hora,data

[Guarabira] -

Religio

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Política, retórica e erística.



Propaganda política é um prato cheio para se degustar retórica: tantos argumentos e contra-argumentos para influenciar o eleitorado.  Mas também pode ser um perigo para se envenenar com falácias: promessas temperadas com golpes baixos, típicos da dialética erística, no sentido que lhe atribui Schopenhauer.

A retórica é imprescindível às relações humanas. Uma ideia enclausurada na cabeça não chega à mente do outro se não se exprime por palavras, proclamadas pela boca, que deveria falar daquilo que o coração está cheio. Todavia, por mais que uma pessoa tenha a cabeça cheia de boas ideias e o coração, de sinceridade, isso não lhe garante uma expressão clara do que pensa e sente, sendo a arte retórica necessária para se exprimir bem. Ou como diz Olivier Reboul, “ninguém convence as massas porque é sincero em política, nem é pregador ou missionário porque é crente sincero. É preciso aprender; e se alguns têm mais dom que outros, significa apenas que são mais dotados para aprender.”

O aprendizado prático da retórica pode estar nas diversas situações da vida. Desde o conselho de uma mãe, mostrando ao filho o bom caminho, à pregação de um sacerdote, exortando os fiéis à conversão. E tanto o “sermão” da mãe quanto o do padre, mesmo movidos pela mais reta intenção, não estão livres de argumentos patéticos, voltados mais para a emoção do que para a razão. A hipérbole da mãe, que diz: “meu filho, eu já repeti isso mil vezes”, ou o chavão do padre: “diga para a pessoa do lado: Jesus te ama!”, são expressões legítimas da retórica, mas que são patéticos, não há dúvida que são.

No guia eleitoral, o patético é largamente utilizado. Desde quem diz: “se for preciso, me chame que eu vou ao fundo do mar extrair petróleo”, a quem se vitimiza para sensibilizar o eleitorado. Até aí, não há nada demais.  Pitadas de hipocrisia ou demagogia são ingredientes do cardápio retórico de cada dia. O problema é quando se abusa da erística, artifício de discutir de modo a vencer, por meios lícitos ou ilícitos, arte de quem, segundo Schopenhauer, pode não estar com a verdade, mas insiste teimosamente em ter razão, valendo-se de golpes baixos e ataques rasteiros.

Um dos golpes baixos é a ampliação indevida. Exagerar a afirmação do adversário facilita o ataque. Ainda mais quando se coloca em sua boca palavras que ele não disse, ou quando se fica repetindo: “ele vai acabar com isso, vai acabar com aquilo”, num discurso do medo, como outrora faziam pregadores que, em vez de iluminar os fiéis com as luzes do Paraíso, preferiam atemorizá-los com o fogo do inferno.

O ataque rasteiro se dá quando se abandona o debate sobre propostas do candidato e parte-se para ataques pessoais, imputando-lhe, por exemplo, a pecha de corrupto, coisa que para alguns, parece não importar muito. Afinal,  a ideia do “rouba, mas faz” ainda não se dissipou por completo do nosso cenário político. Não fosse assim, não haveria fichas-sujas liderando pesquisas eleitorais.

Para o veneno das falácias e golpes baixos, o antídoto do eleitor é o senso crítico. Se cada um tem cabeça para pensar e coração para discernir, terá liberdade de uma escolha consciente. E quando o caso for de insulto pessoal infundado, um bom conselho nos dá Aristóteles: “não entrar em controvérsia com qualquer um que chegue, mas só com aqueles que conhecemos e dos quais sabemos que têm inteligência suficiente para não propor coisas absurdas que levem ao ridículo, e que têm suficiente talento para discutir à base de razões e não com bravatas, para escutar e admitir tais fundamentos, e que, enfim, apreciem a verdade, prestem com gosto o ouvido às razões, mesmo quando procedam da boca do adversário, e sejam o bastante equitativos para suportar que não se lhes dê razão, quando a verdade está do outro lado.” Ou como diz Schopenhauer, “entre cem pessoas, há apenas uma com a qual vale a pena discutir. Aos demais, deixemos que digam o que querem, porque ser idiota é um dos direitos do homem.”
/