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Religio

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Reforma trabalhista: lei, direito e justiça.

Reler meus escritos de tempos atrás é como olhar fotografias antigas. Numa delas, lá estou eu, com vinte e poucos anos de esperanças, inseguranças e incertezas, cabelos e mocidade que se foram com o fluir da vida. Mas aquele rapaz da foto não deixa de ser eu, tal qual o que escrevi ainda é parte de mim.

Em meu primeiro livro, Direito, mito e metáfora: os lírios não nascem da lei, ao refletir sobre o grande números de leis no Brasil, observava que havia em nosso país, segundo estimativa da época, cerca de meio milhão de normas escritas, entre leis, decretos e regulamentos. Contando apenas as leis federais, eram quase dez mil.

É certo, como nos diz Norberto Bobbio, que “a nossa vida se desenvolve em um mundo de normas. Acreditamos ser livres, mas na realidade estamos envoltos em uma rede muito espessa de regras de conduta que, desde o nascimento até a morte, dirigem nesta ou naquela direção as nossas ações.” Mas quando esse mundo tem normas demais, algumas feitas sem o devido cuidado, e outras, para não se cumprir, fica ainda mais difícil a vida que nele se desenvolve.

No Brasil, há lei para quase tudo no mundo. Enquanto eu escrevia o Direito, mito e metáfora, fizeram uma lei obrigando todo motorista a portar em seu carro, “dois rolos de ataduras de crepe; um rolo pequeno de esparadrapo; dois pacotes de gaze; uma bandagem de tecido de algodão do tipo bandagem triangular; dois pares de luvas de procedimento e uma tesoura de ponta romba.” Comprei o kit só por medo da multa, pois todos sabiam que ele era imprestável para o que diziam servir. Quatro meses depois, revogaram a lei, e eu, como muitos, fiquei com cara de tacho, sem ter o que fazer com a tal ponta romba.

Alguns anos depois, escrevi o Bem-vindo ao direito do trabalho. Na época, alguns juristas queriam acabar com o Direito do Trabalho. Defendiam sua reabsorção pelo Direito Civil, como se pudessem enfiar o ovo de volta, cloaca adentro da galinha. Renegavam um direito construído com suor e sangue, um direito dos pobres, para me valer de uma expressão de Gustavo Gutiérrez, direito que não germinara no solo neoliberal, não concebido a partir de uma suposta igualdade formal, que não existe de fato na sociedade, muito menos na relação entre capital e trabalho.

Meu primeiro livro está prestes a fazer dezoito anos, e nossas leis já ultrapassam a casa de treze mil. Neste treze de julho, veio a lume a da reforma trabalhista, que ainda não vige, mas valerá a partir de novembro, festejada por alguns e criticada por muitos, inclusive por mim. Por mais que eu tenha boa vontade ao dela me aproximar, por mais que procure fazer com que meus preconceitos não me turvem o olhar para o que de bom ela possa conter, não vejo, na sua essência, como ela pode se prestar para o que dizem servir.

Contudo, se uns remendos a mais no tecido da septuagenária CLT, com ares de novidades neoliberalizantes, não serão capazes de modernizar o que precisa ser
modernizado, ofertar trabalho decente, nem reduzir litígios trabalhistas, também não serão, a meu ver, causa da morte do Direito do Trabalho, nem do Judiciário Trabalhista.

Por pior que seja uma lei, seus resultados dependerão do que poderemos fazer com ela. Num país de muitas leis e pouco direito, é preciso defender o depósito de fé na justiça, não como algo abstrato e distante, mas como ação concreta e cotidiana de homens e mulheres, que sabem que a lei não deve ser idolatrada como um bezerro de outro, mas ser instrumento a serviço da vida.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Reforma trabalhista: parte 3.

Projeto de futuro ou negócio da China


Na Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco diz que nenhuma tecnologia substitui o trabalho, que é necessidade e faz parte do sentido da vida. O trabalho, além de meio de vida, deve significar serviço mútuo e projeto de futuro. Não é tão simples, porém, dar os primeiros passos nesse projeto. Para alguns, é mais fácil o camelo passar pelo fundo da agulha. Pensando nisso, a lei trabalhista obriga estabelecimentos a empregar aprendizes, e na busca de transformar o texto normativo em momento de vida, o Ministério Público do Trabalho tomou a iniciativa de reunir empresários e representantes de várias entidades, na Vara do Trabalho de nossa cidade.

Na ocasião, um padre, responsável por um abrigo que acolhe meninas e as livra do mal nosso de cada dia, falou da dificuldade para inserir as jovens na vida profissional. Elas só podem ficar na instituição até a maioridade, e alguns cursos de formação não podem ser ministrados a adolescentes. Algumas delas não se iniciaram na culinária, por lhes ser proibido manusear facas, nem aprenderam o ofício de cabeleireira, por não lhes ser permitido lidar com produtos químicos. Por melhor que seja a intenção legal, em casos como esses, a superproteção desprotege.

Mais do que a lei que protege, o que afligia uma empresa local, no dizer de seu advogado, era um problema que não vem daqui, mas da China. Disse ele que em algumas indústrias de lá, enquanto um operário trabalha, outro dorme ao lado da máquina, pois a produção não pode parar. E o consumidor compra roupa pelo preço mais baixo, sem ligar se o produto foi tecido com o suor da dignidade ou da exploração desumana.

Sobre esse fato, um dirigente de uma associação, que acolhe crianças e adolescentes em casas lares, comentou que, com o progresso daquele país, chegará o dia em que o operário chinês não mais aceitará dormir ao lado da máquina. Quando isso acontecer, nós que vivemos sob o manto da lei que protege, estaremos mais preparados para enfrentar não só a concorrência chinesa, mas os desafios de um mundo em que trabalho deve rimar com projeto de futuro. Quando esse dia chegar, espero que nosso direito do trabalho ainda esteja de pé.

Não vejo, porém, como uma reforma, que abre caminho para institucionalizar o trabalho precário e esgarçar a rede de proteção ao trabalhador, possa fazer parte desse projeto de futuro. Os defensores da reforma trabalhista prometem, com uma canetada para mudar a lei, modernizar a CLT, ofertar empregos e reduzir litígios trabalhistas. É muito coelho para uma só cajadada.

Sei da necessidade de corrigir a superproteção da lei e melhorar o acesso à Justiça. Nesse ponto, algumas mudanças são boas, a exemplo da isonomia entre trabalho de homem e mulher. A rigor, nem existe o que a lei chama de trabalho masculino e feminino. Daí, a revogação do intervalo de quinze minutos, concedido apenas para a mulher, antes da prorrogação do horário normal, parece uma boa medida. Do mesmo modo, não tem cabimento que a justiça gratuita seja apenas para custas e não para o depósito recursal, pela natureza que a lei dá a este, e pela interpretação dominante no TST que, data vênia, seguimos tão somente por disciplina judiciária.

As boas mudanças, porém, são periféricas. A maior promessa para oferta de empregos é o contrato intermitente, e o cerne da reforma é a prevalência do negociado sobre o legislado, o quepode ser um negócio da China apenas para o patrão. Num negócio entre desiguais não se pode falar em plena autonomia da vontade da parte mais fraca. O ser humano trabalha subordinado a outro não porque quer, mas porque precisa.

