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Religio

sábado, 26 de outubro de 2013

Ensinar e aprender felicidade




Gosto de textos que me levem a refletir. Reflexão é espírito curvando-se sobre si mesmo, pensamento sobre pensamento, mergulho nas profundezas do ser, fazendo de cada um de nós um espelho a refletir luz para outros espelhos.

Nestes dias, após receber felicitações pelo dia do professor, eu, que exerço o magistério não só por herança familiar, mas também por vocação, e sinto-me feliz quando estou em sala de aula, parei para refletir sobre um desses textos, o capítulo inicial do livro de Rubem Alves, “A alegria de ensinar”.

O autor começa falando sobre o sofrimento dos professores. Compara-o à dor do parto: “a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho,” e quase como um acalanto para esse sofrimento, o texto cita um poema de Rückert, extraído de um livro de Hermann Hesse:

        Nossos dias são preciosos
        mas com alegria os vemos passando
        se no seu lugar encontramos
        uma coisa mais preciosa crescendo:
        uma planta rara e exótica,
        deleite de um coração jardineiro,
        uma criança que estamos ensinando,
        um livrinho que estamos escrevendo.

Pode um professor cultivar a alegria de um coração jardineiro, vendo seus dias preciosos passando, sem a justa recompensa pelo trabalho prestado? E se ao aluno que ele estiver ensinando não forem dadas condições para uma educação que lhe faça crescer? Família estruturada que seja a primeira escola de amor, valores e exemplos; escola atraente e acolhedora, que não o faça “carregar o peso de um conhecimento morto que ele não consegue integrar com a vida”; sociedade que ajude para que alunos e professores não se tornem reféns do medo e da violência; poder público que não se valha do cassetete para calar a voz de professores... Olhando por esse prisma, os versos do poeta parecem surreais. Mas como tudo na vida tem mais de um lado, é bom meditar sobre a lição mais cheia de esperança, de Rubem Alves.

Na polifonia do seu texto, aquele autor vai buscar no prólogo de Zaratustra, de Nietzsche, a inspiração para mais uma palavra de sabedoria. Observa que a trajetória do sábio começa com uma meditação sobre a felicidade, nascida na solidão: “uma taça que se deixa encher com a alegria que transborda do sol.” Todavia, chegado o tempo em que a taça se enche, ela não consegue conter tudo o que recebe e anseia transbordar, tal qual a abelha que não pode guardar só para si o mel que produz, tal qual o seio intumescido da mãe, suplicando que a boca do filho o esvazie.

Compreendendo que “felicidade solitária é dolorosa”, o sábio busca uma alegria  maior, compartilhar com os outros a felicidade que nele habita, e vai em busca de mãos estendidas com quem possa partir e repartir sua riqueza interior. Nesse momento, opera-se a transformação: “Zaratustra, o sábio, transforma-se em mestre. Pois ser mestre é isto: ensinar a felicidade.”

Essa é uma das lições sobre a qual sempre reflito, que procuro aprender e ensinar em minha vida como professor. Não se trata de encobrir as mazelas de um sistema político e socioeconômico no qual o professor ainda não tem o respeito e o lugar que merece, com um discurso banhado nas águas da pieguice, quando não na torrente da demagogia. Mas quem é professor sabe que as disciplinas que ensinamos não deixam de ser formas diversas de compartilhar sabedoria, e esta só é verdadeira sabedoria quando voltada para a construção de um mundo melhor. Isso não é ensinar e aprender felicidade?

DIANTE DO ESPELHO




DIANTE DO ESPELHO, OLHAR PROFUNDO.
LENTAMENTE REVIVENDO TUDO QUE FIZ.
PROCESSO VOLUMOSO NO TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA...
VÁRIAS PRELIMINARES SUSCITADAS NESTE MUNDO.
QUE NÃO FORAM RECONHECIDAS, PELA ÂNSIA DE SER FELIZ,
E OUTRAS TANTAS PELA MINHA INCOMPETÊNCIA...

RECURSOS E MAIS RECURSOS DESPROVIDOS.
AGRAVOS DE PETIÇÕES E SEGURANÇAS,
COMO SEMPRE NA VIDA FORA DOS PRAZOS...
EMBORA TODOS TENHAM SIDO RECEBIDOS.
NUMA SUCESSÃO DE MORTAS ESPERANÇAS
NOS ACÓRDÃOS DOS EMBARGOS EXARADOS...

A JUSTIÇA PÁRA, MAS A CONSCIÊNCIA ESPERA,
NÃO ADIANTA RECURSOS PROCRASTINATÓRIOS
SE O TEMPO PARA ELA NÃO SE CONTA...
SEU REGIMENTO INTERNO NÃO SE ALTERA.
DETERMINANDO SEMPRE UM PRECATÓRIO
QUE NO FUTURO ÀS VEZES DESAPONTA...

ETERNAMENTE RÉU DE UMA RAZÃO.
NA MINHA INFINITA PROPORCIONALIDADE.
LUTANDO NESTA VIDA PELO MUNDO...
DE ALGUMA MANEIRA, NÃO VIVI EM VÃO.
É EXTREMAMENTE DIFÍCIL NOS VÊ EM REALIDADE,
DIANTE DE UM ESPELHO COM UM OLHAR PROFUNDO...

QUE DEUS ABENÇOE, POR QUEM VIVO!!!

                                  André Travassos,15/06/2009.
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