevitável do mal como fruto da liberdade humana. Nesse caso, entendemos que Deus é bom, dado que deseja a salvação de todos; mas que é absurdo salvar alguém à força.

Outra crítica é a de que a auto-condenação eterna pressupõe a imortalidade natural da alma. Em nível filosófico, é muito difícil compreender como um ser que nasce não esteja destinado naturalmente à morte. Não faria sentido, portanto, que a imortalidade, que na Bíblia é sempre dom de Deus, fosse conferida ao ser humano apenas para fazê-lo sofrer no fogo do inferno.


É quando surge outra conjectura, que é a do inferno como a morte definitiva. Se a vida eterna é um dom, quem não o aceita fica privado dele, não se salva, morre. Nesse sentido, o inferno seria a segunda morte, o salário do pecado, de que fala a Carta aos Romanos.


Tem-se ainda uma terceira hipótese a ser considerada. O inferno como condenação do mal que há em cada um. A liberdade é algo muito sério e tem consequências graves e terríveis; porém não é tão incondicionada que possa levar à negatividade absoluta, ao nada. Assim é possível conciliar a questão da bondade com a onipotência de Deus, que deseja fazer tudo para salvar, mas que respeita uma liberdade que é tão somente limitada. Entretanto, o ponto-chave dessa proposta está na transcendência decisiva da liberdade, vista como a faculdade do definitivo. Pode uma liberdade finita chegar a dispor totalmente de si mesma? Pode uma liberdade distorcida, mas não demoníaca (capaz de querer o mal pelo mal), optar pela infelicidade total, pelo nada absoluto?


Na perspectiva dessa terceira conjectura, é possível partir da ideia do “agradecimento” de Deus, que aparece na simbologia do Juízo Final, em que o Nazareno agradece como próprios os benefícios feitos aos pequeninos. E como não existe ninguém que alguma vez não tenha feito o bem a alguém, Deus agradeceria e salvaria ao menos o que há de bom em cada um, salvando esse lado bom, ainda que esse resgate seja feito “como por meio do fogo”. Existe inclusive a interpretação das imagens bíblicas do juízo final, na qual as ovelhas e os cabritos não se referem a duas classes de pessoas, e sim a duas realidades dentro de cada um de nós. Salvar-se-á o bem que está dentro de cada um e se perderão, aniquilando-se, os cabritos dentro de cada pessoa.

Nessas conjecturas e reflexões, deve-se abandonar a lógica comercial, que interpreta a salvação de maneira objetivante e mesquinha: “Se me salvo, estou salvo; o resto não me importa; livrei-me do castigo.” Em vez disso, deve-se levar em conta a lógica do amor, na qual o que importa é a profundidade da comunhão. Nesse caso, a mínima perda tem sempre algo de tragédia irreparável. Pois não se trata de um prêmio conferido a partir de fora, mas da realização do ser no que tem de mais íntimo e precioso: só quem ama de verdade intui o terrível da oportunidade perdida.

Também não se deve ficar refém do jogo infantil do prêmio e do castigo, ou refletir como vítima inconsciente do espírito de ressentimento ou do desejo de vingança. Do mesmo modo, não é sábio fazer como alguns cristãos que, quando descobrem que Deus salva de verdade em qualquer religião, pensam que não serve para nada a felicidade de descobri-lo como o Pai revelado por Jesus de Nazaré.

O fundamental, portanto, é que Deus é amor e busca por todos os meios nossa salvação, mas o faz no respeito, delicado e absoluto, à nossa liberdade. Esta, porém, pode resistir à salvação, e somente dessa resistência procede a não-salvação ou inferno. E seja este o que for, e consista em que consistir, tem sempre algo de terrível e irreparável para nós, mas que nunca é um castigo divino, e sim, uma dor e uma tragédia para Deus.


sábado, 2 de julho de 2011

Hermenêutica e interpretação da vida

Carlos Drummond de Andrade, no poema O lutador, nos fala da luta desigual que travamos com as palavras:

Lutar com palavras.

é a luta mais vã.

Enquanto lutamos

mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Uma das grandes batalhas nessa luta é encontrar, em meio a tantas, quase infinitas, a palavra certa para dizer exatamente aquilo que se quer dizer. E não há outra igual à palavra certa, aquela que se procura e muitas vezes não se acha, pois como resume Maupassant: “não importa o que tenhamos a dizer, existe apenas uma palavra para exprimi-lo, um único verbo para animá-lo e um único adjetivo para qualificá-lo.”

Se pode ser vã a luta para encontrar a palavra certa, imagine, então, como é a luta de quem procura encontrar o sentido certo das palavras utilizadas pelos outros para tecer pensamentos expressos em seus escritos. Eis a tarefa do intérprete, eis o desafio da hermenêutica, pretensa ciência da arte de interpretar não só os textos, mas a própria vida.

Como tenho feito com outros assuntos tratados neste blog, trago alguns pensamentos a respeito da hermenêutica, com o objetivo de provocar a reflexão sobre esse tema fascinante.

Schleiermacher (1768-1834)

Interpretar é uma arte, uma arte cujas regras só podem ser elaboradas a partir de uma fórmula positiva; esta consiste numa reconstrução histórica (ou comparativa) e intuitiva (ou divinatória), objetiva e subjetiva do discurso ou texto estudado.

Dilthey (1833-1911)

Nós explicamos a natureza, mas compreendemos a vida espiritual.

Interpretar os vestígios de uma presença humana oculta nos escritos constitui o centro da arte de compreender.

Hermenêutica é a ciência e a arte de compreender as expressões da vida fixadas por escrito.

Heidegger (1889-1976)

O homem compreende uma coisa quando sabe o que fazer dela, do mesmo modo como compreende a si mesmo quando sabe o que fazer consigo, isto é, quando sabe o que pode ser.

O homem só compreende porque já é pertencente ao ser que o constitui. Existir é interpretar.

A interpretação de algo como algo funda-se, essencialmente, numa posição prévia, visão prévia e concepção prévia. A interpretação nunca é a apreensão de um dado preliminar isenta de pressuposições.

Gadamer (1900-2002)

Cada interpretação se efetua à luz do que se sabe; e o que se sabe muda.

O texto não é pretexto para que só o intérprete fale.

Quem quer compreender um texto deve estar pronto a deixar que ele lhe diga algo.

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