Não duvido que a pessoa que não tem do que viver aceite um trabalho formal precário, da mesma forma que o operário chinês ainda se presta a dormir no chão da fábrica, o venezuelano refugiado da crise bolivariana sujeita-se a trabalho degradante, e o médico cubano, a entregar a maior parte do seu ganho aos comandantes da ilha. Também não duvido que, com a institucionalização de trabalho formal precário e o esgarçamento da rede de proteção ao trabalhador, substituída em grande parte pelo reinado do negócio sobre a lei, a abertura de novos postos de trabalho sirva para maquiar estatísticas de desemprego. Isso, porém, não é rima, muito menos solução, para um projeto de sociedade em que o trabalho seja parte do sentido da vida.
                                                                                                                

sábado, 27 de maio de 2017

Reforma trabalhista: parte 2.

Contraponto


Rígida, detalhista, lacunosa e confusa. Arautos da reforma trabalhista adornam com estes quatro adjetivos a velha CLT, para defender sua substituição por uma lei, segundo eles, moderna, inteligente e flexível. Até o Presidente do TST, em harmonia com essa toada, externou entendimento pessoal de que, em tempos de crise, é preciso restabelecer o nível de emprego, flexibilizando jornada e salário. Já um ilustre economista paraibano, ex-ministro da Fazenda, foi mais agudo em seu solfejo, ao acusar a CLT como o maior conjunto de regras retrógradas do mundo, inapropriada para os tempos da revolução digital, por ter sido feita na época que nem havia máquina de escrever elétrica. Achando pouco, disse que “custa a crer que pessoas instruídas, mas guiadas por ignorância, por ideologia ou pela influência de líderes sindicais, lutem pela preservação de normas do além.” Com todo respeito, aqui vai meu contraponto.


Ideologia e ignorância são atributos de todos, não de um mundo dividido em instruídos e desinstruídos. E custa a crer que alguém que tenha analisado o projeto da reforma trabalhista, e tenha compromisso com a honestidade intelectual e argumentativa, não veja que das mais de cem propostas de modificação, pouquíssimas são de textos do tempo que não havia máquina de escrever elétrica. Desde sua edição até hoje, a CLT sofreu muitas mudanças em sua redação. Por isso, o que se propõe agora é, basicamente, reforma das reformas. Além disso, a proposta é de mudar não só a CLT, mas outras leis, embora em escala muito menor. Para se ter uma ideia, querem reformar até a lei da terceirização, aprovada não faz nem três meses.


Não nego que a CLT, mesmo metamorfoseada ao longo dos anos, pode ser detalhista, lacunosa e confusa. Mas o projeto da reforma, tirando uma coisinha aqui outra acolá, consegue ser muito pior. Não economiza nos pormenores, quando é para aliviar a barra do patrão. Diz, por exemplo, que não é tempo à disposição do empregador quando o empregado entra na empresa para passar uma chuva, ou permanece lá para rezar, descansar ou trocar de roupa, e até a quem cabe lavar a roupa utilizada no trabalho. Se isso não for detalhismo, não sei detalhismo o que é.


No caso do contrato intermitente, a reforma não é só confusa e lacunosa, é vergonhosa. A reforma o define como trabalho subordinado, mas permite a recusa do trabalhador quando convocado para prestar serviço. Quantas vezes ele poderá dizer não? Ninguém sabe, o texto não diz. Mas se o sujeito aceitar e não for trabalhar, sem justo motivo, terá de pagar ao suposto patrão metade do que ganharia. Ou seja, o trabalhador não trabalha, não recebe, paga multa, e querem que ele ainda se sinta empregado. Não é só isso. O patrão só chama o trabalhador quando quiser. Quanto tempo ele pode ficar sem convocar o subordinado? Ninguém sabe, a reforma não diz. Custa-me crer que o desempregado vá, numa segunda-feira, a uma corrente de oração, pedir a Deus que o abençoe com uma vaga de intermitente.


Esta é somente uma das esquisitices da “moderna” e “inteligente” reforma. Se Deus quiser, terei chance de falar sobre outras. Sei que os abalos sísmicos das delações sobre sucessivos inquilinos do Planalto podem deixar a discussão sobre a reforma trabalhista em segundo plano. Mesmo assim, creio ser importante insistir no contraponto. Não se pode construir uma sociedade melhor sem uma justa proteção ao trabalho humano, que produz riqueza e dignidade.

Contraponto, se não é uma harmonia, também não quer dizer desarmonia. Se não é um acorde, que ocorre quando pelo menos três notas musicais soam ao mesmo tempo, enquanto duas formam apenas um intervalo, também não precisa ser ruidosa dissonância. Também não é coro uníssono, regido pela batuta da paixão que cega ou do sectarismo insano, que divide o que poderia unir sem necessariamente homogeneizar.


Faz dois anos que uma indústria de nossa cidade, de supetão, fechou suas portas. Cerca de duzentas famílias de trabalhadores viram-se sem seu sustento. Com muita dificuldade, viabilizamos um acordo para minimizar a situação de penúria, com liberação do seguro-desemprego por alvará judicial. Muitos trabalhadores, porém, com mais de um ano de serviço, foram privados de um direito a que outros tiveram acesso, antes e depois deles. Qual a razão? Uma pequena reforma na legislação trabalhista, feita nas carreiras, por Medida Provisória, assinada no penúltimo dia do ano anterior, e que durou somente até meados do ano seguinte, roubou-lhes esse direito. Quem assinou a Medida? A ex-Presidente e seu ministro, ora apontado, pelos irmãos delatores, como operador da corrupção de líderes de uma sigla, de cujos membros talvez não se esperasse a edição de uma norma para subtrair direitos de trabalhadores.


Direito do Trabalho e reforma trabalhista são questões bem maiores do que a divisão maniqueísta das pessoas entre “nós e os outros,” tampouco achar que ignorância e ideologia são coisas de um mundo dividido entre instruídos e desinstruídos. Se o nosso metrônomo for a coerência e o compromisso a valores e princípios, talvez o contraponto consiga ser uma melodia que nos guie em meio a outras melodias. 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Reforma trabalhista: parte 1

Café com bolo.


Na manhã de domingo, recebi um telefonema que me trouxe alegria. Uma freira, a quem quero muito bem, disse que iria à nossa casa me entregar um cartão de Páscoa. Pensando em agradá-la, saí para ver alguma coisa que incrementasse o café. Na casa do bolo, ao comprar dois bons pedaços do que havia no balcão, o dono do comércio, após dizer que lia meus artigos, perguntou-me sobre a reforma trabalhista. Como meu pensamento só atinava para o café em minha casa, e eu tinha sido convidado para, no dia seguinte, dar uma entrevista sobre o tema, respondi-lhe que ele poderia ouvir o programa da rádio, para se inteirar do assunto. De volta à casa, a religiosa já tinha chegado e, para minha surpresa, além do cartão, sabe o que a irmã me trouxe? Outro bolo, daquele que ela sabe que eu gosto. Tivesse eu adivinhado, nosso café de Páscoa não tinha sido com tanto bolo. Na ocasião, além de outros assuntos, falei da pergunta do comerciante, sobre o tema que tem inquietado muita gente.
         
