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Religio

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Neste tempo que se aproxima




Medo do fim do mundo existe desde que o mundo é mundo. Meu pai falava sobre um eclipse solar, ocorrido nos seus tempos de menino – acho que foi o de 01 de outubro de 1940,  que atraiu cientistas da National Geographic à cidade de Patos –,  que para muitos seria o fim do mundo. Conta-se até que, imaginando a morte iminente, algumas pessoas agiram de forma inusitada. Um empregado humilhado lançou sobre o patrão toda sua coleção de impropérios; uma mulher confessou a traição ao marido, e este a perdoou, achando que para eles não haveria o amanhã. No dia seguinte, porém, talvez preferissem que o mundo tivesse acabado.

O tema do fim do mundo costuma ser relacionado ao Apocalipse. Este, como lembra Raymond Brown, renomado especialista em Novo Testamento, é um livro cuja popularização é movida por equívocos.  Alguns o veem como guia do fim do mundo, escrito por um vidente, que recebeu de Cristo revelações precisas de acontecimentos futuros. Outros o invocam para fazer medo ao povo, manipulando a simbologia dos selos e cavaleiros, da Mulher e do dragão, da Besta do mar e da terra. E o número 666! Se a linguagem cifrada mais próxima do contexto que a produziu aponta para a lenda do “Nero César”, não falta quem se ache o inteligente que decifrou o enigma do número da Besta apocalíptica, dizendo que se refere a Hitler, Stalin e até ao Papa.

Roberto Bortolini, um dos autores da série Como ler a Bíblia, reconhece a dificuldade de “entramos na casa do Apocalipse pela porta certa”,  em razão do  uso da linguagem figurada, que suscita  problemas de interpretação.  Por isso, ele nos propõe sete chaves de leitura para o livro das Revelações. Deveríamos partir da compreensão de que a obra não é um conjunto de previsões de um vidente sobre o final dos tempos, mas o livro da resistência, da denúncia, de celebração, do testemunho, da felicidade, da urgência e da esperança.

A resistência pode ser percebida na linguagem camuflada, própria de quem resiste à perseguição, que parece ter ocorrido no contexto da redação do livro. Com a resistência vem a denúncia das injustiças sociais, considerada a “carteira de identidade” de todo profeta. No centro do livro, o redator diz ter ouvido uma voz do céu, dizendo: “é necessário que continues ainda a profetizar contra muitos povos, nações, línguas e reis”.  Resistência e denúncia se unem  à celebração comunitária da fé em Cristo, o Cordeiro por nós imolado. Mas a vitória não acontece sem  testemunho de vida, que muitas vezes leva ao martírio. Este, porém, não significa o triste fim de quem derrama seu  sangue em vão. Daí que a chave seguinte é a da felicidade. Ao longo do texto são espalhadas 7 bem-aventuranças, e na descrição dos cantos de triunfo no céu, tudo se envolve no manto do júbilo: “Alegremo-nos e exultemos... felizes os convidados para o banquete da núpcias do Cordeiro”.  A urgência, presente nas expressões “o tempo está próximo” ou “já não haverá mais tempo”, longe de nos levar à letargia de quem fica “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, é um apelo à ação imediata, pois “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, enquanto a esperança funda-se na certeza de que o Cordeiro venceu a morte e nos comunicou a vida que nunca se acaba.

Com essas sete chaves, observa Bortolini, o Apocalipse em nossa boca pode ser doce como o mel. Mas é bom ter cuidado, pois o doce pode não ser de fácil digestão, como indica uma passagem do próprio livro das Revelações: “Tomei o livrinho da mão do Anjo e o devorei: na boca era doce como mel; quando o engoli, porém, meu estômago se tornou amargo.” Por isso, mais importante do que usar o Apocalipse como se fosse um livro de predições de um vidente, deve-se sorver o néctar de sua mensagem salvífica, de que só Deus é o Senhor do mundo. Ninguém no céu, nem na terra ou sob a terra, é capaz de abrir os selos do livro da salvação, a não ser o Cordeiro, sem o qual ninguém pode vencer os cavaleiros da ganância, da violência,  da exploração e da morte.

Pouco importa, então, especular se o mundo vai acabar num 21 de dezembro – justo no dia de aniversário de minha esposa –  ou daqui a bilhões de anos; seja como resultado da ação predadora de quem transforma tudo em objeto de insano consumo, desde recursos naturais até a Bíblia, o direito e a religião; seja pelo curso natural das coisas – pois tudo que teve um começo um dia terá um fim – ,  pois isso não afetará o fim da história que tem Deus como senhor. E neste tempo que se aproxima, o seu Filho, que habitou entre nós como Deus Menino, nos convida a fazer do mundo uma casa acolhedora, ainda que provisória, para todas as pessoas.  Por isso, enquanto caminhamos para a Jerusalém celeste descrita no Apocalipse, digamos juntos como no final do livro que fecha a Escritura Sagrada: Maranatha! Vem, Senhor Jesus!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

REALISMOS JURÍDICOS: QUE TAL DOMINAR O MUNDO?



