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Religio

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sal da terra, sal do mar



Era dia de Santo Antônio do ano de 1654. Nas terras do Maranhão, o Padre Antonio Vieira estava prestes a embarcar para Portugal, na tentativa de conseguir, da Coroa lusitana, leis que  protegessem nossos índios da exploração e da ganância do colonizador. Mas antes da viagem, subiu ao púlpito para pregar o sermão, tido como um dos mais belos textos de crítica social  que conhecemos:

            “Vós sois o sal da terra!
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar...”

Evocou, então, o  célebre episódio da vida do santo do dia. Santo Antônio, pregando na cidade italiana de Arimino, foi hostilizado por pessoas que não só não lhe deram ouvidos, mas levantaram-se contra ele, a ponto de quase tirarem-lhe a vida. O sábio santo de pés descalços nem sandálias tinha para delas sacudir o pó, como recomendava a protestação evangélica em situações de hostilidade explícita como aquela. Também não lhe aprazia bater em retirada, calar-se ou quedar-se em covarde dissimulação.
            
 O santo, então, como lembra o padre, não desistindo da doutrina, só fez mudar de púlpito e de auditório. Afastando-se dos habitantes da terra, foi ao encontro das criaturas do mar, a estas dirigindo a palavra: “Já que não me querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.” E atraídos pela palavra do santo, que invocava as maravilhas do Altíssimo e os poderes do que criou a terra e o mar, os peixes acorreram à praia, “os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, Antônio pregava e eles ouviam.”

O Sermão de Santo Antônio aos peixes, cujo assunto, segundo o Padre Vieira, é que aquele santo foi sal da terra e sal do mar, apresenta uma rica alegoria sobre virtudes e vícios de peixes e homens. Por que no dilúvio, quando a terra virou mar, os peixes, entre todos os animais, foram os que se deram melhor? Terá sido porque os outros bichos, como pensava Santo Ambrósio, por estarem mais próximos dos homens, estavam mais contaminados por sua corrupção? Se não se ofereciam peixes em sacrifício, já que eles não conseguiam chegar vivos aos altares, por que peixes mortos foram multiplicados com pães, para saciar a fome da multidão como prenúncio da Eucaristia?
         
Foi o fel de um peixe, como destaca o sermão, que curou a cegueira do pai de Tobias, e a queima de parte de um coração de peixe que expulsou o demônio Asmodeu. Todavia, há peixes,  como os roncadores, comparados a homens arrogantes; os pegadores, aos parasitas; os voadores, aos presunçosos; e o polvo, que mesmo não sendo peixe é habitante das águas, tido como símbolo de traição, embora, em nosso meio, os mestres da perfídia sejam batizados com nome de outro peixe, a traíra.
       
Também não passa despercebido no sermão, o fato dos peixes grandes engolirem os pequenos, numa espécie de canibalismo que, entre humanos, não era privilégio de aborígine: “Cuidai que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes vós todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas (...)? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer."
     
Canibalismos e corrupções de toda ordem não se diluíram completamente com as águas do dilúvio, nem ficaram restritos ao reino coberto pelas águas: assédio dissimulado de honorável estadista a membro da Suprema Corte, tentando acobertar  desmandos de seus partidários; mandatários do povo atemorizados com o que pode rolar na cachoeira de uma CPI; operações policiais que capturam peixes pequenos e corruptos, mas não conseguem despedir de mãos vazias os grandes e corruptores; magistrados gananciosos fazendo farra com precatórios; conchavos políticos, de norte a sul do país, para que as mesmas pessoas, famílias e grupos se perpetuem no poder, com a conivência de nossa inércia e aparente legitimação das urnas, transformando nossa democracia relativa numa oligarquia absoluta; corrupção, grande e pequena, incorporada à paisagem natural dos reinos do mar e da terra sem provocar nojo e indignação, mesmo ante a exigência profética de sermos  sal da terra. Imagino que tudo isso nos deve fazer pensar: será que é o nosso sal que não mais salga, ou a terra, que não se deixa salgar?


