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[Guarabira] -

Religio

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Saúde, amor e perseverança.





A vida do brasileiro comum, este ano, não está sendo fácil. Não bastasse o aumento da gasolina e do gás de cozinha, das contas de água e de luz –  ardilosamente contidos com a sujeira da enganação eleitoreira perpetrada no ano velho –,  chegamos ao fim de 2015 atingidos pelo rompimento das represas de rejeitos não só da mineração, mas da corrupção orgânica, do cinismo político, da paralisia econômica, da perplexidade com os rumos a que nos podem levar os que deveriam ser timoneiros da República. Sinceramente, tem hora que bate a tentação do desânimo e da apatia, diante do  cenário tenebroso que parece se esboçar no horizonte. E para não cair nessa tentação, ponho-me a refletir sobre o valor da perseverança na vida da gente.
                       
Perseverar é persistir, manter-se firme, é ser constante. Não é, porém, teimosia de continuar cometendo velhos erros, nem sinônimo de resiliência, se esta é vista como aguentar calado, quando alguém puxa para um lado e outro estica para o outro a nossa dignidade, afinal,  o ser humano não é chiclete. Diferente disso, perserverar é não perder a esperança em face de obstáculos, provações e tentações do mundo.
                        
Enquanto as provações vêm de fora, as tentações fluem e refluem no interior de cada um, apelam para nosso lado obscuro. É tentação crer que nosso bem-estar se baseia em nós mesmos, na preocupação exclusiva com o próprio interesse, servir-se dos outros e não servir aos outros. Também são tentações a possessividade e o consumismo exacerbados, tanto quanto pensar que a vida se resume a acumular seguidores em redes sociais, empavonar-se com toda sorte de ostentação, inclusive religiosa. Os laços que unem o ser humano a Deus não combinam com as correntes do egoísmo, da busca de prestígio e poder, da fé como exibicionismo, como nos ensinam as tentações de Jesus.
                        
Diferente das nossas, as tentações do Salvador não podiam vir de dentro, pois sendo Ele igual a nós em tudo, menos no pecado, em seu coração não tinha espaço para outra coisa a não ser amor. Mesmo assim, o tentador queria afastá-lo do seu caminho de Messias sofredor. Ao propor que transformasse pedra em pão, apelava para o apego ao imediatismo da mera segurança material. Mas ao responder que não só de pão vive o homem, o Mestre ensina que acima da economia do mundo está a Economia da Salvação. Lançar-se de cima do pináculo do templo para colocar à prova a ação de Deus e de seus anjos era apelar para o sensacionalismo. Mas o amor do Pai não necessita de pirotecnia, nem seus métodos se manifestam com a lógica humana.  Por fim, quando rejeitou servir ao pai da mentira para dominar o mundo, Jesus deixou claro que seu objetivo não é o poder terreno a que tantos se agarram com unhas e dentes e, por receio de se rebaixarem, dele não querem renunciar.
                        
Na perspectiva cristã, porém, renunciar aos poderes do mundo não é rebaixar-se, tampouco alienar-se. É coisa bem diferente. Se “o máximo prazer, o máximo êxito, o máximo domínio sobre os outros tornou-se o ideal de vida, e isto é algo contrário a Deus,”  para o ser humano encher-se do amor divino, tem que esvaziar-se da “atitude mental que considera este mundo como sistema fechado de onde se exclui o Criador; atitude que destrói as próprias coisas que se amam.” 
                        
Para não destruirmos o que amamos, é preciso, pois, renunciar e perserverar. E pedir ao Deus Menino, que reacenda em nós, neste Natal, a chama da esperança em um mundo melhor para nós e nossos filhos, venha o que vier no ano novo que se aproxima, na certeza de que governos e desgovernos passarão. Pois tudo passa, menos o amor eterno de Deus.
                        
Feliz Natal. E que venha 2016, com saúde, amor e perseverança.

sábado, 28 de novembro de 2015

Ouvindo estrelas





             
Se alguém importante morria, passavam música clássica na rádio. Por isso, quando a empregada de um amigo o encontrava em casa ouvindo Beethoven, perguntava-lhe se alguém tinha morrido. Hoje não há mais esse costume por aqui. Porém, no dia dos mortos, uma emissora toca somente músicas de cantores falecidos, o que é uma bênção. A playlist dos finados é bem melhor que a dos vivos dos outros dias, com tanta música ruim, que não há cristão que aguente.
            
