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Religio

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Pouquinha diferença



Fui chamado para, no dia dos namorados, falar num congresso jurídico, sobre a violência contra a mulher nas relações de trabalho. O clima junino me atiçou a lembrança da letra de um xote, que logo transformei em mote da minha fala. De autoria de Durval Vieira, a música “Tem pouca diferença” foi lançada em 1981, numa das faixas do último LP de Jackson do Pandeiro. Três anos mais tarde, em homenagem a este, falecido em 1982,  foi regravada por Gal Costa, com participação de Luiz Gonzaga, em outro LP memorável, o Gal Profana, aquele da capa com a imagem da cantora de batom em riste e boca exuberantemente vermelha, aquele da “chuva de prata que cai sem parar”, tão apropriada para molhar de luz o beijo dos enamorados, num dia como aquele. E enquanto as palavras saíam da minha boca, a vitrola da mente tocava o refrão do xote: “Que diferença da mulher o homem tem, espera aí que eu vou dizer, meu bem...”

Quis eu, porém, destacar não as dessemelhanças epidérmicas do estribilho, que fala do cabelo no peito e do queixo cabeludo do homem –  que a mulher não tem –, mas a parecença entre os seres humanos, independente de sexo ou gênero, ilustrada na estrofe que diz:

           “Mulher tem duas pernas, tem dois braços, duas coxas,
            um nariz e uma boca e tem muita inteligência.
            O bicho homem, também tem do mesmo jeito,
            Se for reparar direito, tem pouquinha diferença.”
      
Mas reparando bem, embora pouquinha, a diferença tem sido pretexto para injusta discriminação da mulher nas relações de trabalho.  Nossa cultura machista, como destaquei na oportunidade, reserva à mulher uma parte desgastantemente maior das tarefas caseiras, assumidas pelas próprias donas de casa ou, quando estas terceirizam a lida, pelas mãos alheias e serviçais das domésticas. E quando a atividade é fora do lar, ainda é comum a mulher receber salário menor para trabalho de igual valor, apesar da proibição legal, além de ser vítima de assédio moral e sexual no trabalho.
            
A referência a discriminação e assédio acionou de novo a agulha da vitrola de minhas recordações. Desta feita para tocar mentalmente a canção “Anúncio de jornal”, que colocou a cantora argentina Julia Graciela no topo das paradas de sucesso, com o seu compacto simples lançado em 1980, e cujo refrão assim diz: “Precisa-se de moça, boa aparência pra secretária. Tem que ser muito bonita, descontraída e educada.”

Um anúncio desse seria hoje não apenas um arranhão na lataria do politicamente correto, mas uma heresia jurídica. Se a Lei Maior consagra como um dos objetivos da República promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, e proibe critérios discriminatórios para admissão de empregados, a lei trabalhista veda publicar ou fazer publicar anúncio de emprego com referência a discriminação injustificada.

Mas a pobre moça da música, com a mentalidade própria àqueles anos, nem tinha como pensar com os conceitos de hoje. Além do mais, era ainda menina, quando leu o tal anúncio. Adornou-se, então, com seu melhor vestido e foi ter com o responsável pela publicação, afinal, nos seus “sonhos coloridos, precisava trabalhar.” Em pouco tempo, ela estava não só empregada, mas apaixonada pelo empregador. Porém, numa segunda feira de outubro, o patrão lhe pediu para terminar uma carta, “depois das seis”. Mas que carta, que nada! A moça perdeu não só o tempo, mas a inocência por amor ao chefe, e ele  sequer teve a decência de justificar o fim da relação pessoalmente. Mandou apenas entregar à moça um envelope fechado,  para “pagar” os sonhos seus.
   
