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[Guarabira] -

Religio

sábado, 27 de novembro de 2010

Paula Fernandes - Renato Teixeira & Sérgio Reis ( tristeza do jeca)

Data vênia, Monsenhor Habib (*)



Já vai longe o tempo em que Monsenhor era sinônimo de posição graduada na hierarquia da Igreja. Hoje é título honorífico, um reconhecimento pelo serviço prestado ao Povo de Deus. Quem recebeu esse título foi o Padre Jonas Habib que, com a Canção Nova, tem levado o Evangelho via satélite a tanta gente mundo afora.

Mas é justamente pelo peso da evangelização midiática do Padre Jonas, que peço licença para dizer de minha inquietação quando o ouvi, um dia desses, fazer uma afirmação que, data vênia, não cabe mais ser difundida atualmente. Na palestra sobre vidas transformadas, exibida em rede nacional e posta à venda como produto de consumo religioso, o ilustre Monsenhor disse que Maria Madalena, antes da conversão, tinha sido prostituta, e, achando pouco, acrescentou que ela não só “servia” os soldados do quartel de Magdala, mas também arranjava mulheres para os rapazes da caserna.

De onde o Padre tirou essa história? Pensei eu comigo mesmo. Certo que havia uma velha tradição que pintava Madalena como pecadora arrependida. Conta-se, por exemplo, que em 591 o Papa Gregório contribuiu para a confusão de três mulheres que aparecem nos Evangelhos, ao dizer, num sermão: “Aquela que Lucas chama de pecadora e que João chama de Maria [de Betânia] acreditamos ser a Maria de quem, segundo Marcos, Jesus expulsou sete demônios”. A arte, por outro lado, encarregava-se de representar Maria Madalena como a prostituta penitente de cabelos soltos.

Essa idéia, porém, não resistiu a estudos bíblicos mais aprofundados. Não há nos Evangelhos um versículo que seja, capaz de fundamentar a tese de que a pecadora perdoada (Lc 6, 36-40), que com lágrimas banhou os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos, seja Maria de Magdala (Lc 8, 2). Esta, diferente da primeira, é indicada pelo nome, e ao lado de Joana, esposa de um alto funcionário de Herodes, de Susana e de outras senhoras, aparece como uma das mulheres que seguiam Jesus juntamente com os Doze, e os serviam com os seus bens. Também não se deve confundir Madalena com a irmã de Marta, a Maria de Betânia, que preludiou a morte de Jesus, ungindo-lhe os pés com caro perfume (Jo 12, 1-8). Portanto, a imagem da Madalena arrependida é um estereótipo caduco, desculpável para o pensamento do século VI, mas que não se sustenta nos dias de hoje. Tanto que a Igreja Católica cuidou de desembaralhar a história dessas três mulheres, quando revisou o Missal em 1969. Assim não é por acaso que em sua festa litúrgica, celebrada em 22 de julho, Santa Maria Madalena não seja apresentada como uma penitente, mas invocada como a estrela feliz de Mágdala, a quem foi confiado o primeiro anúncio da alegria pascal.

Também não se pode dizer que os demônios arrancados de Madalena são a prova de que ela havia sido uma meretriz. Na mentalidade da época, demônios designavam os mais diversos elementos malignos, como doenças, instintos e emoções que se apoderavam das pessoas, eram a personificação das forças do mal. Até os adversários de Jesus chegaram a dizer que ele estava possuído por um demônio (Mc, 3, 22). E aqui não vai nenhum vestígio de preconceito contra prostitutas convertidas; é apenas uma questão de justiça, como foi o reconhecimento do trabalho do Padre Jonas, quando lhe foram conferidas as honras de Monsenhor.

* Este texto faz parte do livro O sentido da vida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Justiça ao ar livre, poesia na audiência e a inocência de Maria.


(texto enviado para o projeto para não esquecer – TRT13).

Juiz de interior, por circunstância e vocação, tenho tido a sorte da existência sob um ritmo de vida menos estressante que o das grandes cidades. Não que por estas bandas não se tenha trabalho a fazer. Ele existe, e existe em abundância. Mas não há tanta sofreguidão nos deslocamentos pelos espaços urbanos, e a coerção do tempo, que transforma vida em corre-corre, aqui é menos avassaladora que a metropolitana.

O compasso mais cadenciado da vida também tem sido oportuno para que eu possa receber as pessoas que procuram se socorrer da Justiça do Trabalho, e com elas conversar mais detidamente, seja em audiência, no gabinete ou na rua. Ao mesmo tempo, permite-me ruminar experiências edificantes que tenho vivido nestes anos, algumas delas que bem merecem fazer parte das histórias para não esquecer.

Permita-me contar três episódios, que se passaram na cidade de Taperoá. Daquela cidade, em que trabalhei em meados dos anos noventa, guardo boas recordações, como também preservo na mente e no coração outros bons momentos vividos em Monteiro, Itaporanga, Picuí e Areia, onde também atuei, antes de vir para minha Guarabira. Mas vamos às histórias.