O governo quer porque quer mudar a legislação trabalhista, a toque de caixa. Para se ter uma ideia, o projeto foi apresentado à Câmara dos Deputados em 23 de dezembro do ano passado. Enquanto todos entrávamos no espírito do Natal, o Chefe do Executivo enviava ao Parlamento uma proposta para mudar mais de cem artigos da CLT. E no início de fevereiro, foi formada uma comissão para elaborar o parecer, apresentado na primeira quinzena de abril. Não bastasse a correria para reformar a lei trabalhista, acabaram aprovando a urgência na tramitação do projeto.
         
O texto do parecer tem mais de cem páginas. Afirma, no relatório, que o projeto pretende aprimorar as relações de trabalho no Brasil, valorizando a negociação coletiva. Diz ainda que,  para democratizar o debate, a comissão ouviu todas as partes envolvidas, disponibilizou acesso pela internet, realizou audiências públicas e outros eventos, entre a segunda metade de fevereiro e o início do mês de abril.
         
Alguém, por acaso, viu a grande mídia, nesses menos de dois meses, dar realce às discussões sobre reforma trabalhista? Posso até estar enganado, mas acho que nesse período os destaques foram os das escolas de samba, da seleção canarinho e do Big Brother Brasil, substituídos nestes dias pela ladainha das delações da Lava Jato, ilustrada por aquela tubulação despejando dinheiro sujo, noite e dia, na tela da TV. Afinal, se somos o País do Carnaval, do Futebol, do BBB e Lava Jato – esta, pelo que soube, vai parar na netflix –, para que ressaltar os direitos dos trabalhadores, para muitos, tão irrelevantes?
         
Até na Academia temos em pouca conta o Direito do Trabalho. Desde meus tempos de universitário, dizem que a espinha dorsal do curso tem de ser o Direito Civil, por ser comum a todos. Enquanto poucos prestigiamos o Direito do Trabalho, dedicamos sete semestres àquele direito. Não quero desmerecer o Direito Civil, mas duvido que alguns de seus domínios, como propriedade e posse de bens, herança e testamento, sejam direitos que interessam a muita gente, tanto quanto o salário, a jornada e a saúde no trabalho.         
Por isso, penso ser relevante a discussão sobre o que pode mudar nas relações de trabalho e na vida das pessoas, se for aprovada a reforma, embora o tempo não seja o mais favorável para quem vê o Direito do Trabalho como depósito de fé na realização da justiça. Sinto-me como um aeronauta cuja voz só é ouvida quando cai um avião. Mas ainda que algumas tragédias nos direitos trabalhistas pareçam inevitáveis, pior é fazer como os personagens de um cordel, que meu pai gostava muito, e dele eu herdei o gostar.
         
Nas palhaçadas de Biu, folheto de Manoel Camilo dos Santos, Zé Gibão tem um filho solteiro, justamente o dito Biu, que ficava encabulado quando via moça de perto. Certo dia, porém, ao vender carne na feira, apaixonou-se pela moça do sobrado. Ela, filha do prefeito, nem de longe correspondia ao enlevo do rapaz. Este, porém, convenceu o pai a irem à casa da moça, para ajustar o casamento. O prefeito, depois de saber que era da filha Nazaré que Biu dizia ser o pretendente, e ouvir dela que nunca viu aquele “timote”, mandou um recado ao tenente, para lhe mandar ordenanças. É quando Biu pergunta a Zé Gibão se ordenança é soldado, e o pai diz que é bolo. Ele pensava que o prefeito tinha mandado fazer café e buscar o bolo na casa do tenente. Mas quando chega a polícia, um soldado agarra Biu e dana-lhe um pontapé, o rapaz diz a Gibão: "Taí mô pai, café com bolo o que é."
           
Peço a Deus que me permita continuar a escrever sobre a reforma que se anuncia, ao menos para que muita gente não se espante, como Biu e Zé Gibão, que só quando sentiram as lamboradas no lombo, ficaram sabendo, “café com bolo o que é”.

                                                                                                         
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sábado, 25 de março de 2017

Alhos com bugalhos

         
Em pleno domingo de carnaval, reunidos em nossa casa, as happy hours não foram só regadas a frevo e churrasco. Por incrível que pareça, a conversa jogada fora acabou caindo dentro da Bíblia. A pergunta partiu de meu irmão: afinal, Judas se enforcou ou morreu de uma queda no penhasco? Na dúvida, a saída foi buscar o Texto Sagrado e voilà: uma narrativa, do enforcado, em Mateus; outra, do traidor despencando no precipício, nos Atos dos Apóstolos.
         
A mistura de religião e folia, porém, não se limitou ao nosso carnaval doméstico. Um dia antes, uma escola de samba de São Paulo fez um tributo ao terceiro centenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida das Águas, com as bênçãos dos dirigentes da Igreja Católica local. E como quem abençoa também se acha no direito de fazer cobranças, a supervisão religiosa veio com pitadas de devota censura: nada de sincretismo religioso, muito menos exibição de mulheres seminuas.
         
Uma das integrantes da escola, indagada por um repórter sobre o que pensava das restrições, disse que o desfile foi lindo. Sentia-se, contudo, um tanto frustrada. Seu desejo mais sagrado era mostrar o corpo esculpido com o sacrifício da dieta e da malhação, sem a limitação concertada entre os dirigentes da Igreja e da escola. Mas como carnaval tem todo ano, quem neste desfile teve de cobrir o que queria exibir, em outros será livre para mostrar o que bem quiser e entender.
         
No Rio de Janeiro, a história foi diferente. Uma das escolas mais tradicionais preferiu não se valer de orientação eclesial, nem se sujeitar a supervisão de qualquer denominação religiosa.  Botou na avenida o carnaval de todos os santos, salpicado de sincretismo e seminudez, nos limites normais de temperatura e pressão de uma festa da carne. Puxando os percussionistas trajados de São Francisco, uma voluptuosa rainha simbolizava um pássaro branco. Teve ainda fantasia de Nossa Senhora Aparecida e uma alegoria que resumia bem o sincretismo do enredo. De um lado, uma escultura de Jesus Cristo – que a apresentadora da TV confundiu com São Sebastião – e, do outro, Oxalá. No desfile das campeãs, retiraram a alegoria. Mas os outros santos e orixás voltaram para sambar, juntos e misturados, na Marquês de Sapucaí.
         
Voltando à questão levantada por meu irmão, há algumas explicações para a aparente divergência entre os textos. Podem ser narrativas complementares, relatos vindos de fontes diversas, eco da narrativa da morte de Aquitofel, único suicida do Antigo Testamento, no caso do enforcamento, ou da sorte do injusto, jogado cabeça abaixo, no livro da Sabedoria, no caso da queda do precipício. Nada disso, porém, estremece a fé de quem a tem, tampouco muda o papel de Judas, o grande malhado no Sábado de Aleluia.
         
Judas é o hipócrita, que critica a unção de Jesus em Betânia; o ladrão, que metia a mão no bisaco de moedas dos discípulos, dos quais era uma espécie de tesoureiro; o corrupto, que traiu o Mestre por trinta dinheiros. Ele é a ovelha definitivamente perdida, desfalcando o grupo dos doze selecionados por Jesus. Há quem questione porque o Mestre o chamou se sabia previamente de sua traição. O discípulo teria sido escalado apenas para cumprir o papel de um roteiro já escrito? Não se deve confundir, porém, presciência com predestinação, da mesma forma que a nossa conversa, num domingo de carnaval, não se confunde com evangelização.
         
