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Religio

sexta-feira, 29 de março de 2013

FRANCISCO



Foi só o cardeal Bergoglio tornar-se Papa, e Francisco virou nome doce na boca da grande mídia. Francisco pr'aqui, Francisco pr'acolá, Francisco isto, Francisco aquilo... Certo que o Pontífice representa a novidade. Primeiro Papa sul-americano, primeiro  jesuíta, primeiro Francisco. Não bastasse isso, suas expressões de simplicidade e ternura cativaram o mundo já na primeira impressão.
           
Como católico, fiquei radiante com a escolha do novo sucessor de Pedro – graças a Deus o Espírito sopra onde quer e, ungindo o cardeal argentino, fez muito vaticanista errar feio nos prognósticos –, e também fiquei empolgado com o retumbante badalejar midiático decorrente dessa escolha. Mas é sensato não esquecer as armadilhas que uma midiatização tão grande pode esconder.
           
Numa renomada revista brasileira, por exemplo, a manchete da principal reportagem sobre “Francisco, o simples”, diz que a “Igreja Católica tenta voltar à essência, com a eleição de um pastor de alma modesta para cuidar do seu rebanho ameaçado pelo laicismo e dar fim às ovelhas sujas”. Todavia, como ovelha desse rebanho, não me sinto nem um pouco atemorizado pelo laicismo, nem acho que ele seja ameaça para nossa Igreja. Pior ainda é sugerir que o papel de um bom pastor seja “dar fim às ovelhas sujas.”
           
Afora produzir manchetes desse tipo, a grande mídia contribui para hiperdimensionar expectativas de pessoas, grupos e povos, cujos problemas não podem ser resolvidos somente pela Igreja, muito menos por um Papa, por mais santo que seja, ainda que ele tenha escolhido, como inspiração para seu Pontificado, a vida do grande Santo de Assis.
           
Francisco de Assis foi uma das luzes da Igreja medieval, o que desmente o clichê de que aquela Idade foi das trevas, pois assim como o ser humano, todas as eras são marcadas por sombras, penumbra e luz. Nascido em berço de ouro, Francisco, como lembra Jacques Le Goff, desfrutava seus dias de juventude “nos divertimentos de seu tempo, nada mais: nos jogos, no ócio, nos bate-papos, nas canções, e em matéria de roupas andava sempre na moda.” Mas convertido por um chamado dos céus, fez-se pobre por opção e despiu-se literalmente de tudo, propondo ao mundo um único caminho, Jesus Cristo, e um único projeto de vida: “seguir nu o Cristo nu”.
           
Na construção desse projeto, Francisco, que na perspectiva eclesial era um leigo, teve de enfrentar conflitos e incompreensões, sendo visto por muitos como um louco. Afinal, o que se podia pensar de alguém que cantava louvores ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão Vento, ao irmão Fogo, à mãe Terra e até à irmã Morte?  E o que dizer de quem não teve repugnância de beijar o leproso?
           
Talvez por isso, Inocêncio III, chefe de uma hierarquia acostumada a muita pompa, tenha sido hostil à primeira visita de Francisco e seus seguidores maltrapilhos. Na cabeça coroada do Papa, aquele leigo esfarrapado, pregando o seguimento radical a Cristo, não estaria no caminho da heresia? Daí que só depois da intercessão de outros líderes da Igreja, o Pontífice abrandou o coração para levar Francisco a sério, principalmente depois que ouviu de um cardeal a seguinte questão: “Se rejeitarmos o pedido desse pobre sob tal pretexto, isso não será afirmar que o Evangelho é impraticável e blasfemar contra Cristo, seu autor?”
           
É inspirado na vida desse santo, que o novo Papa propõe uma Igreja pobre para os pobres. Mas será que os ricos aceitam, como Francisco de Assis, tornar-se pobres por opção, para que os miseráveis cheguem ao menos a ser pobres? E nós estamos dispostos a repartir melhor as riquezas da irmã terra, que são limitadas e deveriam saciar as necessidades de todos?
           
Tomemos um exemplo nosso. Reduzir desigualdades regionais é desejo guardado na Constituição, mas quando se fala em distribuir os ganhos do pré-sal, cada qual só pensa no seu cada qual. Se é assim entre irmãos, o que se pode esperar da partilha dos bens entre diferentes povos do mundo, no qual a fortuna de uns se sustenta sobre a miséria de tantos? E a grande mídia, que se nutre de grande audiência e grande patrocínio, vai aderir a um projeto verdadeiramente franciscano para o mundo, se para isso tiver de se voltar contra interesses de quem lhe dá de comer?
           
