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[Guarabira] -

Religio

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Festas de padroeiro


Quando menino, meu pai me levava para passear durante a festa da padroeira. Muita gente zanzando na rua, outras andando nos brinquedos dos parques de diversão. A roda-gigante era a vedete. Nela as crianças podiam desafiar o medo de altura, sentindo aquele friozinho gostoso na barriga, e namorados podiam trocar juras de amor. A difusora do parque servia para dedicar música a um certo alguém. Eu gostava ainda de olhar o pavilhão, onde se apresentavam bandas que lembravam big bands. Obviamente, ficávamos do lado de fora, pois, naquele tempo, pavilhão era coisa para famílias da “sociedade”. Mas não deixava de me fascinar pela beleza da música executada pelas orquestras. Na volta para casa, meu pai comprava uma bengalinha enfeitada de fita colorida, para mim, um singelo e marcante souvenir.

Quando adolesci, mudei de cidade e de padroeiro. Esperava ansiosamente aquela festa, pois não havia muitas durante o ano. Por isso, a festa do padroeiro não deixava de ser uma boa ocasião para libertar alguns desejos contidos. Eu, desde jovem, nunca fui de beber, e minha timidez dificultava-me a paquera. Mas às vezes conseguia que alguma garota dançasse comigo até o raiar do dia. À tarde, meio enfadado, vestia a segunda roupa de fim de ano, para ir à missa e acompanhar a procissão, ao som da banda de música.

O caráter festivo de nossa religiosidade não é novidade. Nosso catolicismo sempre foi amigo de música, dança e foguetório. Costumava-se representar comédias, dançar e até namorar nas igrejas coloniais do Brasil. Festas, por sua vez, não se opõem necessariamente às práticas religiosas. A trajetória do povo de Deus sempre foi pontilhada de festas. Festas para celebrar a natureza e a história; festas de nascimento, de casamento e até de morte. As festas, diz o Padre Comblin, dão consistência ao presente: “um povo sem festas ficaria na pura repetição do seu passado indefinidamente sem renovação, ou absorvido pela preparação do futuro que nunca chega.” Por isso as festas são tão importantes para a formação das comunidades.

O mal é quando as festas populares deixam de ser comunicação, alegria e partilha entre as pessoas, para servirem a interesses escusos dos que se arvoram donos da festa ou donos do povo, ou quando nós mesmos abastardamos o sentido delas. Se até o Natal, quando manipulado pelo mercado, esvazia-se do significado da celebração do nascimento do Salvador, para tornar-se uma farra do consumo desenfreado, imagine o que pode acontecer quando degeneramos o sentido da festa do padroeiro... Grandes atrações artísticas em palcos abertos ao povo podem ser um bom exemplo de democratização da cultura e do entretenimento, mas também podem ser a repetição da velha política romana do pão e circo, para desviar a atenção das massas populares das suas verdadeiras necessidades. Brindar encontros e reencontros entre amigos é sinal de fraternidade, momento singular de alegria, é fruição do kairós, em que o tempo parece parar. Mas se o excesso da bebida nos leva à sarjeta, se é pretexto para atiçar a violência, o consumo de outras drogas, se é instrumento para fazer mal a nós mesmos e aos outros, para onde vai o sentido da festa do padroeiro?

Na Carta aos Gálatas, Paulo lembra que para ser livres, Cristo nos libertou. Mas também exorta que o mau uso da liberdade pode resultar em ódios, discórdias, invejas, bebedeiras, orgias e outros males. Uma festa não é inevitavelmente um momento para se cultivar as obras da carne. É possível vivê-la com alegria, paz, bondade e continência. E isso não depende da vontade dos nossos santos padroeiros, pois eles respeitam nossa vocação para a liberdade.