Não estávamos reunidos num momento litúrgico ou com finalidade catequética,  mas apenas para brincar o carnaval de forma sadia, que cristãos e não cristãos podem fazer, sem precisar pular numa cristofolia.  Meter a colher religiosa em festa da carne também não a transforma naquilo que ela não é nem precisa ser. Não duvido que cristãos possam honrar a Deus sambando na avenida, como declarou uma respeitável autoridade de nossa Igreja. Mas justificar a bênção e supervisão de um espetáculo carnavalesco, porque também rezamos missas fora dos templos ou levamos o sagrado a espaços profanos pode ser uma falsa analogia. Talvez seja misturar alhos com bugalhos.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Vida boa e feliz


Não tem sido fácil conciliar as férias da sala de audiência com as da sala de aula. Mais difícil, ainda, emparelhar o tempo livre de todos da família. Dois filhos estudando fora, uma ainda em casa, e a esposa, com dedicação exclusiva às atividades do lar, sem direito a férias regulamentares do perpétuo trabalho de mãe e dona de casa. Às vezes, porém, dá para unir o útil ao agradável. Escala de férias do Tribunal numa mão, e na outra o calendário letivo da Universidade, foi possível aceitar o convite da Escola da Magistratura do Trabalho de Alagoas. Como as aulas começavam no fim da tarde, dava para aproveitar o dia, com a esposa e a filha caçula, provando as delícias de Maceió, que ainda não conhecíamos.
           
Mais do que a encantadora Pajuçara e seus coqueirais; mais do que o lindo horizonte do mirante do Gunga; mais do que o gostoso mergulho na Praia do Francês; mais do que o filé de siri, saboreado às margens da lagoa em Massagueira; mais que tudo isso, que já foi muito bom, fomos cativados pelo carinho de quem nos acolheu. Pude comprovar, uma vez mais, que minha cabeça de juiz pode espairecer nas férias, enquanto meu coração de professor se enche de alegria ao realizar sua natureza e vocação. Quem é professor sabe bem o que digo. Por melhor que seja nosso pagamento – e os honorários do magistério em nosso país, todos sabemos, estão longe do ideal –, a felicidade de ensinar não se mede por dinheiro.
           
Numa palestra a educadores, Clóvis de Barros Filho provoca a reflexão sobre o que é uma vida boa e feliz. Fala sobre um teste de felicidade, que encontrou numa revista, com perguntas do tipo: você trabalha onde gostaria de trabalhar? Ganha quanto gostaria de ganhar? Mora onde gostaria de morar? Passa férias onde gostaria de passar? Seu cônjuge tem o aspecto físico que você gostaria que ele tivesse ou você tem o aspecto físico que gostaria de ter? Ao responder essas questões, o leitor soma os pontos e verifica seu nível de felicidade. Ele lembra, porém, que muitos famosos têm tudo isso e abreviam a vida devagar ou de uma vez só, sinal de que a pontuação máxima no teste não garante felicidade a ninguém. Mas o que torna a vida de alguém boa e feliz?
         
Platão nos diz que amar é desejar, e desejo, energia que leva alguém a procurar o que lhe falta. O problema é que a pessoa ama o que deseja, e deseja o que não tem, o que pode causar infelicidade. Depois vem Aristóteles, dizendo que felicidade é o desabrochar da natureza de quem vive. Para ser feliz o caminho é buscar o próprio aperfeiçoamento. E Jesus de Nazaré, alguns séculos depois,  ensina que só pode ser feliz quem faz o outro feliz.
           
Amor cristão não é desejo de alguém ter o que não tem. Se medimos a felicidade em ajuntar coisas, e sabemos que nunca vamos ter tudo o que desejamos, nunca alcançaremos o topo da pontuação na tabela do ser feliz. Também não basta a excelência pessoal, se ela for buscada no individualismo e na competitividade. É certo que Jesus disse para sermos perfeitos, como o Pai celeste é perfeito. Mas a perfeição divina não é de um amor carente, e sim transbordante, do Absoluto que se entrega por amor, e propõe ao ser humano a mesma entrega.
           
Vida boa e feliz, nessa proposta, é a de quem não se agarra com unhas e dentes à vida neste mundo como se fosse um bem definitivo, pois sabe que não adianta colocar o coração nos tesouros que perecem. É a vida de quem procura se parecer com o Mestre, não no aspecto físico desejado, mas assumindo o mandamento do amor, como dom de si mesmo, mudando a forma de pensar e agir, para superar a mentalidade do mundo e buscar as verdadeiras prioridades da vida.
           
O chamado para essa vida nos retira da zona de conforto, mas nos leva do mundo das possibilidades finitas para o das possibilidades infinitas. É a busca dessa vida que me permite aprender e ensinar na escola do amor cotidiano da família, na prática da vida de juiz, procurando fazer da toga um manto da justiça possível, na formação acadêmica de tantos alunos ao longo da minha vida de professor, e nas escolas de formação missionária, sementes de luz divina, plantadas em várias comunidades de nossa diocese. E como ninguém é de ferro, também me permitiu conciliar lazer, trabalho e prazer, nos dias que passamos na acolhedora Maceió.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Nem Freud explica


           

Meu pai nasceu anos antes da Grande Depressão.  Alfabetizou-se com o próprio pai, meu avô Epifanio, de quem não me foi dado conhecer as feições nem por fotografia, e cujo sobrenome Figueiredo não perdurou na descendência, o que me lembra o comentário de um amigo, de que existem pessoas que se gabam de ser de família tradicional, mesmo conhecendo muito pouco sua genealogia.  O certo é que meu pai ficou órfão aos doze anos, quando saiu de casa para trabalhar na portaria de um seminário na capital, tendo enfrentando muita dificuldade em sua vida. Como professor de história, ele falava sobre os efeitos da Grande Depressão no mundo e no Brasil.  Dizia que o governo queimou toneladas de café, para manter o preço da nossa principal riqueza, tentando diminuir os efeitos negativos da crise iniciada em 1929, ano em que Freud escreveu o mal-estar na civilização.
            
Na opinião daquele autor, a grande questão da humanidade é saber se a evolução cultural pode conter as perturbações da vida em sociedade, provocadas pelos instintos humanos de violência e destruição. Já naquela época, Freud observava que nós tínhamos atingido um controle tamanho das forças da natureza, que não era difícil usá-las para exterminar a humanidade. E da consciência dessa capacidade de autodestruição decorreria grande parte dos nossos medos e infelicidades.

“Freud explica” é um lugar-comum bastante utilizado no dia a dia. Foi parar até no chão de giz de Zé Ramalho. Contudo, como perspicaz mestre da suspeita, mais do que explicar, Freud pode chacoalhar pretensas certezas, que professamos como se fossem verdades de alicerces profundos, mas que não resistem aos menores abalos vindos do epicentro da razão.
            
No início do livro, ele diz ser difícil escaparmos à impressão de que as pessoas se valem de falsas medidas, buscam poder, sucesso e riqueza, e veneram quem os têm, subestimando os autênticos valores da vida. Mas em vez de procurar respostas instantâneas para as questões postas,  a abordagem é um convite para sondar a complexidade dos seres humanos, a incoerência entre  suas ideias e atos, a diversidade de seus desejos.
            
