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Religio

sábado, 30 de agosto de 2014

Um realista esperançoso





No dizer de Ariano Suassuna, o otimista é um tolo, o pessimista, um chato; bom mesmo é ser um realista esperançoso. Para mim, o cristão é, ou pelo menos deveria ser, um realista esperançoso.



Ser simplesmente otimista não é defeito de ninguém. Muito pelo contrário. Ver o lado bom das coisas, e mesmo na dificuldade, esperar que elas melhorem, sempre faz bem a qualquer um. E igual a Norberto Bobbio, quando reflete sobre o futuro da humanidade, penso que se não temos certeza para onde os rumos da história podem nos levar, também não temos o direito de espargir pessimismo ao longo do caminho por onde caminhamos. O mal do otimista é exagerar na dose, o que pode fazê-lo descambar para a ingenuidade. Não é por acaso que a máxima panglossiana de que tudo que acontece é para o melhor nesse melhor dos mundos – que ganhou as telas do nosso cinema, no filme Candinho, de Mazzaropi – antes de ser lição de filosofia, é fruto da verve zombeteira de Voltaire.



Por outro lado, ainda que às vezes o nosso mundo pareça o pior dos mundos possíveis -- talvez por conta da sensação de que tudo vai de mal a pior, já que o mal faz mais barulho e chama mais atenção que o bem -- tenho de concordar com o mestre Ariano. É muito chato conviver com quem sempre espera o pior, gente que parece ter uma nuvem carregada sobre a cabeça, como Uruca, do desenho animado, ou que fica o tempo todo a se lastimar, feito outro célebre personagem de Hanna-Barbera, Hardy, a hiena pessimista da série Lippy e Hardy, que sempre repetia: Eu sei que não vai dar certo... Oh céus! Oh vida! Oh azar!...



Diferente desses dois extremos, o cristão pode lidar melhor com a tensão de viver no mundo sem ser do mundo. Sabe que a melhor das utopias jamais se compara com o habitat natural que o aguarda na pátria da escatologia. E essa certeza fundada na fé e na esperança, longe de lhe tornar alienado – afinal, o próprio Cristo não se fez alheio à condição humana, mas entrou na história sem se limitar ao mundo --, aguça ainda mais o senso crítico do cristão. Este, por exemplo, pode participar intensamente de um processo político. Mas não troca sua fé por ideologia partidária, sua caridade por bondades interesseiras, nem sua esperança por promessas eleitoreiras.



Na espiritualidade desse realista esperançoso, promessas que contam são as promessas de Deus. E estas não se confundem com conteúdos de utopias sociais, políticas e econômicas, embora o agir de Deus na história perpasse pelas instituições humanas, nelas deixando vestígios de fé, amor e esperança, que só serão plenificadas no novo céu e na nova terra que hão de vir.



Tudo isso faz com que o cristão não seja um otimista ingênuo, tampouco um pessimista chato. Pois agindo no meio em que vive, para fazer do mundo um lugar melhor para viver, começa aqui e agora, a realizar o Reino de Deus. Ao mesmo tempo, porém, não se perde na ilusão de achar que os projetos humanos são perfeitos, autossuficientes, eternos. Pois tudo o que pode construir nesta terra é sempre precário, como inevitavelmente precária é a condição humana. Com a sabedoria e a humildade de quem não se nutre da soberba, o cristão, um realista esperançoso, abre-se sempre ao mistério da transcendência, e sabe que enquanto vive nesta terra será sempre um peregrino, ainda que o mundo ao seu redor possa parecer o melhor dos mundos possíveis.                             

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