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[Guarabira] -

Religio

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Justiça poética


Visões que na alma o céu do exílio incuba
Mortais visões! Fuzila o azul infando...”




Estes versos, que abrem o soneto Banzo, de Raimundo Correia, sempre me lembram as aulas de Teoria da Literatura, primeira disciplina que me foi dada para lecionar na Faculdade. Eu havia terminado o curso de Letras, e nossa professora, que se afastou para assumir a presidência do sindicato da categoria, indicou meu nome para substituí-la como professor-assistente.
Texto na mão, eu convidada a turma a declamarmos o poema, sem qualquer preocupação que não fosse o prazer da leitura. Tudo o que pedia era que procurássemos recitar o melhor possível, tentando perceber a beleza daquela massa fônica e contemplar as “imagens pintadas com palavras”, para me valer de uma expressão de Manoel de Barros, quando diz que aprendeu com o Padre Vieira, que imagens assim são para “se ver de ouvir.”
Depois da leitura lúdica, fatiávamos o texto, na busca de sua compreensão. Fazíamos a escansão dos decassílabos, colocávamos alguns versos na ordem direta, aqui e acolá com uma pitada de análise sintática, ao mesmo tempo pesquisando o significado das palavras novas do rico vocabulário do soneto. Ao final, fazíamos nova leitura em voz alta, procurando unir beleza e compreensão do que estávamos recitando.
Além dos elementos do texto, procurávamos informações sobre o contexto, além de elementos pré-textuais, incluindo a biografia do autor. Este, como diz a teoria hermenêutica, pode ser visto como um elemento ocasional, pois uma vez gerado, o texto corta o cordão umbilical com o seu criador. O cuidado, porém, é que o leitor respeite a alteridade do texto, deixe-o falar, e não o transforme em mero pretexto para que só o intérprete fale.
Também não se há de esquecer que, mesmo “ocasional”, o autor não pode ser desprezado para compreensão de sua obra. Se “tudo que é dito é dito por alguém”, conhecer a biografia desse alguém pode ajudar a entender o que ele diz. No caso do poeta parnasiano, sua história de vida é iluminada e iluminadora.
Raimundo Correia foi poeta e juiz. Tão cuidadoso com as consequências de suas decisões, que sobre ele surgiram várias histórias, como as registradas na coletânea Brasil anedótico, de Humberto de Campos, extraídas de discursos proferidos na Academia Brasileira de Letras. Nelas são destacadas diversas virtudes do poeta juiz, algumas até exageradas, se é que pode haver excesso nas virtudes.
Conta-se que ele era de um escrúpulo quase doentio ao lavrar suas decisões. Teria passado nove noites sem dormir, antes de se averbar suspeito num processo cujo autor era o amigo Medeiros e Albuquerque. No íntimo, ele achava que Medeiros tinha razão. Mas nisso residia o escrúpulo que fez o poeta confessar ao amigo: “há nove noites eu pergunto a mim mesmo: mas eu acho que o Medeiros tem razão porque tem mesmo, ou é porque o Medeiros é meu amigo?”
Em outra história, Humberto de Campos destaca o lado cristão do juiz poeta. O empregado de um açougueiro tinha ferido o patrão a facão. Raimundo Correia mandou chamar as partes. Disse que ia absolver o culpado, porque ele tinha sido ofendido no insulto. Mas tinha uma condição: que os dois não guardassem ódio. Fez, então, uma preleção sobre a violência, e terminou:
                  “- Vocês têm religião?
                  - Sim, senhor.
                   E aproximando-os:
                  -Então, vão, e sejam amigos...”
Ouvi nesses dias, no comentário de um jornalista sobre a prisão de ex-governadores por atos de corrupção, comemorada por parte da população, que esse episódio pode ser visto como parte de uma justiça poética, na qual as virtudes triunfam sobre os crimes. Mas de nada adiantará a euforia, se não concretizarmos as consequências desse triunfo. Talvez seja o caso de nos inspiramos em Raimundo Correia e termos mais cuidado com as consequências de nossas decisões, opção fundamental para concretizar a justiça poética, sem a qual justiça não é justiça.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Grande Sertão.