Infinitos tons de amor



“Que me beije com beijos de sua boca!
            Teus amores são melhores do que o vinho...
            (…)
            Teus lábios são fita vermelha,
            tua fala melodiosa;
            metade de romã são teus seios
            mergulhados sob o véu...”

Não, esses versos não foram extraídos dos Cinquenta tons de cinza, o best-seller  “pornô das mamães”, que não cheguei a ler. Eles podem ser lidos no Cântico dos Cânticos, livro sapiencial bíblico, que nos leva a refletir sobre sexualidade e afetividade, aspectos vitais da condição humana.
             
Sexualidade, segundo a Organização Mundial de Saúde, é energia que nos motiva a procurar amor, contato, ternura e intimidade. Ela se integra no modo como nos sentimos, movemos tocamos e somos tocados; influencia pensamentos, sentimentos e interações, constituindo-se num fator importante para a nossa saúde física e mental. Já a afetividade tem a ver com vivência do afeto, uma das funções de nossa mente, que não se limita a conhecer e decidir, mas também leva cada um a sair do seu próprio “eu”, para se ligar ao outro por um laço de amor.
             
A imagem do laço como sinal de relações afetivas é apresentada no poema de Mário Quintana, que fala do laço e do abraço. O laço, uma fita dando voltas que se enrosca, “mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.” E o abraço, “coração com coração, tudo isso cercado de braço”. Por isso, lembra o poema, falamos em laço (e não em nó) afetivo ou de amizade. Pois amor e amizade são isso: “não prendem, não escravizam, não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço”.
             
Se não escravizam nem sufocam, os laços afetivos não devem ser sinais de dominação, submissão ou exploração do outro. Daí que no Cântico dos Cânticos, as imagens do amor e da sexualidade não são marcadas por sadismo ou masoquismo, e sim por um sadio realismo, pelo cantar do amor também corpóreo, com o prazer e o êxtase a ele inerentes.
             
Mas o que faz uma coleção de poemas de amor em meio a escritos sapienciais de um livro santo? Que tem a ver exaltação de laços conjugais, da beleza do corpo da pessoa amada, com a Palavra salvífica de Deus?
            
Desde tempos remotos, existem interpretações espiritualizantes desses poemas. Era comum entre antigos judeus a comparação entre a relação dos amantes neles apresentados,  com o amor de Javé por Israel, do mesmo modo que depois os cristãos fizeram a alegoria com as núpcias entre Cristo e a Igreja. Mas isso não elimina a exegese mais literal, que enxerga, nas imagens dos poemas, expressões legítimas do amor conjugal, do qual fazem parte a sexualidade e a afetividade humanas, que também são tons do infinito amor de Deus.
           
Nessa perspectiva, demonizar a sexualidade humana é negar-lhe a origem divina, postura que está a anos-luz do que orienta a ética cristã, na qual sexualidade rima com castidade, não no sentido de abstinência de prazer corpóreo, mas de sexualidade vivida no amor. Este, como o laço do poeta Quintana, não pode ser um nó que nos escraviza ou sufoca, mas, como um dos tons do infinito amor de Deus, deve ser a livre entrega do nosso coração.

Promoção dos direitos humanos: trabalho de muitas mãos





“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.”

            
Com estes versos de Antonio Cícero, dei início à minha palestra sobre Poder Judiciário e promoção dos Direitos Humanos, numa Faculdade de Direito da cidade de Cajazeiras, sertão da Paraíba. Com eles quis destacar que, voltando ao sertão depois de mais de quinze anos, eu estava ali para compartilhar reflexões e vivências,  para que elas não ficassem trancadas apenas no cofre de minha memória, mas pudessem ser guardadas nas mentes e corações de quem por elas se interessasse, afinal, o aprendizado da vida é um processo coletivo, que para se tornar fecundo necessita ser partilhado e compartilhado, sob pena ser condenado à esterilidade de um tesouro enterrado.
            
Parte desse aprendizado a ser compartilhado era no campo dos direitos humanos. Estes podem ser compreendidos tanto na perspectiva normativa, designando o conjunto de princípios e normas fundadas no reconhecimento da dignidade dos seres humanos, que tem por objetivo assegurar o seu respeito universal e efetivo, como resume Arnaud, em seu dicionário de teoria e sociologia do direito, quanto em seu aspecto mais dinâmico, apresentando-se, no dizer de Joaquín Herrera Flores, como resultados sempre provisórios das lutas sociais pela dignidade humana.
            
