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Religio

domingo, 29 de maio de 2011

Razões para acreditar?: sobre coca-cola, pecado e graça.


Confesso que minhas relações corporais e espirituais com a coca-cola sempre foram marcadas por certa desconfiança, principalmente quanto às supostas mensagens subliminares de suas propagandas. Na adolescência, a água espiritual que eu bebia jorrava das fontes da Teologia da Libertação. Engajados na Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP), nós entoávamos uma música para exorcizar o demônio das multinacionais do nosso país, cujo refrão dizia mais ou menos assim: “Vai embora, coca! Vai embora, coca! Leva tua fanta, deixa de nos explorar...” Santa ingenuidade! Mandar a coca embora para onde? Nem ela se foi, nem o refrão foi exorcizado da minha memória.

Depois descobri que a coca-cola havia reinventado um símbolo do Natal: o Santa Claus, papai Noel de primeiro mundo, saído da prancheta do desenhista Habdon Sundblom, por encomenda da poderosa multinacional. Como era de se esperar ─ talvez sob influência do ranço daquele refrão entranhado na memória ─ minha reação foi contrapor àquela imagem do bom velhinho, catalisador do consumismo natalino, a do Menino-Deus na manjedoura, belissimamente pintado no Evangelho de Lucas ─ a santa ingenuidade, de novo, teria me feito perder o senso de realidade?

Agora a coca-cola vem com a campanha: “Razões para acreditar. Os bons são maioria.” Incitando-nos à visão positiva da vida, a propaganda lembra que há mais pessoas cantando do que brigando no trânsito, que enquanto uma pessoa diz que tudo vai de mal a pior, cem casais sonham em ter filhos; que para cada corrupto, que provoca subtração da vida, há milhares de doadores de sangue, doando vida, e enquanto a natureza geme em dores do parto, quase cem por cento das latas de alumínio são recicladas no Brasil. Terá a coca-cola reinventado a sustentabilidade e o otimismo no mundo atual? Sei não. Meu eu-desconfiado, mesmo favorável à disseminação de uma visão positiva da vida, prefere pensar na luta entre o bem e o mal, entre otimismo e pessimismo, na perspectiva do pecado e da graça.

Na relação entre pecado e graça, o enfoque predominante deve ser sempre o desta última. Antes do pecado original vem a bênção original. Acima das situações ligadas ao mal paira o fim último do bem, ou do Sumo Bem, a que todos e tudo nos destinamos. Antes e acima do pecado, devemos levar em consideração a graça: “onde avultou o pecado, a graça suberabundou” (Rm 5, 20). Pois, se por um lado, Adão fez manifestar no mundo situações e realidades que causam o afastamento entre o ser humano e Deus, por outro, pelo amor e morte redentores de Jesus Cristo, a salvação se dá a todos que a aceitam, como dom gratuito do Pai.

Nessa relação, temos, de um lado, o pecado como tudo aquilo que separa o ser humano de Deus, fonte de toda a vida. Assim, o pecado surge como uma realidade que afeta a vida na Terra, acarretando todo tipo de morte. Esse afastamento irrompe porque o ser humano, dotado de consciência e liberdade, não é mero fantoche nas mãos de um demiurgo. Por isso, assim como é capaz de amor, também é capaz do pecado. E quando, livremente, procura ser critério para si mesmo, provoca uma ruptura consigo mesmo, com Deus e com os irmãos.

No Gênesis, temos os grandes paradigmas das histórias de pecados da humanidade: a soberba de Adão, de querer ser Deus de si mesmo; o pecado familiar de Caim e Abel; o pecado cósmico que desencadeou o dilúvio, que pode, nos dias de hoje, ser relacionado aos males que causamos ao meio ambiente; ou ainda o pecado político, da torre de Babel, que expressa a situação da cidade, construída não para o convívio fraterno, mas para exclusão, dominação e discórdia.

Todas essas situações, e outras mais que pudessem ser enumeradas, como são desvios intencionais ao projeto de Deus, são causa de dor e sofrimento. Todavia, em toda a história permeada pelo pecado, Deus sempre intervém, não para tirar a liberdade de ninguém, mas para ajudar o ser humano na luta contra o mal. Em outras palavras, toda a história da salvação é marcada pelo pecado, porém muito mais pela graça. Esta não contradiz nem elimina a liberdade humana. Graça e liberdade não são excludentes, mas se integram, pois ambas provém de Deus, e Deus não se contradiz.

É bom lembrar, ainda, que o mal moral, fruto da liberdade humana, não deve ser imputado, de maneira maniqueísta, a um deus do mal. Um diabo de chifres, que nos deixa possessos a ponto de nos retirar totalmente a liberdade é uma visão ingênua. Pois se até o Onipotente respeita o nosso livre-arbítrio, por que atribuir o quinhão de nossa responsabilidade sobre o mal a possessões demoníacas?

Nesse caso, também seria ingenuidade enxergar a coca-cola como um demônio hipermoderno a ser exorcizado, e seria preconceito dizer que não há qualquer razão para acreditar nas boas intenções de uma campanha que pretende espalhar o otimismo mundo afora. Isso não significa, porém, abrir mão do senso crítico, sem o qual é mais fácil sermos manipulados por qualquer entidade hipermoderna que pretenda ser tão onipotente quanto o Onipotente. Se nem nas mãos do Onipotente somos fantoches, por que razão deveríamos ser marionetes manipulados pelos cordéis do deus-mercado?

sábado, 21 de maio de 2011

Trabalho de Sísifo ou emprego no céu?



Ao professor João Maurício Adeotado.