                                 

Desde que me entendi por gente, tomei gosto pelos livros. Até nas brincadeiras de criança eu tinha fascínio por eles. E quando ganhava um ainda no plástico... Ah! Como era bom tirar-lhe a embalagem, acariciar-lhe as páginas, sentir o cheirinho do novo. Nas asas da leitura, sempre viajei pelo mundo sem precisar sair de casa.

Das tantas viagens, ainda me encanta a do Grande Sertão: Veredas. Narrativa que completou sessenta anos, é romance mais que romance, universo rico criado por uma linguagem singular, é o pensar sobre a travessia da vida, vista como invenção coletiva, “mutirão de todos, por todos remexida e temperada,” mesmo que não seja “entendível”.

Além da prosa de Riobaldo, o personagem narrador, repleta de pensamentos profundos, suas histórias de luta, amizade e amor ao lado de Diadorim, algo que sempre me seduz no romance de Guimarães Rosa é a dualidade não maniqueísta entre Deus e o diabo.

O maniqueísmo reparte o mundo em duas bandas: de um lado, o reino do bem e dos bons; do outro, o império do mal e dos maus. Porém, no Grande Sertão, tal qual na parábola bíblica, o joio e o trigo não estão em cercados separados. A gente pode até, como o narrador, carecer que “o bom seja bom e o ruim, ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza”, mas a realidade, como ele observa, é que “este mundo é muito misturado.”

No maniqueísmo, há uma equivalência entre o príncipe das trevas e o da luz, e ambos comunicam sua substância a seus súditos, fazendo com que os indivíduos sejam bons ou maus conforme sua origem. Porém, uma ideia assim não cabe na cabeça de quem sabe que Deus é absoluto, e que a pequenez do diabo não pode ser páreo para o Amor Infinito.

Não quero, com isso, subestimar a ação devastadora do mal. Ele está solto no meio do mundo. Com ele, todo cuidado é pouco. E como alerta a Carta de Pedro, devemos estar sóbrios e vigilantes, pois o adversário nos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar.

Talvez para não ser devorado pelo demo, moradores do Grande Sertão “desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga”, ou se referem aos seus apelidos, como “Rincha-Mãe”, “o Muitos-Beiços”, “o Rasga-em-Baixo”, entre tantos. Afinal, falar o nome de alguém não deixa de ser uma invocação, e chamar o diabo pelo apelido é uma tentativa de tapeá-lo. Mas Riobaldo sabe que nesse artifício há muito de exagero e fantasia. O diabo pode até fazer alarde e meter medo, e nesse mundo misturado, “cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo,” dando a impressão de que o Coisa-Ruim vai triunfar. Mas como diz Riobaldo, “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”.

Mesmo dizendo que Ele é “definitivamente”, o narrador também exclama: “Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.” Como o tempo Dele não é impaciente como o nosso, somos tentados a pensar que Deus é passivo, só porque Ele não “arrocha o regulamento,” como diz o Grande Sertão e, em vez de cortar logo o mal pela raiz, deixa o ser o humano livre para amar e desamar.

Também somos tentados a repartir o mundo entre nós e os outros, achando que só é do bem quem está conosco, e quem não reza na nossa cartilha tem parte com o Capiroto. Nesse apartheid insano, mergulhamos o coração no azedume da raiva e do ódio, sem nos darmos conta, como lembra Riobaldo, que “quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”, e ainda que “só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor”, pois “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Não vale a pena, portanto, remoer sentimentos ruins para dar gosto ao Que-não-Ri. É pura perda de tempo, e tempo, mais do que dinheiro, é a nossa própria vida. Esta, como diz o Grande Sertão, pode até ser “ingrata no macio de si, mas transtaz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.”

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Votar, vigiar e orar

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Desde jovem gosto de votar. Senti-me o máximo quando completei a idade para fazer o título, que ainda trazia a foto do eleitor. Tinha candidato que não gostava daquele modelo de documento, pois se tirar o título era de graça, tirar o retrato não era, e o dinheirinho para esse fim às vezes fazia parte do kit para angariar o voto.