Sonhos não se pagam com dinheiro. Também não bastam leis para evitar a violência contra a mulher nas relações de trabalho. O Direito do Trabalho, por um lado, faz pouquinha diferença de sexo e gênero, protegendo mais a maternidade que o trabalho da mulher, a ponto da licença-maternidade ser concedida até para o bicho homem, de cabelo no peito e de queixo cabeludo, como o do xote. Em muitos casos, porém, não tem sido bastante, como pretende o Direito Internacional, para prevenir, punir e erradicar atos ou condutas baseadas no gênero, que causem morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico a moças como a da outra canção, embora todo mundo saiba que violência de gênero não é “coisa de mulher”, mas uma infame profanação da sacralidade humana.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sem fingimento






 

 Quanta honra me coube em apresentar a nova edição do romance A tragédia do major, do Padre Luis Gonzaga de Oliveira, no centenário de nascimento do autor. Subir a  Serra da Raiz e reencontrar tantos a quem quero tanto bem, partilhar as companhias  ilustres do renomado jornalista  Gonzaga Rodrigues e do Presidente da Academia Paraibana de Letras, Damião Ramos Cavalcanti, sem falar nos familiares do Major João Marques, protagonista do romance, e os do Padre Luis Gonzaga, tudo foi motivo de enorme alegria.

 
Um testemunho, porém, chamou-me especial atenção. Em seu pronunciamento, a escritora Ângela Bezerra de Castro preferiu o risco do improviso ao discurso escrito. Deixando fluir a mais sincera emoção, como diria Thiago de Mello, desfraldou publicamente um canto de admiração pelo Padre Luís, seu professor de Latim, quando ela ainda era adolescente. E revelou uma confidência que o professor lhe fez naqueles tempos. Depois de  perguntar o que ela pensava sobre o assunto, o mestre segredou-lhe não ser a favor do celibato para os padres,  capaz de fazer da solidão a principal companhia de um sacerdote em determinados momentos da vida. Aquela confissão às avessas fez crescer a admiração da aluna pelo mestre. Mais do que a imagem do homem de batina, diante daquela jovem sobressaía a figura do brilhante professor, que vivia a vocação sacerdotal, sem apelar para a pieguice religiosa. 


 
Confesso que eu já fazia um alto conceito do romancista cuja obra apresentei. Mesmo alto, não era maior do que convém, como recomenda a Carta de Paulo aos Romanos. E com aquele depoimento da professora Ângela, o prestígio do padre Luís na minha avaliação pessoal aumentou ainda mais. Não apenas por questionar o celibato, com o qual também não concordo, da forma que  é adotado. Pois bem sei que não é qualquer um que tem condição de vivê-lo como um dom, para cuidar das coisas de Deus com o coração alegre e indiviso. Mas por eu também ser avesso à pieguice. Não que meu coração seja infenso aos fluxos e refluxos das emoções. Muito menos falo mal da pieguice por medo de parecer ridículo, pois nunca me negaria a escrever uma carta de amor, e como diz o poeta Fernando Pessoa, “as cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas.” A pieguice que me repugna é a lambuzada na gosma da hipocrisia.  Fingir para os outros aquilo que não se sente, palavra que sai da boca, mas não fala do que o coração está cheio. E se isso é um mal nos dramas do amor humano, muito mais grave se torna quando se instala nas relações do ser humano com Deus.

O amor sem fingimento, de que fala a mesma epístola de Paulo, bela carta de amor não só aos romanos, mas a todos os humanos, é o amor dos que abençoam e não amaldiçoam, dos que se alegram com a alegria alheia e choram o choro do irmão. É o amor do cuidado e do carinho mútuos, amor hospitaleiro que, como Deus, não faz acepção de pessoas; amor sem pretensão de grandeza ou vaidade, em que ninguém dá a si mesmo ares de sábio, mas a principal preocupação é fazer o que é bom e viver em paz, na medida do que de cada um depende.


Naquela tarde de homenagens, na Serra da Copaoba, pelos testemunhos que ouvi de quem com ele conviveu, pude perceber que o Padre Luís, na vida de muitas pessoas, praticou gestos do amor sem fingimento, de que fala a Carta de Paulo. Eu, que não o conheci em vida, ao menos tive a honra de conhecê-lo pelas páginas do romance. E também pude perceber em sua literatura, a virtude realçada na homenagem da acadêmica Angêla de Castro. Uma prosa que cria personagens de alma grande e muitas vezes assume o tom memorialista,  numa linguagem que passeia entre o erudito e o popular, sem apelar para a pieguice. Ou como diz o belo comentário de José Américo de Almeida, transcrito na orelha do livro: “Aparece tudo de portas abertas, como foi feito, sem qualquer nota de escândalo, sem aventuras nem malícias, e, desse modo, não provocará ruído. Sinceridade não é sensacionalismo.”
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