Para o autor, a busca da felicidade é um projeto irrealizável. Mais fácil é experimentar a infelicidade, com seus três lados a nos rondar: nosso corpo, condenado à velhice e morte; as forças inexoráveis e destruidoras da natureza; e as relações humanas, cujas normas de regulação têm sido precárias para garantir uma vida feliz para todos.
            
Mesmo assim, muitos buscam a felicidade por vários caminhos. No prazer imediato do tóxico, felicidade química presente no consumo de drogas lícitas e ilícitas. Ouvi de um médico que nas populações carentes cresce assustadoramente a procura por remédio controlado,  a ponto de ter ele de reservar boa parte do expediente para receitá-las, com receio da reação de pacientes. Também podemos sublimar o prazer no trabalho, na felicidade estética da fruição da arte, ou dando as costas ao mundo real para viver solitário no mundo virtual.
            
Nada disso, porém, garante felicidade que dure. Para Freud, aquilo que chamamos felicidade no sentido mais estrito vem da satisfação repentina de necessidades represadas, o que se alcança apenas no efêmero. Quando se alcança o objeto do desejo, a felicidade se torna um morno bem-estar. Nessa perspectiva, nem a experiência religiosa escapa. Marcada pelo infantilismo psíquico e delírio da massa que busca apenas bem-estar interior, esse tipo de religião não conduz à felicidade duradoura, que não pode se sustentar na alienação. Todavia, lembro que o exercício livre e honesto da razão nos induz a suspeitar também do pensamento de um mestre da suspeita, embora ele seja importante para nos tirar da zona de conforto das ilusões que tomamos por verdades.
            
Lendo o que foi escrito por Freud na época da Grande Depressão, fico imaginando o que ele diria se presenciasse o atual mal-estar de nossa civilização. O Presidente da maior potência mundial, eleito após atiçar fagulhas do discurso do ódio; seres humanos sem lar e sem pátria, buscando migalhas nos banquetes da civilização do primeiro mundo; seres humanos encarcerados, decapitando seus semelhantes, enquanto instituições e normas de um Estado que se diz democrático quedam-se impotentes para vigiar e punir com justiça.
            
Por essas e outras, às vezes me bate a tentação de desacreditar no futuro. Mas quando penso no exemplo de pessoas como meu pai e meu avô, que lutaram tentando fazer do mundo um lugar que possibilite a todos buscar seus caminhos para a felicidade, termino me convencendo de que não tenho direito de espalhar desesperança. Apesar de concordar que a fragilidade do corpo, a prepotência da natureza e a insuficiência das instituições e normas são causas de infelicidade, ainda assim penso ser possível dar um sentido a nossas vidas. E isso, data vênia, nem Freud explica.


sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal do Senhor



Antes de ensinar aos alunos do coral, meu pai ensaiava com a gente em casa, as diversas vozes do orfeão:


      O nosso menino nasceu em Belém
      Nasceu tão somente para querer bem...


A letra é de um poema de Manuel Bandeira. Simples e bela, expressa o sentido profundo do mistério da encarnação. O menino nasceu sobre as palhas e a mãe sabia que ele era divino. Mas nem tudo é festa e luz. O menino vem para sofrer a morte na cruz. Por nós ele aceita o humano destino. No Natal, então, devemos louvar a glória de Jesus menino.

Bem diferente têm sido algumas expressões de festas natalinas que fabricamos ao longo dos tempos. Canções sobre a neve caindo ou o nariz encarnado de uma rena, mensagens melosas de bondades episódicas, comerciais de louvor e glória ao consumismo do Noel.

Claro que numa sociedade consumista não dá para varrer do mapa o louvor ao consumo, nem condenar o desperdício ao exílio. Lembra Baudrillard que todas as sociedades consomem além do necessário. No consumo do supérfluo o indivíduo e a sociedade se sentem não apenas existir, mas 
viver. Como diz Shakespeare no Rei Lear: “Oh, não discutam a necessidade! O mais pobre dos mendigos possui ainda algo de supérfluo na mais miserável coisa. Reduzam a natureza às necessidades da natureza e o homem ficará reduzido ao animal: a sua vida deixará de ter valor. Compreendes por acaso que necessitamos de um pequeno excesso para existir?”

Nem os cultos religiosos estão livres de pequenos excessos. Festas religiosas não se alimentam somente de preces. Paramentos e ornamentos, flores e luzes, imagens e fogos de artifício, tudo isso tem um preço, e não se pode dizer que se resuma ao estritamente necessário. Ao lado dos gastos com o culto, pratica-se o consumo religioso. Símbolos do sagrado vendidos como joias ou decoração, presépios tão caros, que em nada lembram a pobreza das palhas do nascimento do menino. De certo modo, descristianizamos o que o Ocidente levou séculos para cristianizar.

No 25 de dezembro comemorava-se o nascimento do deus sol invencível, o que era estranho para os cristãos, que não celebravam nascimento de deuses. Com nossos santos, por exemplo, o costume é celebrar o dia da morte, dia de sua páscoa. Mas depois no ano 300 da era Cristã, começou o processo de cristianização dessa data. Passamos então a celebrar a festa, como diz Santo Agostinho, “não por causa deste sol, mas por causa daquele que fez este sol.”

Jesus Cristo, a luz do mundo, é o Verbo encarnado que nasceu tão somente para querer bem. No santo ventre de Maria, a humanidade se fez grávida do Amor Infinito, num admirável intercâmbio entre o divino e o humano, mistério que habita o centro da celebração do Natal. Ao aceitar, por nós, o humano destino, o Verbo assume o que é nosso e nos dá o que é seu e, ao mesmo tempo, vindo para sofrer a morte na cruz, o Salvador do mundo nos regenera a todos, como filhos amados de Deus.

A natividade de Jesus é antes de tudo Natale Domini, o Natal do Senhor. O menino a quem rendemos glória é o Salvador de cristãos e não cristãos, de meninos e homens refugiados, de mulheres e meninas de Aleppo. Ao aceitar o humano destino, o Verbo encarnado resgata a dignidade de todos, fazendo do Natal a celebração não só do divino, mas do humano em toda a sua plenitude, e a humanidade, grávida do amor de Deus, é convidada a, respeitando as diferenças, vencer as injustiças, as guerras e a destruição para, respeitando as diferenças, buscar viver a comunhão fraterna, sem a qual o Natal não é Natal.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Justiça poética


Visões que na alma o céu do exílio incuba
Mortais visões! Fuzila o azul infando...”