Justiça ao ar livre

O ideal de um palácio de justiça, segundo Calamandrei, seria ainda o do bom tempo antigo:

Um carvalho e, à sombra dele, o juiz que ouve as razões dos que serão julgados; em volta, o povo que assiste em círculo, sem biombos e sem barreiras divisórias. Justiça ao ar livre, à luz do sol, sem portas fechadas e sem corredores secretos.[1]

Meus tempos em Taperoá (menos antigos que os de Calamandrei), ainda foram os tempos em que havia juiz classista e máquina de datilografia. Desta cheguei a sentir falta, nos primeiros meses após a implantação do computador na realização de audiências; não exatamente da máquina, mas do estrepitar datilográfico que intervalava nossas falas, e cujo emudecimento causava, num primeiro momento, um vazio sonoro na sala de audiência. Dos classistas também senti falta, não exatamente da sua função, mas do acolhimento caloroso, próprio da boa gente de Taperoá.

O prédio da Junta de Conciliação e Julgamento era novinho em folha, e mesmo não sendo um ideal de palácio de justiça, como imaginava Calamandrei, tinha ao lado uma árvore frondosa. E foi debaixo dessa árvore, sem nenhuma premeditação, que fizemos uma audiência ao ar livre, à luz do sol, sem portas fechadas.

Eu havia chegado a Taperoá há pouco tempo. Certo dia, após as primeiras audiências, fui informado que para a sessão seguinte o reclamante tinha chegado numa ambulância, e não tinha condição de se locomover até o lugar onde estávamos. O advogado dele não havia pedido adiamento da audiência, nem qualquer outra providência; seu constituinte queria mesmo ser ouvido naquela oportunidade. Sem qualquer hesitação, deslocamos uma mesinha para a máquina, uma cadeira para o datilógrafo e, de repente, a tenda da Justiça estava armada debaixo da árvore. Naquele lugar aprazível, reunimo-nos para ouvir o que nos tinha a dizer o reclamante, deitado na maca de uma ambulância. Depois de interrogado, o reclamante assinou a ata e foi liberado, e nós voltamos à sala de portas fechadas, para continuar a audiência.

Não lembro o nome das partes, muito menos o número do processo. Um dos classistas chegou a comentar: pena que não trouxemos uma máquina fotográfica para registrar a audiência. De fato, foi uma pena. No entanto, mesmo sem o registro fotográfico, aquele fato nunca foi apagado de minha memória. Aquela árvore, creio eu, nunca mais serviu de abrigo para outra audiências, mas deve estar lá, como testemunho de um momento singular de realização de justiça ao ar livre.

Poesia na audiência

Nestes meus tempos como juiz, tenho tido, de modo geral, um bom convívio com advogados. Cheguei a escrever um artigo em homenagem a eles, intitulado Socorro, um advogado: breves considerações sobre a ética do advogado, que pode ser acessado no site do jus navigandi. E em Taperoá, tive o prazer de manter contato mais próximo com dois advogados, dos quais guardo boas lembranças: Dr. Fenelon Medeiros e Dra. Celeide Farias.

Doutor Felenon, eu já havia conhecido como chefe de Departamento do Curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba. Lembrava dele como integrante da comissão julgadora para escolha do orador de nossa turma de Direito, quando eu e o colega Romero Carneiro, hoje também juiz, participamos da disputa. Já a doutora Celeide, esta eu só conheci em Taperoá.

Dr. Fenelon e Dra. Celeide atuaram em muitos processos na Junta de Taperoá; ele, de um lado; ela, do outro lado da mesa. Quando chegamos ao final de uma série grande de audiências, envolvendo processos nos quais ambos atuavam, ocorreu um fato que merece ser lembrado. Terminadas as sessões do dia, um deles (acho que foi a advogada) pediu permissão para recitar um poema, pedido prontamente deferido. O outro, não se fazendo de rogado, também pediu a palavra para recitar outro poema, no que foi igualmente atendido. Foi assim, sem nenhum planejamento prévio, que a poesia invadiu a sala da justiça trabalhista em Taperoá, em pleno período de audiências. E tudo terminou em aplausos.

A inocência de Maria

Doutor Fenelon era advogado de Maria. Sempre muito espirituoso, antes da audiência dela, ele me alertou:

─ Doutor, a próxima reclamante se chama Maria. Ela pode parecer um pouco agitada, mas não se preocupe, pois ela está medicada. Ela é de uma região perto daqui, que dá muito doido. Eu, inclusive, sou de lá.

Não pude conter o riso, com aquela frase impagável do advogado, mas logo me recompus para receber Maria, com a seriedade que se espera de um magistrado.

Feito o pregão, Maria entrou na sala. Cumprimentei-a, como de praxe. A outra parte, com a sua advogada, já estava no recinto, uma vez que havia participado da audiência anterior. Maria estava tranquila, e respondeu sem problemas as poucas perguntas que lhe foram feitas. Todavia, seu semblante não negava a falta de compreensão sobre o que acontecia na audiência. Tentei imaginar o que se passava na cabeça daquela mulher, bombardeada por um discurso jurídico que ela não conseguia alcançar, mas que se desenrolava em função de um direito que era dela. Mas Maria parecia feliz.