           

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ESTAMIRA EM TODO CANTO




Nossa rua ainda é sossegada. As calçadas, diferentes de outras no centro da cidade, não são esbulhadas pela mercantilice – formal ou informal e impune à fiscalização –,  o que permite que elas cumpram não apenas a função social de tráfego de pedestres, mas a  conversa com os vizinhos, nas noites agradáveis de verão.

Numa dessas noites, comentávamos o caso de uma menina, de comportamento um tanto agressivo (não sei se devido a pertubações mentais) que, para deixar de importunar outras pessoas, tinha sido colocada num depósito de lixo. No meio da conversa, um vizinho, em tom de brincadeira, perguntou se a solução para o problema não seria ele ou eu adotar a menina.

 Aquela pergunta, feita de maneira despretensiosa por um amigo que irradia bom humor, pode provocar reflexão bem mais profunda do que muitos filosofismos de happy hour de calçada: o que estamos fazendo – eu e você – para adotar a causa das pessoas que tratamos como estorvo na sociedade? Pensando sobre a questão, lembrei-me de Estamira.

Rotulada de louca por parentes e pela Medicina, Estamira virou protagonista de documentário de sucesso, filme de estreia do fotógrafo Marcos Prado como diretor de cinema, que foi premiado aqui e alhures. Nele podemos ver e ouvir a contundência da vida e das filosofices – para muitos, maluquices – de uma mulher sexagenária, que encontra no lixão a possibilidade não apenas de sobreviver, mas de se sentir feliz, e que contrapõe sua manifesta sandice à nossa presunçosa lucidez.

Vindas do meio do lixo para as telas do cinema, muitas falas de Estamira, entrecortadas por xingamentos contra Deus e os “espertos ao contrário”,  ganham projeção bem maior do que os discursos daqueles que tachamos de loucos e deixamos falando sozinhos. Isso aqui, diz ela falando sobre o lixão, “é um depósito de restos e de descuidos... quem revelou o homem como único condicional ensinou ele conservar as coisas e conservar as coisas é proteger, lavar, limpar... quem revelou  o homem como único condicional não ensinou trair, não ensinou humilhar, não ensinou tirar, ensinou ajudar... sou louca, sou doida, sou maluca, sou azogada, porém lúcido, consciente e sentimentalmente... a minha missão é revelar... eu não estou orientando, nem quero orientar, estou alertando... eu nunca tive aquela coisa que eu sou, sorte boa... tudo que é imaginário tem, existe, é...”

Alguns anos após o sucesso do filme,  Estamira morreu. Chegava ao fim a história de uma vida atribulada: sofrimento devido à doença mental da mãe; abandono de quem, em vez de lhe dar o devido cuidado, jogou-a num prostíbulo aos doze anos de idade; traição e maus tratos dos companheiros; violência do estupro, mesmo ante o apelo de que o estuprador não fizesse aquilo pelo amor de Deus; espancamento para externar, à força, a fé nesse mesmo Deus; o filho que acha que as alucinações da mãe são possessões demoníacas; a filha mais nova, criada por mãe postiça, que tem dúvida se teria ficado mais feliz ao lado de Estamira; tudo isso teve ter contribuído para que a cabeça daquela mulher ficasse “parecendo um copo cheio de sonrisal”.

A insanidade de Estamira, diz Arnaldo Jabor, é uma “linguagem de defesa diante de um mundo mais louco que ela. A sua loucura é a narração de uma sabedoria torta, de uma anomalia que a salva de uma realidade, esta sim, terrivelmente insana.”
            
Nessa realidade, exorcizamos não apenas possessão demoníaca, mas a centelha de fé e amor do coração das pessoas;  dopamos alienados e alienamos a lucidez; convivemos bem com o lixo debaixo do tapete da nossa consciência de “cidadãos impecáveis” e nos livramos de pessoas como se descartam objetos no lixo. Nessa realidade insana, a exemplo do que diz a protagonista do filme, Estamira está em tudo quanto é canto.
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