Lembro, como se fosse hoje, da primeira vez que votei. Campanha para prefeito, no tempo da sublegenda. Dois candidatos do mesmo partido, os votos de um contavam para o outro. Meu pai foi o um. O partido ganhou, ele perdeu. Mas ainda hoje sinto-me feliz por ter votado num homem bom.

Na eleição seguinte, meu voto foi um dos milhões de fragmentos do poder constituinte. Aqueles homens e mulheres – muito mais eles do que elas, pois entre os quase seiscentos contavam-se apenas vinte e seis deputadas e nenhuma senadora – receberam de nós o poder para, junto com os senadores eleitos no pleito anterior, fiarem o novo tecido constitucional de uma sociedade sedenta por direitos, democracia e justiça.

Em duas campanhas posteriores tive a chance de votar em mim mesmo, o que não deixa de ter um gostinho especial. Em número de votos, perdi feio as duas eleições, e a segunda foi trágica. Não porque perdi uma eleição para vereador, afinal, não ter sido eleito não me fez um derrotado, mas por termos perdido meu pai, candidato a vice, em plena campanha eleitoral.

Depois disso me afastei da política partidária. Eu já era servidor concursado do TRT, o que não me proibia de tentar a carreira política. Mas um ano depois de ter sido reprovado nas urnas, fui aprovado no concurso de juiz, e a Lei Maior, para a qual contribuí com meu fragmento de poder constituinte, afasta do magistrado o cálice da política partidária, para garantir-lhe independência judicial. Mas o fato de ser tirada de mim a degustação pública da política partidária nunca me tirou o apetite de votar.

Como cidadão, sinto no voto um sabor especial de festa democrática. Claro que democracia não se reduz a escolher um representante para chamar de seu. Mas, por meio do voto, o cidadão eleitor pode fazer valer a força que tem. É pelo voto direito e secreto de todos, com igual valor, que se exerce a soberania popular, como diz o texto da Constituição. Quando o assunto é votar, esta não faz distinção entre homem e mulher, empregado e patrão, pobre e rico, pois nesse banquete não deve haver excluídos, como havia no passado.

Houve um tempo, no Brasil, em que mulheres e pobres não podiam participar dessa festa. Só podiam votar os chamados “homens bons”, nobres, burocratas, senhores de engenho, homens de posse, mesmo que fossem analfabetos. Quando não era secreto, havia o voto de cabresto, que não expressava a vontade do eleitor, mas de quem o dominava. Na democracia de então, era comum eleição fraudada, com gente morta votando.

Hoje muita coisa mudou. Além de todos serem convidados para a festa da votação, há mais liberdade, facilidade e acesso à informação. Nada disso, porém, garante uma boa escolha, se o eleitor vende seu voto, escolhe só por simpatia, paixão ou interesse pessoal, sem pensar no bem do povo. Falamos mal dos políticos, mas quem dá poder a eles? Nem o dinheiro que corrompe, nem a promessa que engana devem engolir a vontade popular.

Não tenho ilusões sobre democracia humana perfeita, que nunca existiu, nem há de existir. Mas ainda que imperfeita, é nela que se depositam os sonhos de um governo em que o soberano deve ser o povo, a lei deve ser igual para todos, e o voto universal, direto, secreto e igualitário é uma espécie de senha que dá direito a todo e qualquer cidadão eleitor entrar em pé de igualdade no banquete eleitoral.

Por isso, apesar das desilusões com a politicagem, decepções com alguns políticos e aparente falta de boas opções de escolha, esta deve ser feita pelo voto consciente, livre de qualquer dominação. Depois é preciso vigiar a atuação daqueles a quem damos o poder, exigir que prestem conta dos compromissos assumidos, sem deixar de orar a Deus pelo povo e por seus condutores, como ordena a 
Sagrada Escritura. Afinal, se no preâmbulo da Carta Magna, os representantes do povo, para instituir um estado democrático, fundado nos valores supremos de uma sociedade fraterna, suplicam a proteção divina para promulgarem a Constituição, é somente Deus que, em seu amor verdadeiramente democrático, faz nascer o sol para todos, bons e maus, e faz cair a chuva sobre justos e injustos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mentiras e mentiras.