O sucesso dos que já se foram enchem não só os ouvidos de prazer, mas de dinheiro os cofres de alguns. Michel Jackson lidera com folga a lista dos dez famosos mortos que mais arrecadam, da qual fazem parte Elvis Presley, Bob Marley e John Lennon. Segundo a Forbes, só no último ano os rendimentos do criador de Billie Jean  ultrapassaram a cifra dos cem milhões de dólares. E se nenhum centavo dessa fortuna pode chegar aos bolsos desses astros, suponho que, mesmo sem cachê, eles continuam abrilhantando a festa do lado de lá. Se na casa do Pai há muitas moradas, também há de haver muitas playlists, não só de canto gregoriano e música clássica, mas de boas e imortais canções de todos os gêneros.
            
Ninguém sabe exatamente como é a festa no céu.  Leonardo Boff, no documentário Eu Maior, imagina o céu ideal como a humanidade inteira ao redor de uma mesa, um servindo ao outro, e Cristo passando, dando atenção especial aos pobres e humildes. Porém, mesmo sem ter certeza de como ela será, quem, em sã consciência, não fará o possível para entrar nessa festa? Quem não lembra do sapo da fábula, que se enfiou na viola do urubu para entrar no baile celeste? A admiração foi geral, principalmente dos outros bichos da terra incapazes de voo. No caso do animal humano, se a natureza não lhe deu asas, como não deu ao sapo, a sede de infinito plantada em seu coração faz dele um ser alado, capaz de alcançar o paraíso sem precisar de carona na viola de ninguém.
             
Sou daqueles que anseiam um dia participar dessa festa, embora sem pressa desse dia chegar.  E a fé que herdei de meus pais me faz crer que eles habitam uma das muitas moradas por Deus preparadas, ao lado de outros entes amados que já partiram para o além. Quando minha mãe morreu, entre as palavras de consolo que nunca esqueci, ouvi de uma pessoa de muita fé, que quando morre alguém de nossa família, é uma parte do nosso sangue que entra no céu. Mas se isso me conforta o coração, não arranca do meu pensar curioso algumas especulações. Minha mãe, para quem o paraíso na terra era cuidar da família, como estará ela vivendo o paraíso do céu? Ao meu pai, de alma arrebatada pela música e pela história, terá sido dada oportunidade de conhecer de perto grandes vultos da humanidade que tanto admirava? E como será o corpo celestial, dado por Deus a meu filhinho, ferido de morte ainda no ventre da mãe, quando estava prestes a nascer?
            
Sem respostas para essas indagações, às vezes me ponho a olhar as estrelas, pensando não na fábula do sapo, mas na conversa de Mustafa com o filho, Simba, do filme o Rei Leão:
            
 Simba, tudo que você vê faz parte de um delicado equilíbrio. Como rei, você deve entender esse equilíbrio e respeitar todos os animais, desde a formiguinha até os antílopes.
            
   Mas não comemos antílopes?
            
 – Sim, Simba. Mas deixe-me explicar. Quando você morre seu corpo se torna grama que o antílope come. E assim, estamos todos ligados no ciclo da vida. E “deixe-me contar-lhe uma coisa que meu pai me contou. Olhe as estrelas. Os grandes reis do passado olham pra nós lá das estrelas. E sempre que se sentir sozinho, procure lembrar que aqueles reis sempre estarão lá para guiá-lo. E eu também estarei.”
            
Não só os reis, mas as pessoas amadas que nos deixam bons exemplos são como estrelas no céu a nos guiar. E como a pessoa que ama, como aprendi com Bilac, é capaz de ouvir e entender estrelas, penso não ser loucura dar ouvido a elas, da mesma forma que é uma bênção ouvir o canto de muitos mortos.

P.S.: Muitas das questões que trago agora faziam parte de nossas discussões quando fiz Teologia. E costumava conversar sobre elas com uma amiga e colega, a quem aprendi a querer bem.  A ela dedico este texto. D. Detinha Diogo, que também se fez estrela, no alto do céu a nos guiar.

sábado, 24 de outubro de 2015

Ódio, não. Justa indignação.



