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Religio

sábado, 2 de março de 2013

Charge de palavras




Não é de hoje que o carnaval representa uma celebração do mundo às avessas. Homem se torna mulher, plebeu tem seu dia de nobre e súdito brinca como rei. Como lembra Bakhtin, desde a Idade Média, os festejos carnavalescos criavam, ainda que temporariamente, uma realidade totalmente diferente e não oficial, construindo uma espécie de dualidade do mundo, sem a qual não se pode compreender nossa consciência cultural.

Sobre o carnaval, Dom Hélder Câmara disse certa vez que se tratava de uma das poucas alegrias que sobrava para os pobres, e que não sabia se Diante de Deus, pesava mais os excessos cometidos por foliões ou o farisaísmo e a falta de caridade de quem se achava melhor e mais santo do que os outros, por não brincar o carnaval.
            
O carnaval também é tempo propício para a sátira política. Neste ano, em Brasília, um bloco animou os foliões com o seguinte refrão: “Guido Manteiga, que decepção! O seu Pibinho não dá nem pro mensalão”, o que inspirou uma charge em que o Ministro da Fazenda aparece, de camisa listrada, tocando um minúsculo pandeiro, o PIB, ao lado de uma mulata, cuja parte mais exuberante do corpo é o mensalão.
            
Convidado a um mergulho interior pelas cinzas da Quaresma, aquela sátira carnavalesca me faz pensar sobre questões importantes para o nosso País. Quando deixaremos ser só País do carnaval e do futebol para sermos um País de cidadania plena? Jogar todas as fichas no pré-sal não é tentar iludir os outros (ou nos iludir) com promessa de que o Pibinho de repente vai virar  Pibão? Quanto tempo  teremos de esperar  o bolo crescer para dividir melhor as fatias? Quantos carnavais e Quaresmas serão necessários para que trabalhadores tenham um salário mínimo constitucional, sem dependerem do assistencialismo demagógico-eleitoreiro? 
            
Há mais de dez anos, montei um texto com fragmentos de outros, e a intenção é que ele funcionasse como uma espécie de sátira, uma charge de palavras. Peço licença para reproduzi-lo, em parte e abaixo,  enquanto não consigo responder todas as questões acima :

            PRÓLOGO NO TEATRO
            Toque de clarim.

            O ENGRAVATADO (cerimonioso)
            
Proclama a Magna Carta: é direito de todo trabalhador um salário mínimo capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e de sua família, com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. (Risos. Mas contidos, data vênia)

            O PARAMENTADO (voz contundente)
            
Exorta a Escritura Sagrada (Dt 24,14-15) : Não oprimirás um assalariado pobre, necessitado, seja ele um dos teus irmãos ou um estrangeiro que mora em tua terra, em tua cidade. Pagar-lhe-ás o salário a cada dia, antes que o sol se ponha, porque ele é pobre e disso depende a sua vida. Deste modo, ele não clamará a Iahweh contra ti, e em ti não haverá pecado.

            Soam os clarins do carnaval.

            O ESFARRAPADO (ligeiramente ébrio, canta a antiga música de carnaval, de Ary Barroso e Benedito Lacerda):

           
            Trabalho como um louco
            Mas ganho muito pouco
            Por isso eu vivo
            Sempre atrapalhado
            Fazendo faxina
            Comendo no china
            Tá faltando um zero
            No meu ordenado.

            Tá faltando um zero
            No meu ordenado
            Tá faltando sola
            No meu sapato
            Somente o retrato
            Da rainha do meu samba
            É que me consola
            Nesta corda bamba.

            (E todos acabam no samba).
                                                          

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