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Religio

sábado, 20 de dezembro de 2014

O cálice de ouro



Meu pai contava uma história sobre um homem pobre, muito pobre mesmo. Já idoso, vivia com sua esposa numa casinha humilde. Os filhos, morando longe, quase não os visitavam. Mas aquele ancião, apesar da pobreza extrema, guardava com orgulho e cuidado, um objeto muito especial. Um cálice de ouro, lembrança palpável dos tempos que tinha sido rico. Se alguém batia à porta daquele casebre, o velhinho contava sua história e mostrava à pessoa aquele objeto quase sagrado. Por que, então, ele não vendia o cálice, que não servia para nada, e com o dinheiro da venda, comprava algo necessário? É que o cálice não era um simples objeto, mas um símbolo.

Na economia do valor simbólico, o essencial vai além do indispensável. Jean Baudrillard, tratando da sociedade de consumo, lembra que não existe grupo humano que não gaste além do necessário. É na fruição do supérfluo que as pessoas se sentem não só existir, mas viver. Nessa perspectiva, a ideia de utilidade, do racionalismo economicista, cede espaço para uma lógica social em que o supérfluo, longe de ser  resíduo irracional, tem função muito importante, e a aparente inutilidade ritual do “gasto por nada” é origem da produção de valores que não são os racionalmente econômicos, mas os da produção de sentido para a vida.

Para ilustrar sua tese, Baudrillard traz à cena a fala do Rei Lear de Shakespeare: “não discutam a necessidade. O mais pobre dos mendigos possui algo de supérfluo na mais miserável coisa. Reduzam a natureza às necessidades da natureza e o homem ficará reduzido ao animal: sua vida deixará de ter valor. Compreendes por acaso que necessitamos de um pequeno excesso para existir?”

Veja, por exemplo, o consumo no Natal. Gastamos com roupas, comidas e presentes, que vão além do que realmente precisamos comprar e consumir. Às vezes o exagero é tanto que fazemos como diz o mote do poeta e advogado campinense José Araújo: “comprou o que não precisa pra pagar com o que não tem.” Mas será que a festa teria graça se não fossem os pequenos excessos que não nos deixam reduzir à condição de animal, que não transcende às necessidades da natureza?

Temos carência de água para consumo e para gerar energia elétrica. As casas, as praças, os shoppings e as igrejas, porém, estão enfeitadas e iluminadas, consumindo muito mais do que o necessário. Mas o Natal sem luzes e enfeites teria o mesmo sentido? Até um bom presépio, invenção do pobre dos pobres, São Francisco, não custa pouco dinheiro numa loja de artigos religiosos.

O mal não está nesses pequenos excessos, nascidos da necessidade humana de valores simbólicos para sentir-se viver, e não só existir. O perfume caro derramado na unção em Betânia é um bom exemplo disso. Custava trezentos denários, o equivalente, segundo dizem, ao salário de trezentos dias de um operário. Mas derramá-lo na cabeça de Jesus não foi gesto de desperdício da mulher que rompeu o frasco de alabastro, mas símbolo do dom total do seu amor, em contraponto à hipócrita preocupação de Judas com os pobres, logo ele, que só pensava em dinheiro, e disfarçava a linguagem do interesse como se fosse caridade. O mal é quando o símbolo não mais simboliza, e deixa de ser essência para ser aparência, e um cálice de ouro transforma-se num bezerro de ouro idolatrado. 

Que as luzes e enfeites, presentes e presépios sejam símbolos verdadeiros do Natal verdadeiro. Que cada um tenha consciência de que o outro é seu irmão, e de que todos, especialmente os mais pobres, têm fome de pão e de amor não apenas no Natal, pois só o amor, este sim, é o que há de verdadeiramente essencial em nossa vida.

sábado, 29 de novembro de 2014

Ainda há juízes em Berlim



Frederico II, rei da Prússia, passou para a história como símbolo de déspota esclarecido. Amigo de Voltaire, com este compartilhava a ceia no castelo de verão em Postdam, nas cercanias de Berlim. O castelo, construído pelo monarca na encosta da colina, foi batizado com um nome curioso: sans-souci, termo francês que quer dizer sem-preocupação. Sans-souci também era o nome de um moinho da região, e de seu dono, imortalizados nos versos de François Andrieux, cujo título é Le meunier de  sans-souci, ou seja, o moleiro de sans-souci.

Começa o poema dizendo que o homem é um estranho problema, e indagando: quem de nós é fiel a si mesmo o tempo todo? Com base nesse mote, passa a narrar o episódio. O rei resolveu construir para si um refúgio agradável, onde mais do que beber e caçar, pudesse degustar não só finas iguarias, mas refinados saberes, na companhia de intelectuais como Voltaire.