         

Mesmo na primavera, por aqui já sentimos o calor da estação mais quente do ano. Para esta época, cai bem o conselho irreverente de Tom Zé: “Não tenha ódio no verão: você vai acabar comendo brasa no tição... Isso arrebenta uma nação!” Arrebenta não só uma nação, mas o coração de quem odeia. E ainda que o Eclesiastes inclua o tempo de odiar entre os momentos oportunos para cada coisa debaixo do céu, ódio não é bom em qualquer estação, diferente da ira, paixão igualmente quente e quase sempre nociva, mas que pode ser boa quando é sinônimo de justa indignação.
            
Além de deixar o rosto vermelho e a venta bufando, a ira aumenta a pressão arterial, causa problemas respiratórios e outros transtornos no corpo e na mente. Por isso, num acesso de fúria, para não fazer besteira, conte não só até dez, mas até quando for preciso, e se preciso for, “cheire a flor, apague a vela”. Como também adverte o Eclesiastes, não se irrite à toa, já que a irritação mora no peito dos insensatos. Paciência, nesse caso, é sempre o melhor remédio. Quem é paciente, diz o livro dos Provérbios, age com prudência, enquanto o impaciente aumenta a própria insensatez.
            
São Tomás de Aquino, com base em Aristóteles, chega a catalogar três tipos ruins de ira. A aguda, de quem se irrita de uma hora pra outra, sem quê nem pra quê. A amarga, da pessoa que, em vez de tirá-la logo da mente, trancafia a ira no coração, e ela acaba entranhada nas vísceras. Por fim, a difícil ou vingativa, de alguém que só sossega quando dá o troco ao desafeto.
            
Mas também existe a ira boa, quando ela reflete a ira de Deus. Esta, segundo a Sagrada Escritura, é sempre justificada, pois se harmoniza com o amor, a sabedoria e a justiça. Em sua pedagogia, Deus não é indiferente aos nossos atos e atitudes. Não fosse assim, não teria se revelado aos seres humanos, nem lhes prescrito mandamentos. Todavia, como diz o livro de Jó, Ele é grande demais para que o possamos conhecer plenamente. E, se por um lado, o Senhor das quatro estações derrama a chuva sobre a multidão humana e com ela alimenta justos e injustos, por outro, seu trovão ferve de ira contra a iniquidade. Mas diferente de nossas iras ruins, a ira santa não nasce de egoísmos, nem de caprichos de verão.
            
No sermão da montanha, quando ensina que a nova justiça supera a antiga, Jesus Cristo também se refere à ira. Diz que está sujeito a julgamento não apenas quem comete homicídio, mas quem trata o próximo com raiva, quem chama o irmão de imbecil ou de louco. Todavia,  o  Evangelho de Marcos fala do olhar irado de Jesus àqueles que o censuravam quando Ele curou um homem no sábado, e o de João mostra o Filho de Deus, de chicote na mão a derrubar mesas, para expulsar vendilhões do templo. Nos dois casos não há que se falar em acesso de cólera, mas de justa indignação contra a dureza do coração de quem colocava o sábado acima do ser humano, e de zelo pela casa do Pai.
            
A diferença entre ódio e justa indignação me traz à mente discussões travadas em redes sociais. De um lado, os que fazem comentários fortes contra a corrupção dos inquilinos do poder e seus apaniguados. Do outro, a defesa destes, com unhas e dentes. E uns acusando os outros, reciprocamente, de destilarem o veneno do ódio pelo mundo virtual.
            
Denunciar com veemência a corrupção, como princípio ético universalizável, e não como indignação seletiva, é combater o bom combate. Nesse caso, o mal é ficar calado ou indiferente. Como dizia São João Crisóstomo, quem não se indigna quando tem motivo para fazê-lo, peca.  A falta de indignação ante o mal “semeia vícios, alimenta a negligência e facilita que não só os maus, como também os bons, pratiquem o mal.”
            