Um convite à filosofia, na hipermodernidade

Qual deve ser o papel da filosofia e do filosofar no tempo da hipermodernidade, no qual vivemos? Gilles Lipovetsky nos ajuda a pensar sobre isso.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Chico Pedrosa, de Guarabira para o mundo

Há alguns anos atrás, tive a grata satisfação de ver e ouvir pessoalmente o poeta Chico Pedrosa, declamando suas poesias, no auditório do SEBRAE em Guarabira-PB. Na oportunidade, verifiquei porque ele é considerado um dos maiores poetas populares do nosso país. Dos três CD’s de poesia daquele poeta, que não me canso de ouvir (sertão caboclo, paisagem sertaneja e no meu sertão é assim), todos devidamente autografados pelo grande mestre guarabirense, tenho especial predileção pelo poema “O filósofo Zé Gogó”, declamado por Chico Pedrosa neste vídeo.


O coração tem razões que a razão desconhece


Texto adaptado do original de Max Shulman. “O amor é uma falácia”, in As calcinhas cor de rosa do capitão e outros contos humorísticos, p. 62-90 – extraído do livro Pensando melhor: iniciação ao filosofar, de Angélica Sátiro e Ana Míriam Wuensch. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 78-83.

As personagens e suas características:


PEDRO: adolescente astuto, intelectual, perspicaz. Nele, a razão predomina sobre a emoção. Possuía fortes “razões” para namorar Vera, uma vez que a emoção, por si só, não o levaria a nada.


JOÃO: jovem alegre, agradável, mas de cabeça vazia; andava sempre junto de Vera, dando a entender possível namoro.


VERA: uma gatinha de 16 anos, sempre na moda e alegre.


Na hora do recreio, no pátio do colégio, Pedro aproxima-se de João e pergunta:


Por que você está triste, João? Está doente?


─ Não, cara, é que não tenho uma moto. Já pensou quantas garotas eu não conquistaria com uma 250 cilindradas?


─ Nenhuma amigo, nenhuma do porte estético de Vera. Se você tivesse uma moto, só conquistaria “patricinhas” ou “peruas”, pois as pessoas atraem pelo que são e não pelo que têm ─ respondeu Pedro.


─ Eu faria qualquer coisa para conseguir uma moto. Qualquer coisa!


Pedro sabia que João e Vera eram muito chegados e, por isso, perguntou:


João, você namora Vera?


Acho que ela é legal, mas não sei se isso poderia ser considerado namoro. Por quê?


Passado o mês de férias, julho, ambos retornaram ao colégio e continuaram a conversa:


─ Já conseguiu a moto, João?


─ Não, Pedro, não tenho dinheiro para comprá-la.


─ Pois eu tenho uma moto. Meu irmão mudou-se para os Estados Unidos e deixou-a pra mim. Como eu não gosto de moto...


─ Mas que legal, cara! Quando posso buscá-la?


─ Hoje mesmo, se quiser. Mas, para ficar com ela, terá que me dar suas coleções de livros e revistas.


─ Fechado, cara. Eu não leio mesmo...


─ Mas há uma condição: não me impeça de tentar conquistar a Vera.


Fechadíssimo, irmão!


Pedro, ajudado por João, marca um encontro com Vera na quadra de peteca do colégio. Fica decepcionado com a ignorância de Vera e decide ensinar-lhe lógica.


No encontro seguinte, Vera pergunta para Pedro:


─ Sobre o que conversaremos?


─ Lógica. Lógica é a ciência do pensamento. Para pensar corretamente, devemos antes considerar alguns erros comuns de raciocínio chamados sofismas ou falácias.

Primeiro, vamos examinar o sofisma chamado generalização não-qualificada. Por exemplo: “Leite é bom para saúde. Por isso, todos devem tomar leite”.


─ Eu concordo ─ disse ela, séria ─ Acho que leite é ótimo para todo mundo.


─ Vera, esse argumento é um sofisma. Quer ver? Se você tivesse alergia a leite, ele seria um veneno para sua saúde. E são muitas as pessoas que têm alergia a leite. Por isso, o correto seria dizer: “Leite geralmente é bom para saúde”. Entendeu?


─ Não. Mas continue falando.


─ O próximo sofisma é chamado generalização apressada. Preste atenção: “Você não sabe falar grego, eu não sei falar grego. João não sabe falar grego. Então, devo concluir que ninguém no colégio sabe falar grego”.