Estes versos, que abrem o soneto Banzo, de Raimundo Correia, sempre me lembram as aulas de Teoria da Literatura, primeira disciplina que me foi dada para lecionar na Faculdade. Eu havia terminado o curso de Letras, e nossa professora, que se afastou para assumir a presidência do sindicato da categoria, indicou meu nome para substituí-la como professor-assistente.
Texto na mão, eu convidada a turma a declamarmos o poema, sem qualquer preocupação que não fosse o prazer da leitura. Tudo o que pedia era que procurássemos recitar o melhor possível, tentando perceber a beleza daquela massa fônica e contemplar as “imagens pintadas com palavras”, para me valer de uma expressão de Manoel de Barros, quando diz que aprendeu com o Padre Vieira, que imagens assim são para “se ver de ouvir.”
Depois da leitura lúdica, fatiávamos o texto, na busca de sua compreensão. Fazíamos a escansão dos decassílabos, colocávamos alguns versos na ordem direta, aqui e acolá com uma pitada de análise sintática, ao mesmo tempo pesquisando o significado das palavras novas do rico vocabulário do soneto. Ao final, fazíamos nova leitura em voz alta, procurando unir beleza e compreensão do que estávamos recitando.
Além dos elementos do texto, procurávamos informações sobre o contexto, além de elementos pré-textuais, incluindo a biografia do autor. Este, como diz a teoria hermenêutica, pode ser visto como um elemento ocasional, pois uma vez gerado, o texto corta o cordão umbilical com o seu criador. O cuidado, porém, é que o leitor respeite a alteridade do texto, deixe-o falar, e não o transforme em mero pretexto para que só o intérprete fale.
Também não se há de esquecer que, mesmo “ocasional”, o autor não pode ser desprezado para compreensão de sua obra. Se “tudo que é dito é dito por alguém”, conhecer a biografia desse alguém pode ajudar a entender o que ele diz. No caso do poeta parnasiano, sua história de vida é iluminada e iluminadora.
Raimundo Correia foi poeta e juiz. Tão cuidadoso com as consequências de suas decisões, que sobre ele surgiram várias histórias, como as registradas na coletânea Brasil anedótico, de Humberto de Campos, extraídas de discursos proferidos na Academia Brasileira de Letras. Nelas são destacadas diversas virtudes do poeta juiz, algumas até exageradas, se é que pode haver excesso nas virtudes.
Conta-se que ele era de um escrúpulo quase doentio ao lavrar suas decisões. Teria passado nove noites sem dormir, antes de se averbar suspeito num processo cujo autor era o amigo Medeiros e Albuquerque. No íntimo, ele achava que Medeiros tinha razão. Mas nisso residia o escrúpulo que fez o poeta confessar ao amigo: “há nove noites eu pergunto a mim mesmo: mas eu acho que o Medeiros tem razão porque tem mesmo, ou é porque o Medeiros é meu amigo?”
Em outra história, Humberto de Campos destaca o lado cristão do juiz poeta. O empregado de um açougueiro tinha ferido o patrão a facão. Raimundo Correia mandou chamar as partes. Disse que ia absolver o culpado, porque ele tinha sido ofendido no insulto. Mas tinha uma condição: que os dois não guardassem ódio. Fez, então, uma preleção sobre a violência, e terminou:
                  “- Vocês têm religião?
                  - Sim, senhor.
                   E aproximando-os:
                  -Então, vão, e sejam amigos...”
Ouvi nesses dias, no comentário de um jornalista sobre a prisão de ex-governadores por atos de corrupção, comemorada por parte da população, que esse episódio pode ser visto como parte de uma justiça poética, na qual as virtudes triunfam sobre os crimes. Mas de nada adiantará a euforia, se não concretizarmos as consequências desse triunfo. Talvez seja o caso de nos inspiramos em Raimundo Correia e termos mais cuidado com as consequências de nossas decisões, opção fundamental para concretizar a justiça poética, sem a qual justiça não é justiça.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Grande Sertão.

                                 

Desde que me entendi por gente, tomei gosto pelos livros. Até nas brincadeiras de criança eu tinha fascínio por eles. E quando ganhava um ainda no plástico... Ah! Como era bom tirar-lhe a embalagem, acariciar-lhe as páginas, sentir o cheirinho do novo. Nas asas da leitura, sempre viajei pelo mundo sem precisar sair de casa.

Das tantas viagens, ainda me encanta a do Grande Sertão: Veredas. Narrativa que completou sessenta anos, é romance mais que romance, universo rico criado por uma linguagem singular, é o pensar sobre a travessia da vida, vista como invenção coletiva, “mutirão de todos, por todos remexida e temperada,” mesmo que não seja “entendível”.

Além da prosa de Riobaldo, o personagem narrador, repleta de pensamentos profundos, suas histórias de luta, amizade e amor ao lado de Diadorim, algo que sempre me seduz no romance de Guimarães Rosa é a dualidade não maniqueísta entre Deus e o diabo.

O maniqueísmo reparte o mundo em duas bandas: de um lado, o reino do bem e dos bons; do outro, o império do mal e dos maus. Porém, no Grande Sertão, tal qual na parábola bíblica, o joio e o trigo não estão em cercados separados. A gente pode até, como o narrador, carecer que “o bom seja bom e o ruim, ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza”, mas a realidade, como ele observa, é que “este mundo é muito misturado.”

No maniqueísmo, há uma equivalência entre o príncipe das trevas e o da luz, e ambos comunicam sua substância a seus súditos, fazendo com que os indivíduos sejam bons ou maus conforme sua origem. Porém, uma ideia assim não cabe na cabeça de quem sabe que Deus é absoluto, e que a pequenez do diabo não pode ser páreo para o Amor Infinito.

Não quero, com isso, subestimar a ação devastadora do mal. Ele está solto no meio do mundo. Com ele, todo cuidado é pouco. E como alerta a Carta de Pedro, devemos estar sóbrios e vigilantes, pois o adversário nos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar.

Talvez para não ser devorado pelo demo, moradores do Grande Sertão “desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga”, ou se referem aos seus apelidos, como “Rincha-Mãe”, “o Muitos-Beiços”, “o Rasga-em-Baixo”, entre tantos. Afinal, falar o nome de alguém não deixa de ser uma invocação, e chamar o diabo pelo apelido é uma tentativa de tapeá-lo. Mas Riobaldo sabe que nesse artifício há muito de exagero e fantasia. O diabo pode até fazer alarde e meter medo, e nesse mundo misturado, “cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo,” dando a impressão de que o Coisa-Ruim vai triunfar. Mas como diz Riobaldo, “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”.

Mesmo dizendo que Ele é “definitivamente”, o narrador também exclama: “Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.” Como o tempo Dele não é impaciente como o nosso, somos tentados a pensar que Deus é passivo, só porque Ele não “arrocha o regulamento,” como diz o Grande Sertão e, em vez de cortar logo o mal pela raiz, deixa o ser o humano livre para amar e desamar.

Também somos tentados a repartir o mundo entre nós e os outros, achando que só é do bem quem está conosco, e quem não reza na nossa cartilha tem parte com o Capiroto. Nesse apartheid insano, mergulhamos o coração no azedume da raiva e do ódio, sem nos darmos conta, como lembra Riobaldo, que “quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”, e ainda que “só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor”, pois “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Não vale a pena, portanto, remoer sentimentos ruins para dar gosto ao Que-não-Ri. É pura perda de tempo, e tempo, mais do que dinheiro, é a nossa própria vida. Esta, como diz o Grande Sertão, pode até ser “ingrata no macio de si, mas transtaz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.”

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Votar, vigiar e orar

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Desde jovem gosto de votar. Senti-me o máximo quando completei a idade para fazer o título, que ainda trazia a foto do eleitor. Tinha candidato que não gostava daquele modelo de documento, pois se tirar o título era de graça, tirar o retrato não era, e o dinheirinho para esse fim às vezes fazia parte do kit para angariar o voto.