A justa indignação é diferente do discurso do ódio, embebido no fel da intolerância, na miopia ideológica ou na mesquinhez de interesses pessoais, discurso gerador de discriminação, ódio que faz você comer brasa no tição e que arrebenta uma nação. Ela deseja destruir o mal e não a pessoa que o pratica. Santo Agostinho já dizia que devemos detestar o erro, mas amar o que erra. E ainda que a razão esteja comigo e me seja lícito pedir a justa punição de quem errou, ao meu coração não posso dar o direito ao ódio, que me levará ao abismo infernal do desamor. Como lembra o Padre Francisco Faus, ninguém vai para o céu por ter tido razão. Mas irá por ter amado, corrigido o outro do modo certo, ajudado quem errou a se salvar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

José e as vacas magras.


No conhecido sonho relatado no Gênesis, o faraó se vê às margens do Nilo. Do rio saem sete vacas bonitas e bem cevadas, que vão pastar nos juncos. Depois surgem outras sete, feias e magras, que se põem ao lado das primeiras. De repente, as vacas magras devoram as gordas. Perturbado, o rei convoca os magos e sábios para tentar decifrar o sonho, mas nenhum deles consegue desvendá-lo. Então o copeiro-mor fala ao soberano de um jovem hebreu, que estava na prisão, e que tinha interpretado um sonho do copeiro. O jovem era José, nome que quer dizer “Deus multiplica.”
           
O faraó manda chamar José, e pede que este revele o significado daquelas vacas gordas e magras, por ter ouvido falar da fama do jovem hebreu como intérprete de sonhos. José, porém, diz com humildade e sabedoria: “Quem sou eu! É Deus quem dará ao Faraó uma resposta favorável.” E explica que as sete vacas gordas representam sete anos de abundância que haverá no Egito,  seguidos de sete anos de escassez e fome.
           
José também aconselha ao faraó que procure um homem sábio e prudente, e o ponha à frente da administração do Egito, a fim de que o país possa se preparar para enfrentar a crise pressagiada. Seria preciso armazenar víveres nos anos de abundância, que servissem de reserva para o país nos anos das vacas magras.
           
O faraó, então, escolhe José, que se torna o símbolo do grande administrador da maior potência da época, com foco, disciplina e organização, virtudes que hoje se exaltam nos manuais para os bons gestores. Mas acima de tudo, não lhe faltavam ética, compromisso com a verdade, e fé no Deus que multiplica.
           
Nestes dias, em que vivemos o agravamento de uma crise, que nem precisava de um sonho com sete anos de antecedência para sabermos que ia acontecer, tenho pensado na trajetória de José do Egito, no quanto não aprendemos com ele, ruminando em meu pensar sobre a simbologia das vacas.
           
Ano passado, por esta época, dava para perceber que nenhum rebanho de vacas, por mais bem cevadas que fossem, suportaria os desmandos de ocupantes do palácio e dos amigos do rei, que em campanha eleitoral, de tudo faziam para permanecer no poder. Prometiam mundos e fundos, e um deles disse até que, se preciso fosse, iria ao fundo do mar, tirar do pré-sal o negro óleo para besuntar os tempos de vacas gordas. E ai de quem contrariasse o que diziam. Se alguém porventura falasse em contenção de despesas, era demonizado. Ajuste fiscal para retirar direitos de trabalhadores, isso nunca! Como foi dito na época: nem que a vaca tussa!
           
Perpetrado o estelionato eleitoral, a conversa agora é outra. A festa acabou, o povo sumiu, conta de luz aumentou, a vaca tossiu. Fala-se numa ponte fiscal provisória, que ninguém sabe para onde nos levará.
           
E agora, José? Como fazer bem a travessia dos anos de vacas magras, se não aprendemos a sua lição, de fazer nossas reservas não só de riquezas materiais, mas de tesouros como sensatez, decência e honestidade na administração da coisa pública?
        
Penso que não há sábio no mundo que tenha a chave para abrir as portas da rápida superação da crise, muito menos um adivinho tão poderoso que antecipe quais serão seus desdobramentos. Mas creio, como José, que Deus nos dará uma resposta favorável. Esta, porém, depende do trabalho de cada um de nós. E qualquer que seja a resposta, penso que tem de passar pelos caminhos da ética, do combate à corrupção, da luta pelos direitos e da partilha mais justa dos bens materiais e imateriais, sem esperarmos por pretensos salvadores da pátria.
           