            
Não lembro o ano que isso aconteceu, mas não pensem que é mentira. Quando eu era menino, e na minha cidade ainda havia cinema fora de shopping, fui assistir Dio, come ti amo. O filme me fez chorar, especialmente na cena final, em que Gigliola Cinquetti corre para o aeroporto e canta a canção de fazer parar avião. Só tinha chorado assim quando vi Coração de luto, de Teixeirinha. Mas no Dio come ti amo havia uma novidade. Antes da exibição da película, fizeram uma demonstração do sabão Omo, que estava sendo lançado no mercado. Em vez do sabão em barra, comprado em pedaço na mercearia, lá estava o sabão em pó, fazendo o branco parecer mais branco, como se fosse um toque de mágica diante de nossos olhos.
            
Soube há pouco que Omo é abreviatura de Old Mother Owl, que significa Velha Mãe Coruja, e que na primeira embalagem havia a figura de uma coruja, em que as letras “o” representavam os olhos, e o “m”, o nariz e o bico da ave. A coruja simboliza não só a sabedoria, mas o zelo materno. Por coincidência, o ingresso para assistir ao filme era cortesia em homenagem às mães. Mas como a minha não pode me levar ao cinema, coube a uma irmã postiça me fazer passar por seu filho de mentirinha para, no colo dela, me deslumbrar com a brancura da demonstração do sabão em pó e me emocionar com a cena daquele filme.
            
Fosse hoje, teria como registrar, nas imagens instantâneas do mundo virtual, o fato que nunca me saiu da memória. Mas naquele tempo, nem passava em minha cabeça que algum dia haveria internet, nem podia imaginar o que chamamos de rede social ou jogos virtuais.  Minha brincadeira preferida era com bolas de gude, no quintal de terra, onde cavava buracos para o “bola ou bura”,  e o principal brinquedo não se comprava em loja. Era o carrinho com cabine feita de lata de óleo, chassi de madeira, aspas como feixes de molas e rodas recortadas de chinelas velhas.
            
Uma vez ou outra, ousava uma travessura. Você sabe o que é “pegar morcego” em carro de boi?! Aquilo dava um prazer, que chego a comparar com o de Marty MacFly e seu skate, tanto o do passado,  que precisava da carona de um carro, quanto o voador, no De volta para o futuro.  Se não tínhamos como caçar pokemon, dava para pegar “cascudo” com a mão, num riacho perto de casa. Confesso que às vezes escondia alguma estripulia, mas não achava que fosse um pecado grave, pois mentia não para prejudicar alguém, e sim para escapar da pisa de minha santa mãe.
            
No fundo, sabia que mentir nunca era certo. Como aprendi depois no catecismo, mentira é sempre condenável por ser profanação da palavra, que deve servir para comunicar a verdade. Quando alguém mente, rouba do outro a plena capacidade de conhecer, sem a qual não se pode decidir livremente. Mas também aprendi que existem mentiras e mentiras, que o tamanho do pecado do mentiroso depende das circunstâncias em que ele mente, de suas intenções e do prejuízo sofrido por suas vítimas, e que nem todo aquele que mente deve ser automaticamente condenado. Vejam o caso de Pedro. Ele não mentiu ao negar Jesus três vezes?!
           
Diferente, porém, são as mentiras da hipocrisia, da fraude e da traição,  que ferem de morte a justiça e a caridade. Nesse caso, a mentira consiste em dizer uma falsidade a pessoas que têm o direito de saber a verdade, e fazer isso com manifesta intenção de enganar ou prejudicar os outros.
            
