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Religio

sábado, 30 de abril de 2016

O patrimônio dos deserdados



          Quando meu pai, em 21 de abril de 1986, completou sessenta anos, dei a ele o livro   “Assim morreu Tancredo”, com esta dedicatória:
“Papai. Faz um ano que morreu um homem que, por sua dedicação à pátria, tornou-se imortal. E hoje é aniversário de um homem que, por seu amor aos filhos, já é imortal. Feliz aniversário.”
           
O livro traz o depoimento de Antônio Britto, escolhido para Secretário de Imprensa e Divulgação do Governo, ao repórter Luís Cláudio Cunha, sobre a “dor e a agonia dos últimos 38 dias de vida do Presidente Tancredo Neves.”  Tocar aquelas folhas, com frases sublinhadas a grafite por meu pai, e uma folhinha do Sagrado Coração improvisada como marca página, leva-me a refletir sobre o legado de Tancredo Neves e a esperança da construção de uma Nova República, por tantos sonhada, inclusive por mim e por meu pai.
            
Nos anos anteriores à morte de Tancredo, tínhamos vivido a campanha das Diretas Já, com Teotônio Vilela a peregrinar pelo Brasil, espalhando a esperança e transformando sal em mel, como diz a canção.  Embalado por esse ideal, tive a honra de fazer o discurso de formatura em nome das turmas de Licenciatura de nossa Faculdade, em julho de 83. Em minha fala lembrei da realidade difícil de desemprego, desigualdade social e marginalização, e do desafio de atuarmos como professores numa sociedade em crise, sem perdermos a fé em nossos ideais.
            
Em abril do ano seguinte, em vez das Diretas, veio a frustração. Com a “Emenda Dante Oliveira” derrotada no Congresso, o jeito era deixar que o Colégio Eleitoral votasse por nós. Mesmo assim, como fruto da negociação política nos limites do que então se permitia, assistimos no ínicio de 85, à última eleição indireta de um Presidente da República que, naquele momento, representava a utopia possível e concreta. Na véspera da posse, porém, veio a notícia da doença. Depois, as seguidas cirurgias, a agonia, até a morte anunciada em 21 de abril. Era um domingo à noite, e após o Fantástico, o hino nacional, entoado por Fafá de Belém, fazia-se ouvir em todo o país, na mesma voz que embalara a peregrinação do Menestrel das Alagoas.
            
Aquele Presidente, que “fez e não viu a Nova República”, não chegou a nos governar, mas nos deixou um legado. Lembro que em janeiro de 1988, quando me foi dada, mais uma vez, a honra de falar em nome de nossa turma, desta feita na formatura de Direito, de novo me reportei à crise econômica, política, moral e institucional reinante à época. Mas como palavra de ânimo, invoquei o pensamento de Tancredo Neves, para quem “a esperança é o único patrimônio dos deserdados, e é a ela que recorrem as Nações, ao ressurgirem dos desastres históricos.”
            
Vivemos mais uma crise econômica e política, alimentada pela crise moral de alguns dirigentes da República. Um governo de coalização quebrou-se em duas bandas. Cada uma, sem a humildade e a sabedoria da autocrítica, acusa a outra de ser a banda podre, quando a corrupção estava entranhada no núcleo desse casamento político, desfeito com ares e xingamentos de um divórcio litigioso. Mãos que até ontem se afagavam, e juntas saqueavam nossas economias – afinal, corrupção não é crime que se pratique sozinho –, apedrejam-se sem medir as consequências dos seus atos para o futuro da nação.
            
Não deixemos que a crise se transforme num desastre histórico. Que ela seja tempo propício para aperfeiçoamento da República com que sonhamos. Para que desta crise possa nascer um futuro melhor para nosso povo, é preciso combater o discurso do ódio e a prática da intolerância, com os quais não se pode falar em “repactuação” ou “ponte para o futuro.” Que se respeitem as instituições democráticas, pois sem elas não há governo do povo. Que as conquistas sociais sejam não só mantidas, mas que a desigualdade social diminua, pois já se sabe que, nos últimos anos, para os pobres se tornarem menos pobres, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Só assim, a esperança, patrimônio dos deserdados, não será uma palavra vazia, mas a prática de uma utopia possível e concreta, a antecipação de um “dever ser” que pode se tornar realidade a cada dia, apesar da crise que o país vivencia.

sábado, 2 de abril de 2016

Sob o céu do Planalto


           
Comemorávamos o Ano Internacional da Criança. Entre as comemorações, a Liga da Defesa Nacional (LDN) realizou a Caravana de Integração Nacional. A Liga, que até então eu nem sabia que existia, tinha sido fundada em 1916 por Olavo Bilac. Seu estatuto listava, entre as finalidades, manter a ideia de coesão nacional, propagar a educação popular, difundir o amor à justiça e o culto ao patriotismo. E naquele ano, a LDN achou por bem premiar um “estudante símbolo” de cada cidade do Brasil, de preferência de escola pública e com maior média de aprovação final no ano anterior, com uma viagem de estudos a Brasília. O tal estudante símbolo acabou sendo eu, e a  viagem de estudos foi, na verdade, para prestigiar a posse do Presidente Figueiredo.
             