O povo brasileiro é muito mais importante que qualquer governo ou governante. Já fizemos outras travessias de anos de vacas magras. Que esta seja apenas mais uma, a ser enfrentada com  força e altivez. E que não esqueçamos as lições de José, para que os tempos a serem vividos por nossos filhos, e pelos filhos dos nossos filhos, não sejam de vacas magras em bens para uma vida digna de todos, nem feias em desvalores éticos, como os que infectam os atos e atitudes de muitos daqueles que nós ainda permitimos que nos governem.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Perder para ganhar



Muitas palavras do Evangelho – digo eu, pafraseando Kant – me enchem o coração não só de admiração e respeito, mas de inquietação, quanto mais meu pensamento nelas se detém. É o que acontece quando paro para refletir sobre a seguinte  advertência de Jesus: Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz  e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, vai salvá-la.

Renúncia, nesse caso, não é anulação de si mesmo, mas buscar vencer o egoísmo; é não se achar senhor absoluto da própria vida, mas abrir-se ao verdadeiro autoconhecimento e à felicidade que só Deus pode nos dar. Por sua vez, tomar a cruz e doar a vida pelos outros implica um amor e uma ética exigentes, na consciência de que “uma vida que se esgota em conservá-la não tem sentido”. Pois quando o assunto é salvação e sentido da vida – coisas que se imbricam – é preciso perder para ganhar.

Perder a vida para salvá-la não é só derramar o próprio sangue num martírio. A mãe que doa o melhor de seus dias a seus filhos, o educador que passa a vida formando pessoas, o médico fiel aos preceitos de honestidade, caridade e  ciência, proclamados em  seu juramento, entre outros, são exemplos de como se perde a vida para salvá-la. Para dar sentido à vida, é preciso ser como uma vela, que se consome para levar luz ao mundo.

Falar em renúncia de si mesmo, porém, para muitos parece coisa de outro mundo, como observa Gilles Lipovetsky, quando fala da sociedade pós-moralista. Vivemos uma época em que a retórica do sacrifício não é levada a sério, em que se incensam os direitos individuais no altar do bem-estar pessoal, enquanto dever e responsabilidade são exorcizados como se fossem demônios. Nesse contexto, o sacrifício pessoal perde a razão de ser e, no dizer daquele autor, “as lições de moral são encobertas pelo fulgor de uma vida melhor, do irradiante sol das férias de verão, do banal passatempo das mídias.”

É possível enxergar traços dessa sociedade em pequenos exemplos do dia a dia, como a falta de responsabilidade de certos alunos. Mesmo chamados a ir para a escola no passinho e pelo funk da TV, alguns vão para a sala de aula somente para não perder algum benefício social, mas não dão a mínima para o estudo, muito menos para o professor, que tem de aprová-los sem qualquer cobrança, num faz de conta pedagógigo de uma pátria demagogicamente educadora. E esse tipo de comportamento não é exclusivo de alunos pobres. Em muitos colégios pagos reina o descompromisso de alguns, que nem merecem ser chamados estudantes. Mas em casa os pais nada exigem dos filhos, e se alguém ousa chamá-los a atenção, tentando lhe passar algum ensinamento moral, é tachado de chato, de errado, numa absurda inversão de valores.

A falta de seriedade no cumprimento dos deveres também se dá no exercício profissional,  bem como no trato da coisa pública pelas autoridades, a quem caberia dar o bom exemplo. E até na vivência religiosa se percebe a disseminação de contravalores de quem prefere criar uma religião para próprio consumo e satisfação. Para que se falar em renúncia a si mesmo, quando é mais cômodo substituir a ética e o amor exigentes pela religião do espetáculo? Para que pregar o sacrifício da cruz se é mais fácil viver uma prática religiosa de bem-estar individual e exibicionismo festivo no “banal passatempo das mídias sociais”?

Diante de tudo isso, ponho-me inquieto quando me reflito no espelho do Evangelho da renúncia e da cruz. E peço a Deus que nos ajude a abrir os olhos e o coração, para salvar nossas vidas da exaltação do ego e das vaidades, para nos livrar do reino da ética edulcorada e indolor da sociedade pós-moralista.

                                                          

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