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Religio

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O coração tem razões que a razão desconhece


Texto adaptado do original de Max Shulman. “O amor é uma falácia”, in As calcinhas cor de rosa do capitão e outros contos humorísticos, p. 62-90 – extraído do livro Pensando melhor: iniciação ao filosofar, de Angélica Sátiro e Ana Míriam Wuensch. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 78-83.

As personagens e suas características:


PEDRO: adolescente astuto, intelectual, perspicaz. Nele, a razão predomina sobre a emoção. Possuía fortes “razões” para namorar Vera, uma vez que a emoção, por si só, não o levaria a nada.


JOÃO: jovem alegre, agradável, mas de cabeça vazia; andava sempre junto de Vera, dando a entender possível namoro.


VERA: uma gatinha de 16 anos, sempre na moda e alegre.


Na hora do recreio, no pátio do colégio, Pedro aproxima-se de João e pergunta:


Por que você está triste, João? Está doente?


─ Não, cara, é que não tenho uma moto. Já pensou quantas garotas eu não conquistaria com uma 250 cilindradas?


─ Nenhuma amigo, nenhuma do porte estético de Vera. Se você tivesse uma moto, só conquistaria “patricinhas” ou “peruas”, pois as pessoas atraem pelo que são e não pelo que têm ─ respondeu Pedro.


─ Eu faria qualquer coisa para conseguir uma moto. Qualquer coisa!


Pedro sabia que João e Vera eram muito chegados e, por isso, perguntou:


João, você namora Vera?


Acho que ela é legal, mas não sei se isso poderia ser considerado namoro. Por quê?


Passado o mês de férias, julho, ambos retornaram ao colégio e continuaram a conversa:


─ Já conseguiu a moto, João?


─ Não, Pedro, não tenho dinheiro para comprá-la.


─ Pois eu tenho uma moto. Meu irmão mudou-se para os Estados Unidos e deixou-a pra mim. Como eu não gosto de moto...


─ Mas que legal, cara! Quando posso buscá-la?


─ Hoje mesmo, se quiser. Mas, para ficar com ela, terá que me dar suas coleções de livros e revistas.


─ Fechado, cara. Eu não leio mesmo...


─ Mas há uma condição: não me impeça de tentar conquistar a Vera.


Fechadíssimo, irmão!


Pedro, ajudado por João, marca um encontro com Vera na quadra de peteca do colégio. Fica decepcionado com a ignorância de Vera e decide ensinar-lhe lógica.


No encontro seguinte, Vera pergunta para Pedro:


─ Sobre o que conversaremos?


─ Lógica. Lógica é a ciência do pensamento. Para pensar corretamente, devemos antes considerar alguns erros comuns de raciocínio chamados sofismas ou falácias.

Primeiro, vamos examinar o sofisma chamado generalização não-qualificada. Por exemplo: “Leite é bom para saúde. Por isso, todos devem tomar leite”.


─ Eu concordo ─ disse ela, séria ─ Acho que leite é ótimo para todo mundo.


─ Vera, esse argumento é um sofisma. Quer ver? Se você tivesse alergia a leite, ele seria um veneno para sua saúde. E são muitas as pessoas que têm alergia a leite. Por isso, o correto seria dizer: “Leite geralmente é bom para saúde”. Entendeu?


─ Não. Mas continue falando.


─ O próximo sofisma é chamado generalização apressada. Preste atenção: “Você não sabe falar grego, eu não sei falar grego. João não sabe falar grego. Então, devo concluir que ninguém no colégio sabe falar grego”.


─ É mesmo? ─ perguntou Vera, surpresa. ─ Ninguém?


─ Esse é outro sofisma. A generalização foi feita de maneira muito apressada. A conclusão se baseou em exemplos insuficientes.


─ Ei, você conhece outros sofismas? É mais engraçado do que dançar!


─ Bem, então escute o sofisma chamado ignorância de causa: “Alexandre viu um gato preto antes de escorregar. Logo, ele escorregou porque viu um gato preto”.