Quando soube da novidade, minha mãe ficou preocupada. Eu tinha quase dezesseis anos, mas nunca viajado para tão longe. No ônibus, conosco, iria o professor Balbino, que nos ensinava história na secção do Colégio Estadual. Conhecido por sua visão crítica, sua presença na caravana seria um contraponto a eventual ufanismo propagado no evento. Mas a preocupação de minha mãe, naquela hora, não era com patriotismo nem segurança nacional, e sim com a segurança do filho. Por isso, quando Balbino foi lá em casa, falar sobre a viagem, ela o submeteu quase a um interrogatório.
             
Saímos de João Pessoa na sexta depois do jantar e chegamos a Brasília na segunda à noite. Na quinta, dia da posse, ficamos na Esplanada, acenando bandeiras e vendo, de longe, o Presidente saudar os populares do parlatório. À tarde, num show com artistas da TV e cantores, o general Presidente falou da confiança depositada nos jovens de todo o Brasil, ali representados. A volta para casa, no dia seguinte, foi depois do almoço e das condecorações. Cada um recebeu uma medalha da LDN. Cheguei em casa no final da manhã da segunda. Trazia comigo muitas lembranças do que meus olhos tinham contemplado, especialmente do céu de Brasília, inspiração de músicos e poetas, que alguns defendem seja tombado como paisagem cultural brasileira. Era 19 de março de 1979, dia de São José e do aniversário de minha irmã.
            
Naquele ano, o assunto do momento era a abertura política. Na posse, o Presidente fez questão de enfatizar o propósito inabalável de fazer do país uma democracia. A gente  sabia, porém, que não se faz democracia por decreto, e que aquele tempo, como diz a canção de Chico, era uma página infeliz da nossa história. Nas sombras do poder  autoritário, a pátria mãe era subtraída em tenebrosas transações. Mas apesar de distraída, ela via a mobilização de seus filhos para iluminar o caminho de volta à normalidade democrática. A Lei da Anistia, que sempre me lembra Simone cantando “tô voltando”, foi aprovada já no primeiro ano do mandato do general Presidente.
            
De lá para cá outras luzes se acenderam. Temos hoje uma democracia que se constrói com negociações e conflitos, punhos cerrados e apertos de mão. Como reino imperfeitamente humano, dela não se pode esperar que seja um mundo apenas de claridades, pois a humana condição é feita de sombras e luzes. Mas nesse mundo imperfeito, as relações entre os filhos da pátria precisa de uma pauta mínima de convivência, com respeito às diferenças, com formas de resolver conflitos dentro da normalidade democrática. Nesta, se a lei não é o “pau que dá em Chico e em Francisco”, pois hoje nem no gato atiramos o pau, ela deve ser a soberana de um império em que não se admite ninguém acima dela.
            
Passados quase quarenta anos da caravana, e viradas algumas páginas infelizes de nossa história, ainda pairam nuvens carregadas nos céus do Planalto, que a todos nós envolve. Tenebrosas transações continuam a ser feitas, subtraindo nossa pátria mãe, talvez menos distraída. Como um dos seus filhos, penso  que não é bom para ninguém transformar os conflitos saudáveis de um ambiente democrático em ódio visceral por quem pensa diferente. Não é boa para ninguém a polarização maniqueísta e personalista que vivemos ultimamente. De um lado quem se comporta como devoto de um semideus, do outro, quem personifica a justiça numa espécie de vingador de toga. No reino imperfeito da democracia convivem as mais diversas formas de agir e de pensar, até de jararacas de distintas colorações, e de lobos em peles de cordeiro, de ideologias várias. Mas não deve ser um reino do vale-tudo, de fins justificando meios, do salve-se quem puder. Nela o importante é que a lei esteja acima de todos, não para esmagar a cabeça das jararacas, mas para tratá-las como merecem ser tratadas, tampouco para arrancar a pele dos lobos, mas retirar-lhes o disfarce de cordeiro. Que tenebrosas transações saiam das sombras para a luz, e nada se resolva com violência ou arbitrariedade. Isto sim, pode aperfeiçoar nossa democracia, que embora jamais chegue a ser de um azul sem manchas como o céu do Planalto Central, é a única que temos, e é dela que devemos cuidar.
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