─ É mesmo? ─ perguntou Vera, surpresa. ─ Ninguém?


─ Esse é outro sofisma. A generalização foi feita de maneira muito apressada. A conclusão se baseou em exemplos insuficientes.


─ Ei, você conhece outros sofismas? É mais engraçado do que dançar!


─ Bem, então escute o sofisma chamado ignorância de causa: “Alexandre viu um gato preto antes de escorregar. Logo, ele escorregou porque viu um gato preto”.


─ Eu conheço um caso assim ─ disse ela ─ Bernadete viu um gato preto e logo depois o namorado dela teve um acidente de...


─ Mas Vera, esse também é um sofisma. Gatos não dão azar. Alexandre não escorregou simplesmente porque viu um gato preto. Se você culpar o gato, será acusada de ignorância de causa.


─ Nunca mais farei isso, prometo. Você ficou zangado?


─ Não, não fiquei.


─ Então fale mais sobre os sofismas.


─ Certo. Vamos tentar as premissas contraditórias.


Sim, vamos.


─ “Se Deus é capaz de fazer qualquer coisa, pode criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga carregar?”


─ Claro! ─ ela respondeu prontamente.


─ Mas, se Ele pode fazer qualquer coisa, também pode levantar a pedra...


─ É mesmo! Bem, então acho que Ele não pode fazer a pedra.


─ Mas Ele pode fazer tudo!


Ela balançou a cabeça:


─ Eu estou toda confusa!


─ Claro que está. Sabe, quando uma das premissas de um argumento contradiz a outra, não pode haver argumento.


Pedro consultou o relógio e disse que era melhor parar por ali. Recomeçariam no dia seguinte.


─ Hoje nosso primeiro sofisma chama-se por misericórdia. Ouça: “Um homem se candidatou a um emprego. Quando o patrão perguntou sobre as suas qualificações, ele respondeu que tinha filhos, que a mulher era aleijada, as crianças não tinham o que comer, nenhuma roupa para vestir, nenhuma cama, nenhum cobertor e o inverno estava chegando”.


Uma lágrima rolou pelo rosto de Vera:


─ Oh, isso é horrível!


─ Sim, é horrível – concordou Pedro – mas não é argumento. O homem apelou para a misericórdia e a piedade do patrão. Usou o sofisma por misericórdia. Entendeu?


─ Você tem um lenço? ─ choramingou ela.


Agora vamos discutir falsa analogia. Por exemplo: “Deveria ser permitido aos estudantes consultar livros durante as provas. Afinal de contas, cirurgiões têm raios X para guiá-los durante as operações; engenheiros usam plantas quando vão construir casas.” Então, por que os estudantes não podem consultar livros?


─ Puxa, essa é a idéia mais genial que ouvi nos últimos anos!


─ Vera, o argumento está errado. Médicos e engenheiros não estão fazendo provas para saber quanto aprenderam, mas os estudantes estão. As situações são completamente diferentes, e por isso o argumento não tem valor.


─ Eu ainda acho que é uma boa idéia.


─ Quer conhecer um sofisma chamado hipótese contrária ao fato?


─ Isso soa delicioso!


─ Escute: “Se madame Curie não tivesse deixado uma chapa fotográfica numa gaveta com um pedaço de uramita, o mundo hoje não conheceria nada sobre o rádio.”


─ Claro! Você viu o que a televisão disse sobre isso? Foi incrível!


─ Se você esquecesse a televisão por um momento, eu mostraria que essa afirmação é um sofisma. Talvez madame Curie não tivesse feito sua descoberta. Talvez muita coisa pudesse ter acontecido. O certo, porém, é que não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e daí querer que ela sustente conclusões.

Pedro, já sem esperança de que Vera pudesse pensar logicamente, resolveu dar-lhe a última chance:


─ O próximo sofisma chama-se envenenando o poço – disse, com ar de frustrado.


─ Que engraçadinho!


─ “Dois homens estão prestes a iniciar um debate. O primeiro levanta-se e diz: ‘meu adversário é um grande mentiroso. Não se pode acreditar no que ele diz’...” Agora pense, pelo amor de Deus. Pense firmemente. O que está errado?