Lembro, como se fosse hoje, da primeira vez que votei. Campanha para prefeito, no tempo da sublegenda. Dois candidatos do mesmo partido, os votos de um contavam para o outro. Meu pai foi o um. O partido ganhou, ele perdeu. Mas ainda hoje sinto-me feliz por ter votado num homem bom.

Na eleição seguinte, meu voto foi um dos milhões de fragmentos do poder constituinte. Aqueles homens e mulheres – muito mais eles do que elas, pois entre os quase seiscentos contavam-se apenas vinte e seis deputadas e nenhuma senadora – receberam de nós o poder para, junto com os senadores eleitos no pleito anterior, fiarem o novo tecido constitucional de uma sociedade sedenta por direitos, democracia e justiça.

Em duas campanhas posteriores tive a chance de votar em mim mesmo, o que não deixa de ter um gostinho especial. Em número de votos, perdi feio as duas eleições, e a segunda foi trágica. Não porque perdi uma eleição para vereador, afinal, não ter sido eleito não me fez um derrotado, mas por termos perdido meu pai, candidato a vice, em plena campanha eleitoral.

Depois disso me afastei da política partidária. Eu já era servidor concursado do TRT, o que não me proibia de tentar a carreira política. Mas um ano depois de ter sido reprovado nas urnas, fui aprovado no concurso de juiz, e a Lei Maior, para a qual contribuí com meu fragmento de poder constituinte, afasta do magistrado o cálice da política partidária, para garantir-lhe independência judicial. Mas o fato de ser tirada de mim a degustação pública da política partidária nunca me tirou o apetite de votar.

Como cidadão, sinto no voto um sabor especial de festa democrática. Claro que democracia não se reduz a escolher um representante para chamar de seu. Mas, por meio do voto, o cidadão eleitor pode fazer valer a força que tem. É pelo voto direito e secreto de todos, com igual valor, que se exerce a soberania popular, como diz o texto da Constituição. Quando o assunto é votar, esta não faz distinção entre homem e mulher, empregado e patrão, pobre e rico, pois nesse banquete não deve haver excluídos, como havia no passado.

Houve um tempo, no Brasil, em que mulheres e pobres não podiam participar dessa festa. Só podiam votar os chamados “homens bons”, nobres, burocratas, senhores de engenho, homens de posse, mesmo que fossem analfabetos. Quando não era secreto, havia o voto de cabresto, que não expressava a vontade do eleitor, mas de quem o dominava. Na democracia de então, era comum eleição fraudada, com gente morta votando.

Hoje muita coisa mudou. Além de todos serem convidados para a festa da votação, há mais liberdade, facilidade e acesso à informação. Nada disso, porém, garante uma boa escolha, se o eleitor vende seu voto, escolhe só por simpatia, paixão ou interesse pessoal, sem pensar no bem do povo. Falamos mal dos políticos, mas quem dá poder a eles? Nem o dinheiro que corrompe, nem a promessa que engana devem engolir a vontade popular.

Não tenho ilusões sobre democracia humana perfeita, que nunca existiu, nem há de existir. Mas ainda que imperfeita, é nela que se depositam os sonhos de um governo em que o soberano deve ser o povo, a lei deve ser igual para todos, e o voto universal, direto, secreto e igualitário é uma espécie de senha que dá direito a todo e qualquer cidadão eleitor entrar em pé de igualdade no banquete eleitoral.

Por isso, apesar das desilusões com a politicagem, decepções com alguns políticos e aparente falta de boas opções de escolha, esta deve ser feita pelo voto consciente, livre de qualquer dominação. Depois é preciso vigiar a atuação daqueles a quem damos o poder, exigir que prestem conta dos compromissos assumidos, sem deixar de orar a Deus pelo povo e por seus condutores, como ordena a 
Sagrada Escritura. Afinal, se no preâmbulo da Carta Magna, os representantes do povo, para instituir um estado democrático, fundado nos valores supremos de uma sociedade fraterna, suplicam a proteção divina para promulgarem a Constituição, é somente Deus que, em seu amor verdadeiramente democrático, faz nascer o sol para todos, bons e maus, e faz cair a chuva sobre justos e injustos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mentiras e mentiras.


            
Não lembro o ano que isso aconteceu, mas não pensem que é mentira. Quando eu era menino, e na minha cidade ainda havia cinema fora de shopping, fui assistir Dio, come ti amo. O filme me fez chorar, especialmente na cena final, em que Gigliola Cinquetti corre para o aeroporto e canta a canção de fazer parar avião. Só tinha chorado assim quando vi Coração de luto, de Teixeirinha. Mas no Dio come ti amo havia uma novidade. Antes da exibição da película, fizeram uma demonstração do sabão Omo, que estava sendo lançado no mercado. Em vez do sabão em barra, comprado em pedaço na mercearia, lá estava o sabão em pó, fazendo o branco parecer mais branco, como se fosse um toque de mágica diante de nossos olhos.
            
Soube há pouco que Omo é abreviatura de Old Mother Owl, que significa Velha Mãe Coruja, e que na primeira embalagem havia a figura de uma coruja, em que as letras “o” representavam os olhos, e o “m”, o nariz e o bico da ave. A coruja simboliza não só a sabedoria, mas o zelo materno. Por coincidência, o ingresso para assistir ao filme era cortesia em homenagem às mães. Mas como a minha não pode me levar ao cinema, coube a uma irmã postiça me fazer passar por seu filho de mentirinha para, no colo dela, me deslumbrar com a brancura da demonstração do sabão em pó e me emocionar com a cena daquele filme.
            
Fosse hoje, teria como registrar, nas imagens instantâneas do mundo virtual, o fato que nunca me saiu da memória. Mas naquele tempo, nem passava em minha cabeça que algum dia haveria internet, nem podia imaginar o que chamamos de rede social ou jogos virtuais.  Minha brincadeira preferida era com bolas de gude, no quintal de terra, onde cavava buracos para o “bola ou bura”,  e o principal brinquedo não se comprava em loja. Era o carrinho com cabine feita de lata de óleo, chassi de madeira, aspas como feixes de molas e rodas recortadas de chinelas velhas.
            
Uma vez ou outra, ousava uma travessura. Você sabe o que é “pegar morcego” em carro de boi?! Aquilo dava um prazer, que chego a comparar com o de Marty MacFly e seu skate, tanto o do passado,  que precisava da carona de um carro, quanto o voador, no De volta para o futuro.  Se não tínhamos como caçar pokemon, dava para pegar “cascudo” com a mão, num riacho perto de casa. Confesso que às vezes escondia alguma estripulia, mas não achava que fosse um pecado grave, pois mentia não para prejudicar alguém, e sim para escapar da pisa de minha santa mãe.
            
No fundo, sabia que mentir nunca era certo. Como aprendi depois no catecismo, mentira é sempre condenável por ser profanação da palavra, que deve servir para comunicar a verdade. Quando alguém mente, rouba do outro a plena capacidade de conhecer, sem a qual não se pode decidir livremente. Mas também aprendi que existem mentiras e mentiras, que o tamanho do pecado do mentiroso depende das circunstâncias em que ele mente, de suas intenções e do prejuízo sofrido por suas vítimas, e que nem todo aquele que mente deve ser automaticamente condenado. Vejam o caso de Pedro. Ele não mentiu ao negar Jesus três vezes?!
           