Dizia Otto von Bismarck que nunca se mente tanto como em véspera de eleição, durante a guerra e depois da caça. Às histórias de caçadores ou de pescadores talvez não se possa dar muito crédito. Mas elas são a mentira da espécie jactância, que segundo Aristóteles, consiste em exagerar a verdade. Na guerra, porém, a situação é mais séria. No dizer de Ésquilo, nela a verdade é a primeira vítima. Fala-se, por exemplo, que muitas vidas têm sido ceifadas com o uso de drones. Mas quem quer revelar a face oculta da “guerra contra o terror?”
            
Quanto à política, é comum nos depararmos com farsas e estelionatos eleitorais, com campanhas que gastam fortunas com marqueteiros para inventar um mundo virtual que sabemos estar longe do real. Mas não é justo jogar pedras de hipocrisia apenas em candidatos e marqueteiros, se nós também fazemos parte do processo eleitoral, e muitas vezes contribuímos com o estelionato de que também somos vítimas.
            
Por falar em pedras de hipocrisia, vi nestes dias o caso dos atletas olímpicos que inventaram uma história de assalto e depois foram pegos na mentira. Ainda bem que foram desmascarados, pois a verdade deve sempre prevalecer. Não acho justo, porém, tratar o caso como um linchamento moral. Denunciar o cisco da mentira no olho do outro, sem primeiro tirar do seu a trave da hipocrisia. E que atire a primeira pedra quem nunca mentiu na vida.

Paz em Nice, paz no mundo.







            “É uma revolta?"



            "Não, Majestade, é uma revolução.”



            
Assim teria sido o diálogo entre o rei Luís XVI e o duque de Liancourt. Falavam sobre os acontecimentos que levaram à queda da Bastilha, fato marcante da Revolução Francesa. A conquista  daquela fortaleza medieval transformada em prisão foi algo espetacular não pelos números envolvidos. Dizem que lá dentro só havia seis ou sete prisioneiros e poucos canhões que ainda prestavam. Mas expressava a participação popular na derrubada do absolutismo. O grupo que tomou a Bastilha não era uma tropa, muito menos de elite. Eram marceneiros, sapateiros e outros artesãos, gente das camadas populares, mostrando que a bandeira de luta por novos tempos não havia de ser conduzida apenas pela burguesia.



           
A notícia de que um símbolo do poder real tinha sido tomado pelo populacho se espalhou como um rastro de pólvora pela Europa. E era recebida como algo tão grandioso, a ponto do filósofo Kant, quando soube do acontecido, pela primeira vez na vida, atrasar o passeio diário, feito pontualmente às 18 horas.



            
Era só uma revolta? Não, era uma revolução. Tanto que a queda da Bastilha, ocorrida num quatorze de julho, há mais de duzentos anos,  ainda hoje é celebrada como grande feriado francês. Neste último, porém, mais uma notícia vinda da França abalou o mundo, e não foi resultado de uma revolução. Como resumiu a frase de um site jornalístico, naquele dia, “o inferno tomou conta de Nice”.



            
Por volta das dez e meia de noite, numa avenida à beira-mar de uma das praias mais famosas da França, uma multidão estava reunida para assistir a queima de fogos. De repente, um caminhão avançou cerca de dois quilômetros no meio das pessoas, atropelando quem estivesse pela frente, provocando morte e sofrimento, espalhando medo e sensação de insegurança mundo afora.



            
O mundo sedento de paz condenou o  ataque e expressou solidariedade às suas vítimas que, no fundo, somos todo nós. O Presidente do Conselho Europeu, além de lamentar o atentado, observou que se tratava de um trágico paradoxo. Aqueles homens, mulheres e crianças foram mortos e feridos pela ação do terror, justamente quando estavam reunidos para celebrar a liberdade, a igualdade e a fraternidade.



            
Paradoxos trágicos, porém, não existem apenas em ações terroristas. Os mesmos revolucionários que derrubaram a Bastilha e contribuíram para que o mundo proclamasse os direitos humanos como direitos universalizáveis, independente de nacionalidade, religião, gênero e classe social, não empunharam as bandeiras da liberdade, igualdade e fraternidade sem manchar as mãos com sangue de outros seres humanos.