─ Não é justo. Quem vai acreditar no segundo homem se o primeiro o chama de mentiroso antes mesmo que ele comece a falar?


─ Certo – gritou Pedro,vibrando de alegria. – 100% certo! Não é justo. O primeiro homem “envenenou o poço” antes que alguém pudesse beber a água! Vera, estou orgulhoso de você!


─ Oh, obrigada!


─ Agora, vejamos o petição de princípio. Por exemplo: “O cigarro prejudica a saúde porque faz mal ao organismo”.


─ É claro que a afirmativa é infantil. É como se dissesse: “prejudica porque prejudica”. Não explica nada.


─ Vera, você é um gênio. Esse sofisma toma como verdade demonstrada justamente aquilo que está em discussão. Veja, minha querida, as coisas não são tão difíceis. Tudo o que você deve fazer é se concentrar, pensar, examinar, avaliar. Bem vamos rever tudo o que aprendemos.


─ Está bem.


Cinco dias depois, Vera sabia tudo sobre lógica. Pedro estava orgulhoso, pois ele, e só ele, ensinara-a a pensar corretamente. Agora sim, ela era digna de seu amor.


Assim, ele decidiu revelar seus sentimentos.


─ Vera, hoje não vamos mais conversar sobre sofismas.


─ Oh, que pena!


─ Minha querida, nós já passamos cinco dias juntos. Está claro que estamos bem entrosados.


─ “Generalização apressada” – ela disse.


Oh, desculpe!


─ Generalização apressada – repetiu ela. – Como você pode dizer que estamos bem entrosados baseado em apenas cinco encontros?


─ Minha querida – falou Pedro, acariciando-lhe as mãos. – Cinco encontros são suficientes. Afinal de contas, você não precisa comer todo o bolo para saber se ele é bom.


─ “Falsa analogia” – disparou ela. – Não sou bolo, sou uma moça.


Aí, Pedro resolveu mudar de tática.


─ Vera, eu te amo. Você é o mundo para mim. Por favor, meu amor, diga que vai me namorar firme. Porque, do contrário, minha vida não terá sentido. Eu definharei. Vou me recusar a comer.


─ “Por misericórdia” – ela acusou.


─ Bem, Vera – disse Pedro, forçando um sorriso –, você aprendeu mesmo os sofismas.


─ É, aprendi.


─ E quem os ensinou?


─ Você.


─ Está certo. Então, você me deve alguma coisa, não deve? Se eu não a procurasse, você nunca teria aprendido nada sobre sofismas.


─ “Hipótese contrária ao fato”.


─ Vera, você não deve tomar tudo ao pé da letra! Sabe que as coisas que aprendeu na escola não têm nada a ver com a vida.


─ “Generalização não-qualificada”.


Pedro perdeu a paciência.


─ Escute, você vai ou não vai ser minha namorada?


─ Não vou.


─ Por que não?


─ Porque esta manhã prometi a João que seria a namorada dele.


─ Aquele rato! – gritou Pedro, chutando as flores do jardim. – Você não pode namorar esse cara, Vera. É um mentiroso. Um chato. Um rato!


─ “Envenenando o poço” – disse Vera. – E pare de gritar. Acho que gritar também é um sofisma.


Com um tremendo esforço, Pedro baixou a voz, controlou-se e disse:


─ Está bem. Vamos analisar esse caso logicamente. Como você poderia escolher o João? Olhe pra mim: um aluno brilhante, um tremendo intelectual, bonito, um cara com o futuro garantido. Olhe para o João: um cara-de-pau, vazio, um vagabundo. Pode me dar uma razão lógica para ficar com ele?


─ Claro que posso. Ele tem uma moto – respondeu Vera, correndo para montar na garupa da motocicleta de João.


Pedro, com profunda tristeza, gritou com raiva para que Vera pudesse ouvir:


─ O amor é um sofisma porque amar é sofismar!


─ “Petição de principio” – berrou Vera, agarrada à cintura de João, na moto que arrancava velozmente.


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