─ Eu conheço um caso assim ─ disse ela ─ Bernadete viu um gato preto e logo depois o namorado dela teve um acidente de...


─ Mas Vera, esse também é um sofisma. Gatos não dão azar. Alexandre não escorregou simplesmente porque viu um gato preto. Se você culpar o gato, será acusada de ignorância de causa.


─ Nunca mais farei isso, prometo. Você ficou zangado?


─ Não, não fiquei.


─ Então fale mais sobre os sofismas.


─ Certo. Vamos tentar as premissas contraditórias.


Sim, vamos.


─ “Se Deus é capaz de fazer qualquer coisa, pode criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga carregar?”


─ Claro! ─ ela respondeu prontamente.


─ Mas, se Ele pode fazer qualquer coisa, também pode levantar a pedra...


─ É mesmo! Bem, então acho que Ele não pode fazer a pedra.


─ Mas Ele pode fazer tudo!


Ela balançou a cabeça:


─ Eu estou toda confusa!


─ Claro que está. Sabe, quando uma das premissas de um argumento contradiz a outra, não pode haver argumento.


Pedro consultou o relógio e disse que era melhor parar por ali. Recomeçariam no dia seguinte.


─ Hoje nosso primeiro sofisma chama-se por misericórdia. Ouça: “Um homem se candidatou a um emprego. Quando o patrão perguntou sobre as suas qualificações, ele respondeu que tinha filhos, que a mulher era aleijada, as crianças não tinham o que comer, nenhuma roupa para vestir, nenhuma cama, nenhum cobertor e o inverno estava chegando”.


Uma lágrima rolou pelo rosto de Vera:


─ Oh, isso é horrível!


─ Sim, é horrível – concordou Pedro – mas não é argumento. O homem apelou para a misericórdia e a piedade do patrão. Usou o sofisma por misericórdia. Entendeu?


─ Você tem um lenço? ─ choramingou ela.


Agora vamos discutir falsa analogia. Por exemplo: “Deveria ser permitido aos estudantes consultar livros durante as provas. Afinal de contas, cirurgiões têm raios X para guiá-los durante as operações; engenheiros usam plantas quando vão construir casas.” Então, por que os estudantes não podem consultar livros?


─ Puxa, essa é a idéia mais genial que ouvi nos últimos anos!


─ Vera, o argumento está errado. Médicos e engenheiros não estão fazendo provas para saber quanto aprenderam, mas os estudantes estão. As situações são completamente diferentes, e por isso o argumento não tem valor.


─ Eu ainda acho que é uma boa idéia.


─ Quer conhecer um sofisma chamado hipótese contrária ao fato?


─ Isso soa delicioso!


─ Escute: “Se madame Curie não tivesse deixado uma chapa fotográfica numa gaveta com um pedaço de uramita, o mundo hoje não conheceria nada sobre o rádio.”


─ Claro! Você viu o que a televisão disse sobre isso? Foi incrível!


─ Se você esquecesse a televisão por um momento, eu mostraria que essa afirmação é um sofisma. Talvez madame Curie não tivesse feito sua descoberta. Talvez muita coisa pudesse ter acontecido. O certo, porém, é que não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e daí querer que ela sustente conclusões.

Pedro, já sem esperança de que Vera pudesse pensar logicamente, resolveu dar-lhe a última chance:


─ O próximo sofisma chama-se envenenando o poço – disse, com ar de frustrado.


─ Que engraçadinho!


─ “Dois homens estão prestes a iniciar um debate. O primeiro levanta-se e diz: ‘meu adversário é um grande mentiroso. Não se pode acreditar no que ele diz’...” Agora pense, pelo amor de Deus. Pense firmemente. O que está errado?


─ Não é justo. Quem vai acreditar no segundo homem se o primeiro o chama de mentiroso antes mesmo que ele comece a falar?