Terminada a audiência, a advogada da outra parte veio falar com Maria, dirigindo-se a ela com gestos e palavras afáveis, o que a deixou ainda mais feliz. A advogada retirou-se, e Maria ficou mais um pouco, conversando com seu advogado. E foi logo perguntando:

─ Doutor Fenelon, quem é aquela doutora tão educada, que me tratou tão bem? Ela é a promotora?

O advogado, então, respondeu quase num sussuro:

─ Não, Maria. Aquela doutora é advogada contra você.

E Maria, com a inocência abalada por aquela inesperada revelação, só conseguiu balbuciar uma palavra sobre a doutora que lhe despertara tanta admiração:

─ Falsa!

Aquele episódio me levou a escrever um texto, publicado no boletim da Amatra XIII, em agosto de 1999, intitulado E agora, Maria? O episódio não é narrado naquele texto. Mas a inocência de Maria serviu de inspiração para falar sobre esperanças e desesperanças de pessoas que batem às portas da Justiça do Trabalho, para fazer valer direitos que são delas, mesmo compreendendo quase nada do falar e do agir dessa Justiça, na tutela desses direitos.



[1] CALAMANDREI, Piero. Eles, os juízes, vistos por um advogado. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 303.



sábado, 13 de novembro de 2010

Caldeirão de Juazeiro

Eu, brasileiro, nordestino, paraibano, nascido e criado em Guarabira, sempre gostei de ler, de me informar, de saber da história e das histórias. Mas foi somente na idade madura, numa aula de Antropologia, ministrada por Frei Tito, no curso de Teologia, que ouvi falar, pela primeira vez, no beato José Lourenço, nascido aqui pertinho, em Alagoa Grande. O beato, seguidor do Padre Cícero, foi protagonista da história do Caldeirão de Juazeiro, ainda desconhecida de muitas pessoas, mesmo daquelas que gostam de saber da história e das histórias.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fé e razão


Professora do interior, ela aguardava a palestra no treinamento realizado na capital. E logo que o instrutor iniciou a conferência, ela se fez toda ouvidos:

— Bom dia a todos. É um prazer falar com vocês sobre a busca da verdade nos domínios das ciências. Mas antes de qualquer coisa, gostaria de fazer-lhes uma advertência: evitem, em sala de aula, qualquer discussão relativa à fé, mesmo que os alunos demonstrem interesse pelo assunto. Digo-lhes isto porque fé e ciência são como água e óleo; não se misturam.

Ouvindo aquilo, a professora desligou a atenção das palavras do instrutor:

— Blablablá, blablablá...

Começou, então, a refletir sobre o que acabara de ler na Encíclica Fides et Ratio...

O ser humano, de todos os entes criados, é o único capaz não apenas de saber, mas também de saber que sabe. É vivente prenhe do desejo da verdade: de onde venho? Para onde vou? Terá a vida um sentido? Como se originou a espécie humana? Estaremos sozinhos no universo?

Em busca de respostas, observa o mundo em derredor. Porém não lhe bastando o conhecimento empírico, traz o universo para dentro dos laboratórios, nos quais se constróem os saberes científicos. Mas os tubos de ensaio ainda não lhe bastam. Então exercita a capacidade especulativa. Formula sistemas filosóficos. Estes caminham de mãos dadas com as verdades religiosas, pois é a partir da análise racional da Revelação que o conhecimento religioso pode se apartar da superstição.

Nesses diferentes rostos da verdade, o ser humano, no mais das vezes, põe-se diante da Verdade, que transcende ciências, filosofias e religiões. E quando afirma a cognoscibilidade natural do Criador, princípio e fim de todas as coisas, não tem outra saída senão reconhecer a impossibilidade absoluta de divergência entre fé e razão, pois, como ensina a encíclica:

O mesmo Deus que revela os mistérios e comunica a fé, foi quem colocou também, no espírito humano, a luz da razão. E Deus não poderia negar-se a si mesmo, pondo a verdade em contradição com a verdade.

O mesmo Deus que revela... luz da razão... a verdade em contradição com a verdade... Essas ponderações evocam outras, naquela cabeça grávida de ideias. A professora lembra-se de ter lido na introdução da Ética de Spinoza, que para aquele filósofo, diferente do que dissera Pascal, não há divisão entre as razões do coração e as razões da razão, pois Deus é tanto a Razão, o eterno Logos, quanto o Coração, o infinito Amor, o que faria Spinoza concordar com o pensador Albert Schweitzer, para quem “o Amor é a culminância da Razão”.

De repente, apagam-se as luzes da sala. O instrutor conduz uma apresentação com o data show. E continua sua explanação sobre a busca das verdades nos domínios das ciências:

Blablablá, blablablá, blablablá...

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