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Religio

sábado, 1 de setembro de 2012

Chamam isso de utopia


Foi muito bom participar de mais um Encontrão Diocesano da Família. Encarregado da exposição na oficina família cristã: renovadora da sociedade, pude compartilhar com pessoas de diversas comunidades, algumas reflexões sobre a missão da família cristã no mundo de hoje, tema da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, do Papa João Paulo II.

Iluminados por aquele documento, refletimos sobre as luzes e sombras que envolvem a família. No seu lado claro, percebemos que há uma consciência maior dos direitos de seus integrantes. Mulher e filho não são mais vistos como propriedades do antigo cabeça do casal, e sim como protagonistas na nova ordem familiar. E se não bastam o amor e o zelo que se espera de maridos e pais, a “Maria da Penha” assegura que em briga de marido e mulher o direito mete a  colher, e o Estatuto da Criança e do Adolescente adverte que nenhum pai deve se tornar espancador de filho, até porque este, se for o caso, pode dizer: não me maltrate, senão eu chamo o “tutelar”.

Mas assim como a lua, a família tem seu lado obscuro. A começar pelo matrimônio, da qual ela deve se originar. Em vez de cultivarmos a indissolubilidade do que Deus uniu, vamos aos poucos sacramentando a descartabilidade do casamento, e nos acostumando com a ideia de que fidelidade e compromisso estão fora de moda. Confundimos ainda liberdade com falta de limites na educação dos filhos, não sendo  raro ouvir-se na escola: eu não obedeço nem a minha mãe, em casa, por que vou obedecer à senhora, professora?

Trazer mais luz para a família requer sabedoria. Esta, como diz a Exortação Apostólica, é a grande necessidade de nossa época. Temos fome e sede de sabedoria, não como sinônimo de esperteza, de nos darmos bem passando a perna nos outros, mas de compreendermos o sentido último da vida, a fim de que, vivendo de acordo com este, possamos renovar a sociedade.

Mesmo que não haja receita única para dar sentido à vida, este, na perspectiva cristã, só pode ser encontrado no amor. Se Deus é amor, e nos criou à sua imagem e semelhança, o essencial em nós só pode ser o amor.  Por isso, como lembra a Exortação, “o homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e se não o torna algo próprio, se nele não participa vivamente.”

A experiência do amor começa na família. Ao se tornarem uma só carne, os amantes dão início a uma comunidade de amor, que não se contém nos laços conjugais, mas transborda para os que são gerados dessa pertença mútua. Quando nascem os filhos, os pais deixam de viver só para si e passam a viver também para estes. E para que vivam bem, os que formam a comunidade familiar devem se exercitar diariamente na educação para e pelo amor, o que não significa que na família não haja conflitos e problemas.

Conflitos são inerentes aos grupos humanos e não são um mal em si mesmo. O mal ocorre quando resolvemos os conflitos com violência, e não com o diálogo.  Problemas, todas as famílias têm e sempre terão. A Boa Nova cristã não é o anúncio de que nossos problemas se acabaram, mas que, mesmo nas tribulações do mundo, sempre teremos ao nosso lado Aquele que venceu o mundo. Não se deve esquecer, ainda, que o amor também é exigente, e amar, às vezes, é dizer não.

Somente na vivência do amor, a família se faz renovadora da sociedade, o que pode parecer utopia, que não é simples quimera. Esta é produto da imaginação, sem possibilidade de se concretizar, enquanto aquela é o lugar onde queremos chegar, sonho que, quando não se sonha só, é prelúdio de realidade.

Utopia também é o título de uma conhecida canção do padre Zezinho, que fala das lembranças do aconchego de um lar: a conversa no alpendre ao final da tarde; os pais, trabalhando o ano inteiro, sem conseguir suprir todas as carências materiais da família, mas sem deixar-lhe faltar o mais importante, o cuidado e o amor, traduzidos no sorriso e no olhar. Mas a canção também fala das sombras que encobrem a família: o amor transformado em consórcio, “compromisso de ninguém”; os filhos que “bem mais do que um palácio, gostariam de um abraço e do carinho entre seus pais”.

A única via para dissipar essas sombras é a iluminação do amor. Houvesse amor, não só o divórcio não viria, como canta o padre, mas o sonho de tornar a família renovadora da sociedade ganharia mais concretude. E não devemos nos inquietar se alguns chamam isso de utopia, se nós, como na canção, a  tudo isso chamamos paz.
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