─ Certo – gritou Pedro,vibrando de alegria. – 100% certo! Não é justo. O primeiro homem “envenenou o poço” antes que alguém pudesse beber a água! Vera, estou orgulhoso de você!


─ Oh, obrigada!


─ Agora, vejamos o petição de princípio. Por exemplo: “O cigarro prejudica a saúde porque faz mal ao organismo”.


─ É claro que a afirmativa é infantil. É como se dissesse: “prejudica porque prejudica”. Não explica nada.


─ Vera, você é um gênio. Esse sofisma toma como verdade demonstrada justamente aquilo que está em discussão. Veja, minha querida, as coisas não são tão difíceis. Tudo o que você deve fazer é se concentrar, pensar, examinar, avaliar. Bem vamos rever tudo o que aprendemos.


─ Está bem.


Cinco dias depois, Vera sabia tudo sobre lógica. Pedro estava orgulhoso, pois ele, e só ele, ensinara-a a pensar corretamente. Agora sim, ela era digna de seu amor.


Assim, ele decidiu revelar seus sentimentos.


─ Vera, hoje não vamos mais conversar sobre sofismas.


─ Oh, que pena!


─ Minha querida, nós já passamos cinco dias juntos. Está claro que estamos bem entrosados.


─ “Generalização apressada” – ela disse.


Oh, desculpe!


─ Generalização apressada – repetiu ela. – Como você pode dizer que estamos bem entrosados baseado em apenas cinco encontros?


─ Minha querida – falou Pedro, acariciando-lhe as mãos. – Cinco encontros são suficientes. Afinal de contas, você não precisa comer todo o bolo para saber se ele é bom.


─ “Falsa analogia” – disparou ela. – Não sou bolo, sou uma moça.


Aí, Pedro resolveu mudar de tática.


─ Vera, eu te amo. Você é o mundo para mim. Por favor, meu amor, diga que vai me namorar firme. Porque, do contrário, minha vida não terá sentido. Eu definharei. Vou me recusar a comer.


─ “Por misericórdia” – ela acusou.


─ Bem, Vera – disse Pedro, forçando um sorriso –, você aprendeu mesmo os sofismas.


─ É, aprendi.


─ E quem os ensinou?


─ Você.


─ Está certo. Então, você me deve alguma coisa, não deve? Se eu não a procurasse, você nunca teria aprendido nada sobre sofismas.


─ “Hipótese contrária ao fato”.


─ Vera, você não deve tomar tudo ao pé da letra! Sabe que as coisas que aprendeu na escola não têm nada a ver com a vida.


─ “Generalização não-qualificada”.


Pedro perdeu a paciência.


─ Escute, você vai ou não vai ser minha namorada?


─ Não vou.


─ Por que não?


─ Porque esta manhã prometi a João que seria a namorada dele.


─ Aquele rato! – gritou Pedro, chutando as flores do jardim. – Você não pode namorar esse cara, Vera. É um mentiroso. Um chato. Um rato!


─ “Envenenando o poço” – disse Vera. – E pare de gritar. Acho que gritar também é um sofisma.


Com um tremendo esforço, Pedro baixou a voz, controlou-se e disse:


─ Está bem. Vamos analisar esse caso logicamente. Como você poderia escolher o João? Olhe pra mim: um aluno brilhante, um tremendo intelectual, bonito, um cara com o futuro garantido. Olhe para o João: um cara-de-pau, vazio, um vagabundo. Pode me dar uma razão lógica para ficar com ele?


─ Claro que posso. Ele tem uma moto – respondeu Vera, correndo para montar na garupa da motocicleta de João.


Pedro, com profunda tristeza, gritou com raiva para que Vera pudesse ouvir:


─ O amor é um sofisma porque amar é sofismar!


─ “Petição de principio” – berrou Vera, agarrada à cintura de João, na moto que arrancava velozmente.


2 comentários:

Aurea Aragao disse...

Excelente abordagem sobre o comportamento humano!

Larissa Araújo disse...

Muito bom, professor!

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