Diferente, porém, são as mentiras da hipocrisia, da fraude e da traição,  que ferem de morte a justiça e a caridade. Nesse caso, a mentira consiste em dizer uma falsidade a pessoas que têm o direito de saber a verdade, e fazer isso com manifesta intenção de enganar ou prejudicar os outros.
            
Dizia Otto von Bismarck que nunca se mente tanto como em véspera de eleição, durante a guerra e depois da caça. Às histórias de caçadores ou de pescadores talvez não se possa dar muito crédito. Mas elas são a mentira da espécie jactância, que segundo Aristóteles, consiste em exagerar a verdade. Na guerra, porém, a situação é mais séria. No dizer de Ésquilo, nela a verdade é a primeira vítima. Fala-se, por exemplo, que muitas vidas têm sido ceifadas com o uso de drones. Mas quem quer revelar a face oculta da “guerra contra o terror?”
            
Quanto à política, é comum nos depararmos com farsas e estelionatos eleitorais, com campanhas que gastam fortunas com marqueteiros para inventar um mundo virtual que sabemos estar longe do real. Mas não é justo jogar pedras de hipocrisia apenas em candidatos e marqueteiros, se nós também fazemos parte do processo eleitoral, e muitas vezes contribuímos com o estelionato de que também somos vítimas.
            
Por falar em pedras de hipocrisia, vi nestes dias o caso dos atletas olímpicos que inventaram uma história de assalto e depois foram pegos na mentira. Ainda bem que foram desmascarados, pois a verdade deve sempre prevalecer. Não acho justo, porém, tratar o caso como um linchamento moral. Denunciar o cisco da mentira no olho do outro, sem primeiro tirar do seu a trave da hipocrisia. E que atire a primeira pedra quem nunca mentiu na vida.

Paz em Nice, paz no mundo.







            “É uma revolta?"



            "Não, Majestade, é uma revolução.”



            
Assim teria sido o diálogo entre o rei Luís XVI e o duque de Liancourt. Falavam sobre os acontecimentos que levaram à queda da Bastilha, fato marcante da Revolução Francesa. A conquista  daquela fortaleza medieval transformada em prisão foi algo espetacular não pelos números envolvidos. Dizem que lá dentro só havia seis ou sete prisioneiros e poucos canhões que ainda prestavam. Mas expressava a participação popular na derrubada do absolutismo. O grupo que tomou a Bastilha não era uma tropa, muito menos de elite. Eram marceneiros, sapateiros e outros artesãos, gente das camadas populares, mostrando que a bandeira de luta por novos tempos não havia de ser conduzida apenas pela burguesia.



           
A notícia de que um símbolo do poder real tinha sido tomado pelo populacho se espalhou como um rastro de pólvora pela Europa. E era recebida como algo tão grandioso, a ponto do filósofo Kant, quando soube do acontecido, pela primeira vez na vida, atrasar o passeio diário, feito pontualmente às 18 horas.



            
Era só uma revolta? Não, era uma revolução. Tanto que a queda da Bastilha, ocorrida num quatorze de julho, há mais de duzentos anos,  ainda hoje é celebrada como grande feriado francês. Neste último, porém, mais uma notícia vinda da França abalou o mundo, e não foi resultado de uma revolução. Como resumiu a frase de um site jornalístico, naquele dia, “o inferno tomou conta de Nice”.



            
Por volta das dez e meia de noite, numa avenida à beira-mar de uma das praias mais famosas da França, uma multidão estava reunida para assistir a queima de fogos. De repente, um caminhão avançou cerca de dois quilômetros no meio das pessoas, atropelando quem estivesse pela frente, provocando morte e sofrimento, espalhando medo e sensação de insegurança mundo afora.



            
O mundo sedento de paz condenou o  ataque e expressou solidariedade às suas vítimas que, no fundo, somos todo nós. O Presidente do Conselho Europeu, além de lamentar o atentado, observou que se tratava de um trágico paradoxo. Aqueles homens, mulheres e crianças foram mortos e feridos pela ação do terror, justamente quando estavam reunidos para celebrar a liberdade, a igualdade e a fraternidade.



            
Paradoxos trágicos, porém, não existem apenas em ações terroristas. Os mesmos revolucionários que derrubaram a Bastilha e contribuíram para que o mundo proclamasse os direitos humanos como direitos universalizáveis, independente de nacionalidade, religião, gênero e classe social, não empunharam as bandeiras da liberdade, igualdade e fraternidade sem manchar as mãos com sangue de outros seres humanos.



            
Norberto Bobbio, falando sobre o legado da Revolução Francesa, destaca o testemunho de pensadores sobre aqueles momentos que assinalaram uma verdadeira virada na história do gênero humano. A primeira fase, segundo Tocqueville, era “o tempo de juvenil entusiasmo, de orgulho, de paixões generosas e sinceras, tempo do qual, apesar de todos os erros, os homens iriam conservar eterna memória, e que, por muito tempo ainda, perturbará o sono dos que querem subjugar ou corromper os homens.” Kant, por outro lado, condenou o regicídio como abominação e observou que os revolucionários tinham acumulado, ao mesmo tempo, miséria e crueldade. No entanto, escreveu que aquela revolução foi de um povo rico em espiritualidade, cheio do verdadeiro entusiasmo, entendido como participação de todos no bem, com intensa paixão.



            
Apaixonar-se pelo bem comum é essencial para fundamentar os direitos humanos como direitos que possam ser universais. Embora não seja fácil a sua universalização, em razão do relativismo cultural e das desigualdades socioeconômicas, essa paixão por um bem que seja de todos requer a transcendência do individualismo egoísta. Para Thomas Paine, os direitos humanos não podem ser justificados se nos contentamos com o relativismo da história, mas somente quando buscamos o momento da origem, quando os seres humanos, todos eles, sem qualquer distinção, surgiram das mãos do Criador, pois a  “a história nada prova salvo os nossos erros, dos quais devemos nos libertar. O único ponto de partida para escapar dela é reafirmar a unidade do gênero humano, que a história dividiu.”



            
Talvez não seja preciso escapar da história para transcendê-la. Mas penso que é preciso, todos os dias, reafirmar a unidade do gênero humano, que a história e o terror insistem em dividir. Bombardear o inimigo e intensificar os aparelhos de segurança, ainda que encontrem justificativas razoáveis, certamente não são soluções definitivas para os trágicos paradoxos que ameaçam a paz mundial. Sei também que não temos todas as respostas nem todos os meios necessários para a construção de um mundo de paz. Contudo, jamais o construiremos de braços cruzados. Como aprendi com o Padre Comblin, na história humana nunca há adequação entre meios e fins, e novos seres humanos hão de ser construídos com materiais de velhos seres humanos. Mesmo não existindo meios históricos ideais, pois na precariedade da condição humana tudo é inadequado, “a ação é imprescindível, a opção inevitável, a escolha necessária”. E a melhor escolha nunca é combater  ódio com ódio, terror com mais terror, mas a ação imprescindível, cotidiana e apaixonada pela paz. Paz interior, paz em Nice, paz no mundo.
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