            
Norberto Bobbio, falando sobre o legado da Revolução Francesa, destaca o testemunho de pensadores sobre aqueles momentos que assinalaram uma verdadeira virada na história do gênero humano. A primeira fase, segundo Tocqueville, era “o tempo de juvenil entusiasmo, de orgulho, de paixões generosas e sinceras, tempo do qual, apesar de todos os erros, os homens iriam conservar eterna memória, e que, por muito tempo ainda, perturbará o sono dos que querem subjugar ou corromper os homens.” Kant, por outro lado, condenou o regicídio como abominação e observou que os revolucionários tinham acumulado, ao mesmo tempo, miséria e crueldade. No entanto, escreveu que aquela revolução foi de um povo rico em espiritualidade, cheio do verdadeiro entusiasmo, entendido como participação de todos no bem, com intensa paixão.



            
Apaixonar-se pelo bem comum é essencial para fundamentar os direitos humanos como direitos que possam ser universais. Embora não seja fácil a sua universalização, em razão do relativismo cultural e das desigualdades socioeconômicas, essa paixão por um bem que seja de todos requer a transcendência do individualismo egoísta. Para Thomas Paine, os direitos humanos não podem ser justificados se nos contentamos com o relativismo da história, mas somente quando buscamos o momento da origem, quando os seres humanos, todos eles, sem qualquer distinção, surgiram das mãos do Criador, pois a  “a história nada prova salvo os nossos erros, dos quais devemos nos libertar. O único ponto de partida para escapar dela é reafirmar a unidade do gênero humano, que a história dividiu.”



            
Talvez não seja preciso escapar da história para transcendê-la. Mas penso que é preciso, todos os dias, reafirmar a unidade do gênero humano, que a história e o terror insistem em dividir. Bombardear o inimigo e intensificar os aparelhos de segurança, ainda que encontrem justificativas razoáveis, certamente não são soluções definitivas para os trágicos paradoxos que ameaçam a paz mundial. Sei também que não temos todas as respostas nem todos os meios necessários para a construção de um mundo de paz. Contudo, jamais o construiremos de braços cruzados. Como aprendi com o Padre Comblin, na história humana nunca há adequação entre meios e fins, e novos seres humanos hão de ser construídos com materiais de velhos seres humanos. Mesmo não existindo meios históricos ideais, pois na precariedade da condição humana tudo é inadequado, “a ação é imprescindível, a opção inevitável, a escolha necessária”. E a melhor escolha nunca é combater  ódio com ódio, terror com mais terror, mas a ação imprescindível, cotidiana e apaixonada pela paz. Paz interior, paz em Nice, paz no mundo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A lista




“Se um veleiro repousasse na palma da minha mão...”  Quando aquela menina, linda e talentosa, começou a cantar em minha homenagem, percebi que um veleiro de emoções seguiria com sentimento rumo ao meu coração, como diz a letra da canção. Além da música, tantas palavras lisonjeiras foram dirigidas aos homenageados da noite. O propositor da honraria a mim concedida, a medalha Osmar de Aquino, disse que falar de bem a meu respeito em nossa cidade era “chover no molhado”. Fiquei feliz com o que ouvi – afinal, quem não gosta de elogio?! – mas sempre me vinha a mente o pensamento de Aristóteles: a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las, e penso que o mais importante é, no dia a dia, fazer por merecer o que de bom nos é dado pelas pessoas com quem convivemos. Por isso, na minha fala, procurei compartilhar com elas a homenagem que recebi. Como não tive tempo de preparar um pronunciamento escrito, como recomenda o protocolo numa ocasião como aquela, vali-me de uma lista.
As listas sempre foram utilizadas na história humana para os mais diversos fins. Para descrever o povoamento da terra, o redator do capítulo 10 do Gênesis recorreu à lista dos povos, mesclada de nomes e fatos, elaborada à visão dos hebreus, de que genealogia era bem mais do que  simples descendência. Se os direitos dos indivíduos eram fruto da participação no clã e na tribo, a lista representava uma prova escrita dessa pertença. Outra lista importante para os judeus foi a de Schindler, que se transformou num estrondoso sucesso nas telas do cinema, no filme de Spielberg. Fazer parte daquela lista representava a diferença entre viver ou morrer, e como diz a frase do Talmude, gravada no anel dado a Schindler por seus trabalhadores, “aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro”.
 