Porém, quando quis ampliar o castelo, deparou-se com um problema na vizinhança, o dito moinho que impedia a sonhada ampliação. Seu dono, o moleiro Sans-souci, era um pacato vendedor de farinha que vivia cada um dos seus dias livre de ansiedade e preocupação, daí seu nome e o do moinho. Às investidas insistentes do rei para comprar-lhe o moinho, o moleiro disse não. Dinheiro algum o faria desfazer-se daquele pedaço de chão, onde seu pai morrera, berço e morada de seus filhos.

Inconformado, disse o rei ao moleiro: ─ Você bem sabe que, mesmo que não me venda a terra, eu, como rei, poderia tomá-la sem nada lhe pagar. Mas o moleiro retrucou com a célebre frase: O senhor! Tomar-me o moinho? Só se não houvesse juízes em Berlim.

Do episódio vem a frase: Ainda há juízes em Berlim, que podemos usar em tempos difíceis, para dizer: não vamos desistir, nem tudo está perdido, ainda existe justiça nesse mundo, ou seja, ainda há juízes em Berlim.

Vivemos momentos de crise, cujos desdobramentos poderão mostrar ao mundo que espécie de república nós somos e queremos ser. Mais que um escândalo bilionário, com cifras nunca vistas em nossa história, conspurcando o grande ícone da riqueza e orgulho nacionais, o episódio, dependendo dos rumos que tomar, pode gerar um devastador turbilhão econômico e institucional ou, por outro lado, extirpar da república grande parte da insidiosa rede de corrupção que destrói nossas riquezas e nossa moral.

Que não fiquemos no mero discurso protocolar ─ necessário e adequado, reconheço ─ de governante que a vem a público e diz: queremos investigação e punição aos culpados, doa a quem doer. É preciso muito mais que isso. Temos que mostrar com atos e atitudes que o Brasil não é o país da corrupção aceita sem indignação, a ponto de alguém dizer pública e cinicamente: nesta terra não se faz obra pública sem propina, ou achar que se alguém com uma mão dá o bolsa-família, está automaticamente liberado para, com a outra, receber ou dar o bolsa-corrupção. Os fins não justificam os meios. Numa república séria, não se blinda corrupção com assistencialismo, nem existe ninguém intocável.

Se queremos, de fato, a partir da implosão desse sinistro castelo da corrupção ─ afinal, foi dito que não ficará pedra sobre pedra ─, construir um nova estrutura republicana, respeitada e respeitável, teremos todos de provar, na prática, que não somos a terra da corrupção disseminada e tolerada, mas um país cujos filhos ainda podem acreditar na ética e na justiça, pois como nos diz a frase do moleiro, para a sorte de todos nós, ainda há juízes em Berlim.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

No perau profundo





Gosto da política, não nego. Mas dói na alma assistir a certos debates. Os candidatos, como os sapos de Manuel Bandeira, parecem sair da penumbra para a luz que os deslumbra, enfunando os papos:

            -- Teu passado foi sujo!
            -- Não foi! – Foi! – Não foi!
            -- Mas teu presente é pior!
            -- Não é! – É! – Não é!
            -- Tua irmã é corrupta!
            -- Mas teu irmão também é!
            -- Não é! – É! Não é!

Chego a me sentir como o sapo-cururu do poema. Sem glória, sem fé, a soluçar na beira do rio. E como quem já perdeu as ilusões, sou tentado a fazer versos como quem chora de desencanto, feito os de outro poema do mestre Bandeira.

Por outro lado, fico a pensar se devo me acabrunhar com esse jeito torto de se fazer política no planalto, na planície ou no perau profundo.

No meu matutar solitário, folheio o Documento de Aparecida. Nele, os bispos da América Latina assinalam como fator negativo, em grande parte do continente, o aumento da corrupção na sociedade e no Estado. Concluem que esse fato aumenta a desconfiança do povo, diminui a fé nas instituições, gera o desdém pela legalidade, fomenta o desencanto com a política. Também os preocupa o avanço de formas de regressão autoritária por via democrática, que engendram regimes de feição neopopulista.

Mas ao dirigir o olhar para a realidade política, o documento enxerga não apenas sombras e penumbras, mas vislumbra luzes e sinais de esperança. Por isso propõe a participação da sociedade para reorientação e reabilitação ética da política. Para tanto, aponta a importância dos espaços de participação da sociedade civil para a vigência da democracia, para uma economia solidária e um desenvolvimento integral e sustentável. E se o desenvolvimento é o novo nome da paz, como há muito dizia o Papa Paulo VI, não se pode esquecer, como também há muito nos ensina a Populorum Progressio, que o verdadeiro desenvolvimento é a passagem, para todos e cada um, das condições de vida menos humanas a condições de vida mais humanas.

Nessa linha de raciocínio, sou instado a crer que apesar das mentiras maquiadas por marqueteiros políticos – nenhum candidato é metade daquilo que se mostra na propaganda, nem poderá fazer metade daquilo que promete na campanha; não há, na política, salvadores da pátria, pai ou mãe dos pobres --, o eleitor tenha suficiente discernimento para fazer, entre as opções possíveis, sua escolha consciente e livre. Livre do medo, livre do patrulhamento ideológico, livre da manipulação.

