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Religio

sábado, 26 de março de 2011

"Realejo em Paris", na Aliança Francesa de João Pessoa

Hoje (26/03/2011), pela manhã, nas comemorações do dia internacional da língua francesa e da francofonia, tivemos a apresentação do músico francês Jean Marie Olive, na Aliança Francesa de João Pessoa. Acompanhado do seu realejo, ele cantou clássicos da música francesa, e encantou a todos nós, com seu canto, suas histórias, e sua maravilhosa caixa de sons e de sonhos.


domingo, 20 de março de 2011

As maxilas da hiena e o coração de mãe


Diz o Eclesiastes que há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu: tempo de nascer e de morrer, de plantar e de colher, de matar e de sarar, de destruir e construir, de chorar e de sorrir, de gemer e de dançar, de atirar pedras e de ajuntá-las, de abraçar e de se separar, de buscar e de perder, de guardar e de jogar fora, de rasgar e de costurar, de calar e de falar, de amar e de odiar, tempo de guerra e tempo de paz. Diz em acréscimo o Livro Sagrado:

Observei as tarefas que Deus impôs aos homens, para com elas se ocuparem. As coisas que ele fez são todas boas no momento oportuno. Além disso, ele dispôs que fossem permanentes, mas sem que o homem chegue a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza. E compreendi que não há outra felicidade para o homem senão alegrar-se e assim alcançar a felicidade durante a vida.

Para alcançar essa felicidade, ensinam alguns comentaristas da Sagrada Escritura, o ser humano tem de vencer duas grandes tentações: a de possuir mais e mais coisas, sem qualquer limite, e a de tentar descobrir, sem qualquer limite, o último sentido de todas as coisas. Só assim o ser humano poderá agradar a Deus, recebendo a bênção da vida simples, que é antes de tudo, sensatez e alegria.

Mas, sejamos francos. Não é fácil falar em vida simples, sensatez e alegria, quando cuidamos de agradar somente os deuses da opulência e do consumismo. Se cada criança estadunidense continuar consumindo, em média, o que consomem cinquenta crianças da Índia, conforme estimativas publicadas há algum tempo atrás, cada vez mais ficará patente que, antes do problema demográfico, crucial mesmo é a desigualdade nos padrões de consumo e na apropriação dos recursos naturais do planeta. E as raízes históricas dessa desigualdade são as mesmas que podem explicar não apenas as diferenças nos padrões de consumo das crianças estadunidenses e indianas, mas o atual nível de pobreza no mundo.

Talvez nessas raízes históricas também possamos encontrar alguma explicação para outro aspecto do atestado de incompetência de nossa civilização: o de não resolver seus conflitos senão através do morticínio, o que nos faz lembrar as palavras de Monteiro Lobato, para quem os governantes dos povos são incapazes doutra filosofia que não seja a das maxilas da hiena. Eles perpetuam as guerras, e, com isso, quase sempre são elevados à condição de semideuses. E com eles, como diz Lobato, “poetas, pensadores, generais, a indústria, o comércio, a imprensa, todos, todos e tudo — fora as mães — zelam, como vestais, para que não se extinga o fogo sagrado do Ódio.”

Ainda bem que a filosofia das maxilas da hiena, apesar de predominar na mente dos condutores dos povos, não conseguiu eliminar do mundo as verdadeiras mães, que são vestais do fogo sagrado do Amor. Pois este é o único fogo capaz de gerar em cada um de nós um coração de mãe.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O juiz do futuro



Vez por outra me ponho a pensar sobre a responsabilidade de ser juiz. É quando me permito sonhar com o juiz do futuro, aquele que, segundo Jacques Charpentin, será:

cavalheiresco, hábil para sondar o coração humano, enamorado da ciência e da Justiça, ao mesmo tempo que insensível às vaidades do cargo, arguto para descobrir as espertezas dos poderosos do dinheiro, informado das técnicas do mundo moderno no ritmo desta era nuclear, onde as distâncias se apagam e as fronteiras se destroem, onde, enfim, as diferenças entre os homens logo serão simples e amargas lembranças do passado.

Ora, um sujeito assim, ao meu ver, não corresponde à imagem do intelectual, mas a do sábio. Sábio tanto no falar e no agir, quanto no ver e ouvir as coisas ao seu redor com simplicidade, clareza e perspicácia. É claro que esse conhecimento justo das coisas não pode ser um empreendimento exclusivamente humano, pois se a sabedoria consiste em ver nitidamente a realidade, e ouvi-la com limpidez, não foi outro senão Deus Quem fez o ouvido para ouvir e o olho para ver.