Existem outras listas que, dependendo da ocasião, podem ter serventia ou causar aborrecimento. Lista de convidados para uma festa normalmente nos deixa em dificuldade, seja em razão do orçamento, seja dos critérios para quem deixar de fora; lista de presentes de casamento, que faz muito convidado correr à loja para comprar o seu e não ficar com a opção dos mais caros. Se a lista telefônica, tão requisitada em outros tempos, hoje sucumbiu ao mundo virtual do google, este nos apresenta não só playlists de todos os gêneros musicais, mas listas para todos os gostos. Os “top 10” vão desde filmes e séries até os piores casos de corrupção na história brasileira, passando por outras esquisitices do mundo bizarro em que às vezes navegamos

Entre as várias listas que povoam nosso cotidiano, uma das que pode ser útil ou causar  aflição é a lista de compras. Nas poucas vezes que vou ao supermercado desacompanhado, mesmo com ela na mão, acabo ligando para minha esposa, indagando sobre os produtos que devo levar, e pergunto a mim mesmo: se toda vez ligo pra ela, para que então me serve a lista?  Ainda bem que não sofro, como o artista da música lista de compras de Amado Batista. O sujeito fica se lamentando, com saudades de quando era garotinho e namorado da esposa, nos tempos que não voltam mais, porque depois de casado, quando chega o fim de semana, em vez do namoro, o que lhe espera é uma lista mostrada pela mulher, que diz estar faltando desde o gás, arroz, café, açúcar e feijão até uma borracha para panela de pressão. E assim, como diz a música, “vai seguindo a lista, e o bolso do artista sem nenhum tostão.”

Mas voltando à lista que utilizei para minha fala, ela poderia ser traduzida nos verbos agradecer e dedicar. No topo da lista, como não poderia deixar de ser, constava o nome de Deus. Se nele vivemos, nos movemos e existimos, como disse Paulo no areópago, nada é possível de se fazer sem Ele. Depois lembrei os antepassados. Somos descendência de Deus, mas a vida chega até nós  pelos que nos antecederam.  Fiz menção ao único avô que conheci, de quem herdei o nome. Homem do campo, simples e de poucas letras, de gestos contidos e laconismo agreste, como já me referi em outro escrito a ele dedicado. Aos meus pais, exemplos de professores honrados, cujo sangue corre em nossas veias, minhas, de meus irmãos e meus filhos.  À minha esposa, que se não é sangue do meu sangue,  é carne de minha carne, unidos que somos pelo amor, a “livre entrega do coração”.

E como cada um de nós é formado não só no seio da família, mas por todos os grupos do qual fazemos parte, agradeci e dediquei a honraria aos professores de todas as escolas de nossa cidade onde estudei, desde o Antenor Navarro até a Universidade Estadual, destacando a importância dos que atuam na UEPB, onde sou professor, e da Vara do Trabalho de Guarabira, onde sou juiz.


Por fim, o veleiro de emoções, que tocou meu coração a partir da bela interpretação da menina Ranna, dirigiu-se a todos os presentes naquele evento. Se uma medalha é conferida por representantes do povo, a este devo eterna gratidão, com o compromisso de continuar, na medida do possível, retribuindo com trabalho e dedicação, o muito que Guarabira, terra de Osmar de Aquino e minha terra, tem dado a mim e aos que fazem de mim o que eu sou.
                               

terça-feira, 31 de maio de 2016

Aprendiz do direito, da justiça e da esperança.