Não creio que esse cenário pode ser mudado com a velha falácia de que é preciso primeiro esperar o bolo crescer para só depois dividir melhor as fatias. Remédio para a miséria não é a miragem de uma prosperidade que não pode chegar para todos, mas justiça e fraternidade já. Sei também que pequenos gestos de simplicidade e ternura não bastam para converter o mundo. Desde os tempos medievais brilha a luz franciscana, acesa no Círio Pascal de Jesus Cristo, e nem por isso o mundo conseguiu se livrar completamente das trevas. Mas se um Papa se propõe a tocar a barca de Pedro, guiado pelo farol de Francisco, isso não deixa de ser um sinal de esperança.
                                                                      
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sábado, 2 de março de 2013

Charge de palavras




Não é de hoje que o carnaval representa uma celebração do mundo às avessas. Homem se torna mulher, plebeu tem seu dia de nobre e súdito brinca como rei. Como lembra Bakhtin, desde a Idade Média, os festejos carnavalescos criavam, ainda que temporariamente, uma realidade totalmente diferente e não oficial, construindo uma espécie de dualidade do mundo, sem a qual não se pode compreender nossa consciência cultural.

Sobre o carnaval, Dom Hélder Câmara disse certa vez que se tratava de uma das poucas alegrias que sobrava para os pobres, e que não sabia se Diante de Deus, pesava mais os excessos cometidos por foliões ou o farisaísmo e a falta de caridade de quem se achava melhor e mais santo do que os outros, por não brincar o carnaval.
            
O carnaval também é tempo propício para a sátira política. Neste ano, em Brasília, um bloco animou os foliões com o seguinte refrão: “Guido Manteiga, que decepção! O seu Pibinho não dá nem pro mensalão”, o que inspirou uma charge em que o Ministro da Fazenda aparece, de camisa listrada, tocando um minúsculo pandeiro, o PIB, ao lado de uma mulata, cuja parte mais exuberante do corpo é o mensalão.
            
Convidado a um mergulho interior pelas cinzas da Quaresma, aquela sátira carnavalesca me faz pensar sobre questões importantes para o nosso País. Quando deixaremos ser só País do carnaval e do futebol para sermos um País de cidadania plena? Jogar todas as fichas no pré-sal não é tentar iludir os outros (ou nos iludir) com promessa de que o Pibinho de repente vai virar  Pibão? Quanto tempo  teremos de esperar  o bolo crescer para dividir melhor as fatias? Quantos carnavais e Quaresmas serão necessários para que trabalhadores tenham um salário mínimo constitucional, sem dependerem do assistencialismo demagógico-eleitoreiro? 
            
Há mais de dez anos, montei um texto com fragmentos de outros, e a intenção é que ele funcionasse como uma espécie de sátira, uma charge de palavras. Peço licença para reproduzi-lo, em parte e abaixo,  enquanto não consigo responder todas as questões acima :

            PRÓLOGO NO TEATRO
            Toque de clarim.

            O ENGRAVATADO (cerimonioso)
            
Proclama a Magna Carta: é direito de todo trabalhador um salário mínimo capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e de sua família, com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. (Risos. Mas contidos, data vênia)

            O PARAMENTADO (voz contundente)
            
Exorta a Escritura Sagrada (Dt 24,14-15) : Não oprimirás um assalariado pobre, necessitado, seja ele um dos teus irmãos ou um estrangeiro que mora em tua terra, em tua cidade. Pagar-lhe-ás o salário a cada dia, antes que o sol se ponha, porque ele é pobre e disso depende a sua vida. Deste modo, ele não clamará a Iahweh contra ti, e em ti não haverá pecado.

            Soam os clarins do carnaval.

            O ESFARRAPADO (ligeiramente ébrio, canta a antiga música de carnaval, de Ary Barroso e Benedito Lacerda):

           
            Trabalho como um louco
            Mas ganho muito pouco
            Por isso eu vivo
            Sempre atrapalhado
            Fazendo faxina
            Comendo no china
            Tá faltando um zero
            No meu ordenado.

            Tá faltando um zero
            No meu ordenado
            Tá faltando sola
            No meu sapato
            Somente o retrato
            Da rainha do meu samba
            É que me consola
            Nesta corda bamba.

            (E todos acabam no samba).
                                                          
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