Percebo também, na descrição do juiz do futuro, três dos atributos da sabedoria: a prudência, a humildade e o discernimento.

Prudência como qualidade de quem age procurando evitar tudo aquilo que acredita ser causa de erro ou de dano, virtude ligada à difícil arte de saber ouvir. Naturalmente, o saber ouvir em muito contribui para outra qualidade do homem prudente, que é saber dizer a palavra certa na hora certa, pois, como ensina a Sagrada Escritura (Pr, 25, 11), “maçãs de ouro com enfeites de prata/ é a palavra falada em tempo oportuno.”

Humildade, não como sinônimo de baixa auto-estima. Ao contrário, como busca incessante e sincera de autoconhecimento. Alguém já o disse, fazendo coro com o pensamento socrático, que inteligente é quem outros conhece; sábio, quem conhece a si mesmo.

Por último, o discernimento, que é a faculdade de julgar as coisas com agudeza de espírito. A sabedoria, nesse caso, reside sobretudo numa justa avaliação e julgamento da injustiça e da maldade.

E é justamente por sonhar com esse juiz do futuro, que me sinto tocado pelas palavras de Carnelluti que, indagando a si próprio como pode fazer o juiz ser melhor daquilo que é, chega à seguinte conclusão:

A única via que lhe é aberta a tal fim é aquela de sentir a sua miséria; precisa sentirem-se pequenos para serem grandes. Precisa forjar-se uma alma de criança para poder entrar no reino dos céus. Precisa a cada dia mais recuperar o dom da maravilha. Precisa, cada manhã, assistir com a mais profunda emoção ao surgir do sol e, cada tarde, ao seu ocaso. Precisa, cada noite, sentir-se humilhado ante a infinita beleza do céu estrelado. Precisa permanecer atônito ao perfume de um jasmim ou ao canto de um rouxinol. Precisa cair de joelhos frente a cada manifestação desse indecifrável prodígio, que é a vida.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Saudades do Uirapuru

Sou filho e sobrinho de músicos. Meu pai, João Epifanio, era professor de música. Como eu gostava de vê-lo e ouvi-lo lendo partituras e tocando o clarinete. Com ele aprendi um pouco de uma coisa e de outra. O irmão de meu pai, José Henriques da Costa, mais conhecido como Zé Pereira, foi o grande maestro de banda de música da Serra da Raiz.

Meu pai também formava corais com seus alunos em Guarabira. Trazia para nossa casa rapazes e moças para ensaiar as músicas cantadas a várias vozes, e eu, ainda criança, ficava encantado com os ensaios e apresentações do coral, do qual posteriormente passei a fazer parte. Em Guarabira, lembro também de corais organizados pelo professor Domingos Fragoso, uma das amizades musicais de meu pai.

Essas amizades musicais nos renderam momentos inesquecíveis. Meu pai adorava receber pessoas em casa. Certo dia, ele disse ao grande maestro Pedro Santos: ─ Qualquer dia desses apareça lá em casa, que será um prazer. E não é que o maestro apareceu mesmo? Num ônibus, levando junto com ele o coral da Universidade Federal da Paraíba e uma orquestra de câmara. Nesse tempo, morávamos em Serra da Raiz, e a cidade era deficiente telefônica. Somente um posto, com mensageiro para dar recados nas casas, e às vezes o telefone dava problema. Daí que, por falta de comunicação mais segura, a chegada dos músicos foi uma surpresa para nós. De início, foi aquele corre-corre, principalmente da parte de minha mãe, para acolher decentemente as visitas ilustres.Mas se na cidade faltava telefonia, sobrava hospitalidade. Rapidamente, vários amigos se oferecerem para também hospedar os universitários. No final foi tudo maravilhoso. Pena que não tivemos como gravar em vídeo aquelas apresentações de rara beleza.

Por falar em vídeo, um dia destes, num site de relacionamento, um amigo postou um vídeo antigo, que eu desconhecia, de Nilo Amaro e seus cantores de ébano. Para minha surpresa, a música cantada pelo grupo é Uirapuru, que fazia parte do repertório dos nossos corais, corais dos rapazes e moças que cantavam lá em casa, corais do professor Domingos, corais de meu pai, com suas inesquecíveis amizades musicais.




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