Espero, ainda, que desarmados os palanques, seja quem for o eleito, a maioria da população passe a entender que para construir uma democracia não basta votar num candidato. É preciso ocupar os espaços de participação da sociedade civil, acompanhar a atuação dos representantes do povo, não achar que corrupção é algo normal, exigir punição de quem rouba o que é nosso, tirar o poder de quem não é digno de exercê-lo.

Quem sabe assim a gente possa reabilitar a ética na política, diminuir o desencanto com ela. Talvez com isso, no cenário da política, o povo deixe de ser o sapo-cururu a soluçar no perau profundo. Só assim, mais do que um sapo que vira príncipe, como ocorre no mundo dos encantos e desencantos, o povo será soberano do seu próprio destino.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Política, retórica e erística.



Propaganda política é um prato cheio para se degustar retórica: tantos argumentos e contra-argumentos para influenciar o eleitorado.  Mas também pode ser um perigo para se envenenar com falácias: promessas temperadas com golpes baixos, típicos da dialética erística, no sentido que lhe atribui Schopenhauer.

A retórica é imprescindível às relações humanas. Uma ideia enclausurada na cabeça não chega à mente do outro se não se exprime por palavras, proclamadas pela boca, que deveria falar daquilo que o coração está cheio. Todavia, por mais que uma pessoa tenha a cabeça cheia de boas ideias e o coração, de sinceridade, isso não lhe garante uma expressão clara do que pensa e sente, sendo a arte retórica necessária para se exprimir bem. Ou como diz Olivier Reboul, “ninguém convence as massas porque é sincero em política, nem é pregador ou missionário porque é crente sincero. É preciso aprender; e se alguns têm mais dom que outros, significa apenas que são mais dotados para aprender.”

O aprendizado prático da retórica pode estar nas diversas situações da vida. Desde o conselho de uma mãe, mostrando ao filho o bom caminho, à pregação de um sacerdote, exortando os fiéis à conversão. E tanto o “sermão” da mãe quanto o do padre, mesmo movidos pela mais reta intenção, não estão livres de argumentos patéticos, voltados mais para a emoção do que para a razão. A hipérbole da mãe, que diz: “meu filho, eu já repeti isso mil vezes”, ou o chavão do padre: “diga para a pessoa do lado: Jesus te ama!”, são expressões legítimas da retórica, mas que são patéticos, não há dúvida que são.

No guia eleitoral, o patético é largamente utilizado. Desde quem diz: “se for preciso, me chame que eu vou ao fundo do mar extrair petróleo”, a quem se vitimiza para sensibilizar o eleitorado. Até aí, não há nada demais.  Pitadas de hipocrisia ou demagogia são ingredientes do cardápio retórico de cada dia. O problema é quando se abusa da erística, artifício de discutir de modo a vencer, por meios lícitos ou ilícitos, arte de quem, segundo Schopenhauer, pode não estar com a verdade, mas insiste teimosamente em ter razão, valendo-se de golpes baixos e ataques rasteiros.

Um dos golpes baixos é a ampliação indevida. Exagerar a afirmação do adversário facilita o ataque. Ainda mais quando se coloca em sua boca palavras que ele não disse, ou quando se fica repetindo: “ele vai acabar com isso, vai acabar com aquilo”, num discurso do medo, como outrora faziam pregadores que, em vez de iluminar os fiéis com as luzes do Paraíso, preferiam atemorizá-los com o fogo do inferno.

O ataque rasteiro se dá quando se abandona o debate sobre propostas do candidato e parte-se para ataques pessoais, imputando-lhe, por exemplo, a pecha de corrupto, coisa que para alguns, parece não importar muito. Afinal,  a ideia do “rouba, mas faz” ainda não se dissipou por completo do nosso cenário político. Não fosse assim, não haveria fichas-sujas liderando pesquisas eleitorais.

Para o veneno das falácias e golpes baixos, o antídoto do eleitor é o senso crítico. Se cada um tem cabeça para pensar e coração para discernir, terá liberdade de uma escolha consciente. E quando o caso for de insulto pessoal infundado, um bom conselho nos dá Aristóteles: “não entrar em controvérsia com qualquer um que chegue, mas só com aqueles que conhecemos e dos quais sabemos que têm inteligência suficiente para não propor coisas absurdas que levem ao ridículo, e que têm suficiente talento para discutir à base de razões e não com bravatas, para escutar e admitir tais fundamentos, e que, enfim, apreciem a verdade, prestem com gosto o ouvido às razões, mesmo quando procedam da boca do adversário, e sejam o bastante equitativos para suportar que não se lhes dê razão, quando a verdade está do outro lado.” Ou como diz Schopenhauer, “entre cem pessoas, há apenas uma com a qual vale a pena discutir. Aos demais, deixemos que digam o que querem, porque ser idiota é um dos direitos do homem.”
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