Numa ou noutra perspectiva, é possível perceber que no cerne dos direitos humanos encontra-se a ideia de dignidade.  Esta pode ser atribuída não apenas aos seres humanos, mas também a outros seres. No hino bíblico sobre a criação do universo, os seres ganham existência a partir do brado divino, numa ordem crescente de dignidade, até chegar aos seres humanos, homem e mulher, obras-primas da criação. Portanto, como enfatiza o catecismo católico, cada criatura possui sua bondade e perfeição próprias. Para cada uma das obras dos 'seis dias', se diz: “E Deus viu que isto era bom.” Se é assim, podemos dizer que cada criatura tem sua própria dignidade: o sol, dignidade de sol; a terra, dignidade de terra; a água, dignidade de água. Além disso, os animais, além de trazerem a marca da bondade original e infinita do Criador, aspergida sobre  todas as criaturas, se não têm consciência, têm senciência, que é capacidade de sofrer e experimentar alegria e, como tais, devem ser respeitados em sua dignidade de sencientes.
            
É claro que entre todas as dignidades dos seres criados, avulta a do animal humano. No plano da criação, tal dignidade deriva do fato de homem e mulher serem imagem e semelhança do Criador, e na filosofia de Kant, é vista como algo que não tem preço. Por isso, cada um deve agir de tal maneira que possa usar a humanidade, tanto em sua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim e nunca como um meio.
            
Fundamento dos direitos humanos, a dignidade humana não deve ser vista como algo puramente abstrato, mas, como diz Herrera Flores, como um objetivo que se concretiza no acesso igualitário e generalizado aos bens que fazem com que a vida seja digna de ser vivida. Dignidade é ter direito à moradia, comida na mesa, saúde, educação, trabalho, lazer, entre outros bens materiais e imateriais que cada um precisa para viver como gente. E é nesse sentido que os direitos humanos resultam das lutas pela dignidade humana que não paira distante do chão da vida.
           
E como o Poder Judiciário pode contribuir para a promoção da dignidade humana e, consequentemente dos direitos humanos?  A partir desta pergunta me propus a concluir minha palestra, numa conclusão propositadamente inconclusa e inconclusiva. Pois mesmo sabendo que o Judiciário tem papel de destaque nesse processo, e o Judiciário Trabalhista, de modo especial,  relevante atuação no enfrentamento de desafios como o combate ao trabalho análogo ao de escravo e ao trabalho infantil, na garantia da saúde e segurança do trabalhador e na efetivação dos direitos sociais, como trabalho e lazer decentes, o protagonista na concretização dos direitos humanos e na ampliação da cidadania é um sujeito coletivo de um trabalho sempre inacabado, eis que se tratam de tarefas e conquistas cotidianas e gradativas, obras  que só podem ser realizada a muitas mãos, no partilhar e compartilhar da vida.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Se algum dia meu filho me perguntar...





                                                                  Homenagem à professora Maria Eulália Cantalice,
                                                                  neste dia dos professores.




Se algum dia meu filho me perguntar quem é a professora Maria Eulália Cantalice, o que poderei lhe dizer que se aproxime do significado da vida dessa senhora para a nossa comunidade?
             
Dizer, como seu ex-aluno, que ela carrega em si as virtudes de grande educadora é quase truísmo; é chover no molhado. Afinal, muita gente que hauriu seus ensinamentos já sabia disso bem antes que eu conseguisse soletrar tru-ís-mo.
            
 Falar de seus tradicionais exercícios de análise sintática também não acrescentaria muita coisa. Alguns professores meus de primeiro e segundo graus — ensino fundamental e médio, na terminologia atual — já haviam se embrenhado nos segredos da sintaxe iluminados pelas lições daquela professora.
             
Mas, então, o que poderia ser dito para fazer meu filho compreender um pouco da importância da estimada educadora guarabirense?
            
 Confesso que não seria fácil a tarefa. Tudo o que lhe falasse ainda seria insuficiente. Mas, talvez pudesse começar assim:
             
— Meu filho, seu pai é professor, filho de professores. Seu avô terminou seus dias como professor. Não fez fortuna, mas nos deixou o mais rico dos tesouros: o exemplo de uma vida inteira devotada à educação. Pois é esse mesmo legado que dona Maria Eulália Cantalice tem, ao longo dos anos, ofertado a sucessivas gerações de guarabirenses. Mais do que propiciar a instrução, seu exemplo de dignidade, de honradez e de fortaleza tem contribuído para a verdadeira formação, e esta, como diz um célebre provérbio alemão, é aquilo que resta depois que se esqueceu tudo. A propósito, meu filho, Eulália é um nome que provém do grego Eu-lalos, e significa “que fala bem, eloquente.” No caso de dona Maria, a eloquência é bem maior que a força das palavras. É a eloquência da vida.


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