Meu pai, sempre muito espirituoso, costumava dizer que um trabalho sem fim era como um emprego no céu. Certo dia, dizia ele, um homem morreu e resolveu procurar São Pedro, pedindo-lhe um posto de trabalho, no que foi prontamente atendido. Pensava, talvez, que teria a mesma moleza do trabalho aqui na terra. Ledo engano. De manhãzinha, todo mundo tinha de botar o sol para fora de sua morada celestial, além de fazê-lo girar durante o dia, numa das várias esferas ptolomaicas. Na boca da noite, tinham de colocar o sol alcova adentro. Mas quando o coitado do homem pensava que ia descansar, chegava a hora de colocar a lua e as estrelas para fora, cada qual nas suas esferas, para realizarem seu brilho e seu giro ao redor do mundo, até que tudo começasse de novo no romper da aurora.

Emprego no céu, na história contada por meu pai, era semelhante ao trabalho de Sísifo, inveterado rebelde das esferas da mitologia, condenado a rolar uma grande pedra morro acima, até que ela, por uma força irresistível, tornasse a rolar montanha abaixo, fazendo com que Sísifo tivesse que começar tudo de novo, eternamente.

A imagem do trabalho de Sísifo me foi despertada na mente, num curso que fiz esta semana, ministrado pelo professor João Maurício Adeodato, sobre princípios gerais do direito e sua utilização pelo judiciário brasileiro, em especial no STF, e influência do pensamento de Robert Alexy. Logo no início, o professor João Maurício fez referência ao mito de Sísifo, cuja simbologia tem muito a ver com o curso (ou o percurso), que fizemos naquela oportunidade.

Delineando os dois grandes problemas da Filosofia do Direito, o do conhecimento, ligado à busca da verdade, e o problema ético, vinculado à busca da justiça, o professor apresentou um breve itinerário das tendências da filosofia jurídica, num percurso que poderia ser chamado “do céu à terra”.

Começando pelo período da indiferenciação, reinante nas sociedades primitivas, em que o direito justo se confundia com o direito posto e a história se misturava com o mito, passeamos pelos diversos jusnaturalismos: o cósmico, em que deuses e homens se submetiam à verdade e à justiça escritas nas estrelas; o teocrático, da época de Agostinho de Hipona, da verdade e justiça emanadas dos imperscrutáveis desígnios divinos; o teológico, dos tempos da Igreja triunfante de Tomás de Aquino, da lei natural divina inscrita no coração humano; o antropológico, de Hugo Grotius e Pufendorf, que talvez pudesse ser representado pela figura do homem vitruviano: o homem no centro da esfera, o umbigo, o centro de gravidade do homem; o democrático, centrado no princípio da maioria, de contar cabeças para estabelecer verdade e justiça, que não se confunde com a vontade geral, de Rousseau. Por fim, chegamos ao chão dos positivismos, em que se consolida o processo de esvaziamento ético do direito, para dar lugar à visão eminentemente procedimentalista, com seu espectro que pode ir do legalismo extremo de Montesquieu, em que a lei é tudo, e o juiz, apenas a boca da lei, até o realismo, no qual o direito é construído antes de tudo na cabeça do juiz. Esse realismo, nos tempos atuais, marcados pela hipermodernidade de que nos fala Lipovetsky, pode fazer um insigne Ministro de nossa Suprema Corte admitir realística e publicamente, que primeiro o juiz decide no seu íntimo, e só depois vai buscar os fundamentos de sua decisão, ou ainda, no afã de fazer justiça no caso concreto, decidir que uma menina pode ser mulher, mesmo aos 12 anos de idade.

O percurso do céu à terra foi iluminador. A visão sobre o mundo do direito e suas esferas tornou-se mais clara. Nesse percurso, foi importante perceber como ideias, pensamentos e sentimentos do mundo, nascidos mesmo num passado longínquo, de corações e mentes como os de Parmênides, Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, entre tantos outros, não se desfizeram em pó, mas continuam a instigar mentes e sensibilizar corações pós ou hipermodernos, contribuindo para o alargamento da compreensão filosófica das esferas do céu, da terra, dos seres humanos, e do direito criado por estes no concerto social.

Mas há sempre o risco de maior clarividência descambar para vertigem ou apatia. Conhecer mais a fundo os problemas da verdade e da justiça nas esferas do direito não significa encontrar soluções razoáveis para eles. Em vez disso, pode deixar a sensação de que são problemas insolúveis, de que de nada adiantam os 28 topoi de Aristóteles, ainda que pudessem ser multiplicados pelas 28 regras do discurso prático de Alexy ou equacionados com miríades de teorias que giraram, giram e continuarão a girar vertiginosamente nas esferas da filosofia e da prática jurídicas. Pois verdade e justiça, nessas esferas, poderiam ser apenas o que aqueles que detêm o poder dizem ser o verdadeiro e o justo. Sendo assim, o percurso do céu à terra resultaria num trabalho de Sísifo, tão eterno quanto inútil.

Ocorre que, desde a primeira vez que ouvi do professor João Maurício a referência ao vaivém sisífico presente na reflexão sobre os problemas fundamentais da filosofia jurídica, também me veio à mente um pensamento espirituoso, do ensaísta francês R. Caillois, que li num dicionário de citações: “Il n’y a pas d’efforts inutiles. Sisyphe se faisait les muscles” (não existem esforços inúteis. Sísifo ganhava músculos). Ou, como poderia ter dito meu pai, um emprego no céu pode até ser um trabalho sem fim, mas não um trabalho inútil. Afinal, o que seria de nós, aqui embaixo, sem pessoas que contribuem para fazer girar e brilhar os astros em suas esferas celestes?

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