           


Num mês de maio, há 23 anos, ingressei na magistratura, eu, que nunca na vida tinha sonhado ser juiz. Quando menino, jogando bola na rua, até o nome juiz era usado para fazer medo: – Parem já com essa brincadeira, senão vou pedir ao juiz para tomar a bola e proibir esse jogo de vocês. E Juiz do Trabalho?! Naquele tempo eu nem sabia que havia esse tipo de juiz. Na escola sempre fui estudioso, mas nunca me passou pela cabeça fazer o curso de Direito. Meu primeiro vestibular foi para Sociologia e, modéstia à parte, passei com nota boa para qualquer outro curso. Meu pai viajou comigo até a Universidade para fazer a pré-matrícula, mas depois que saiu o resultado do outro vestibular, não hesitei nenhum instante. Melhor fazer Letras, à noite, e trabalhar de dia, ainda que tivesse de viajar por estrada de poeira ou lama, pois era aquele caminho que me permitia ser Regente de Ensino, em caráter precário e temporário, como dizia a portaria assinada pelo Governador Burity, era aquele caminho que me tornava o que eu queria ser, aos dezoito anos, um “bem-sucedido” aprendiz de professor.
            
O tempo e a insistência do meu irmão, porém, conduziram-me a outros caminhos: – Rapaz, tu vais ficar a vida toda como professor? Ele, que também dava aulas, sabia das dificuldades do magistério, da vida dos nossos pais, professores, que sempre honraram a profissão, mas não tinham como se pabular dos contracheques. Enveredei, então, pelas trilhas sinuosas do mundo jurídico. Mas mesmo na Faculdade, quando fui tomado de paixão pelas letras jurídicas, o Direito do Trabalho ainda não me despertava o interesse.
            
Diploma na mão, sem ter recebido orientação ou encaminhamento de ninguém da área, minha prática forense só ocorreu, de fato, no Centro de Direitos Humanos da Diocese. Compartilhar a luta dos trabalhadores por terra e por respeito a direitos sociais básicos foi o que me levou a ingressar na Justiça do Trabalho. Em maio de 1990, tomei posse como servidor. Três anos mais tarde, tornava-me juiz, também num mês de maio.
            
Diferente do meu irmão, que desde que se entendeu por gente dizia que um dia seria médico, minha vocação foi sendo revelada nos chamados que a vida ia anunciando, mas igualzinho a ele, os desígnios de Deus me deram a sorte de continuar professor. Se a sala de audiência me dá a chance de procurar distribuir justiça, que não é luxo nem privilégio, mas condição de vida digna para todos, pois onde há justiça não falta pão nem escola, salário e remédio, a sala de aula é o espaço de compartilhar desejos, de ser ao mesmo tempo mestre e aprendiz. No solo dos corações inquietos dos jovens, na fecundidade de suas mentes criativas e criadoras, procuro lançar sementes do que aprendi nos capítulos dos livros e da vida. Deles recebo o salário do afeto, que não cabe em nenhum contracheque, além de ensinamentos que só a santa rebeldia dos jovens pode nos dar. Isso me faz acreditar que nem tudo está perdido, e a tocha da esperança pode ser bem conduzida pelas novas gerações.
            
Por vezes, a esperança me vem à mente não feito tocha, mas como fogo de monturo. Destroços de trampolins da ambição política, avolumados pelo vai e vem das crises, parecem ter extinto a chama, mas ela continua lá, alimentada pelo ardor constante de quem persiste na resistência, de quem não age como o incendiário que “toca fogo e sai de perto”, apenas pelo prazer de ver o circo pegar fogo, contanto que esteja longe, nem como fogo de palha, inflamado pela empolgação passageira. Para mantê-la acesa, é preciso compreender que direito e justiça não são bondades de governantes, que sobem e descem nas gangorras do poder, mas conquistas, provisórias e gradativas, frutos da organização e da luta cotidiana pela dignidade, vista não como uma coisa abstrata, mas como o acesso aos bens materiais e imateriais necessários para alguém ser realmente gente. Dignidade humana é, antes de tudo, o direito que todo ser humano tem de ser protegido e cuidado desde o ventre materno, nascer como gente, viver como gente, morrer como gente, ter exéquias de gente e partir para eternidade como gente. Para isso, o Direito do Trabalho, que me faz juiz e professor, dá não somente aos meus o pão de cada dia, mas pode ajudar a garantir a muitos o pão da justiça e da dignidade, mantendo ardente a chama da esperança.
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