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Religio

domingo, 28 de abril de 2013

O presente do presente




Falar sobre o tempo é algo comum em nosso dia a dia: o tempo voa, não tenho tempo, tempo é dinheiro, aproveite o tempo, o tempo cura as feridas.... Quem de nós já não repetiu sem pensar uma dessas frases sobre o tempo? Mas quando paramos para refletir sobre o que é o tempo, este parece um enigma. Como questiona Santo Agostinho: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei.”

Costumamos dividir o tempo em passado, presente e futuro. Mas quando falamos sobre o passado, este já não existe mais, e o futuro, que ainda não chegou, também é inexistente. O presente, por sua vez, não continua sempre presente – pois se assim fosse seria eternidade – mas está a todo momento se tornando passado, deixando também de existir. Por isso, em vez de passado, presente e futuro, Santo Agostinho prefere falar em presente do passado, presente do presente e presente do futuro, espécies de tempo que existem em nossa mente.

Presente do passado é memória. Quando terminar de escrever estas linhas, o momento que comecei a escrevê-las já deixou de ser o agora para ser lembrança. Presente do futuro deveria ser  esperança, embora às vezes seja preocupação. Enquanto redijo este texto, minha mente pode ser assediada por pensamentos sobre coisas que tenho de fazer amanhã: audiências a presidir, processos a sentenciar, compromissos agendados que espero acontecer, que neste momento são um vir-a-ser, mas que também podem não se realizar. Já o presente do presente é o fruir perene das frações do viver, que logo que acontecem deixam de existir.

Para ser bem vivido, o presente do presente deveria ser, antes de tudo, contemplação, percepção direta e cuidadosa de tudo o que vivenciamos: respirar sentido a respiração, caminhar percebendo os próprios passos, enfim, fruir intensamente cada instante de vida que nos é dado a viver. Quantas vezes engolimos comida sem degustarmos o que comemos ou, em nossas viagens, ficamos mais preocupados em tirar fotos para depois exibir nas redes sociais –  ou quase imediatamente com o instagram, que não substitui a contemplação –, do que aproveitar cada momento que nos é dado como presente a ser vivido? E, na verdade, nem é preciso muita coisa para vivermos bem cada momento da vida. Como lembra Anselm Grün, “precisamos apenas atenta, consciente e concentradamente estar inteiros naquilo que estamos imediatamente fazendo. Nesse processo, entramos em contato com nós mesmos, com nossa alma, o que, com crescente atenção, torna-se sempre mais profundo.”

Esse contato com nós mesmos, vivendo bem o presente do presente, é fundamental para o crescimento pessoal. Alimentar a alma com lembranças doutrora pode até nos fazer bem. Mas a fuga no passado, expressa na lamentação de quem vive repetindo “ah! que saudades que eu tenho”  ou “bom era no meu tempo”, pode nos arrastar para o tenebroso vale da melancolia. Por outro lado, se o presente do futuro é importante para nos encher de esperança, maravilhoso alimento da alma sedenta de horizontes, não convém, todavia, adiarmos a vida para amanhã, sobrecarregando a existência com o peso excessivo da cobrança por metas, que nos faz desperdiçar o presente com a preocupação que nos consome e angustia.

Jesus de Nazaré nos alerta para a asfixia da preocupação com coisas que não são essenciais para nossa vida, e que nos leva não a viver, mas a desviver: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal”. Afinal,   quem de nós tem o poder de, sob o efeito da preocupação, aumentar um dia sequer à duração de nossa existência?

É importante, pois, buscar a sabedoria de sempre aprender com os lírios do campo, que não trabalham nem fiam, e com as aves do céu, que não ajuntam em celeiros, e nem por isso são excluídos da Providência Divina. Isso não significa que o nosso dia a dia deve ser preenchido com indolência e irresponsabilidade, mas que o foco de nossas preocupações não seja correr sofregamente atrás de tesouros na terra, que a traça corrói. De que nos serve, também, vivermos  remoendo melancolias do passado ou paralisados pelo temor do futuro? O presente do presente nos convida à ação e à contemplação influenciadas não pela nostalgia do que se foi ou pelo medo do que virá, mas pela alegria e confiança de que cada instante da vida é uma dádiva de Deus.
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