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Religio

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

José e as vacas magras.


No conhecido sonho relatado no Gênesis, o faraó se vê às margens do Nilo. Do rio saem sete vacas bonitas e bem cevadas, que vão pastar nos juncos. Depois surgem outras sete, feias e magras, que se põem ao lado das primeiras. De repente, as vacas magras devoram as gordas. Perturbado, o rei convoca os magos e sábios para tentar decifrar o sonho, mas nenhum deles consegue desvendá-lo. Então o copeiro-mor fala ao soberano de um jovem hebreu, que estava na prisão, e que tinha interpretado um sonho do copeiro. O jovem era José, nome que quer dizer “Deus multiplica.”
           
O faraó manda chamar José, e pede que este revele o significado daquelas vacas gordas e magras, por ter ouvido falar da fama do jovem hebreu como intérprete de sonhos. José, porém, diz com humildade e sabedoria: “Quem sou eu! É Deus quem dará ao Faraó uma resposta favorável.” E explica que as sete vacas gordas representam sete anos de abundância que haverá no Egito,  seguidos de sete anos de escassez e fome.
           
José também aconselha ao faraó que procure um homem sábio e prudente, e o ponha à frente da administração do Egito, a fim de que o país possa se preparar para enfrentar a crise pressagiada. Seria preciso armazenar víveres nos anos de abundância, que servissem de reserva para o país nos anos das vacas magras.
           
O faraó, então, escolhe José, que se torna o símbolo do grande administrador da maior potência da época, com foco, disciplina e organização, virtudes que hoje se exaltam nos manuais para os bons gestores. Mas acima de tudo, não lhe faltavam ética, compromisso com a verdade, e fé no Deus que multiplica.
           
Nestes dias, em que vivemos o agravamento de uma crise, que nem precisava de um sonho com sete anos de antecedência para sabermos que ia acontecer, tenho pensado na trajetória de José do Egito, no quanto não aprendemos com ele, ruminando em meu pensar sobre a simbologia das vacas.
           
Ano passado, por esta época, dava para perceber que nenhum rebanho de vacas, por mais bem cevadas que fossem, suportaria os desmandos de ocupantes do palácio e dos amigos do rei, que em campanha eleitoral, de tudo faziam para permanecer no poder. Prometiam mundos e fundos, e um deles disse até que, se preciso fosse, iria ao fundo do mar, tirar do pré-sal o negro óleo para besuntar os tempos de vacas gordas. E ai de quem contrariasse o que diziam. Se alguém porventura falasse em contenção de despesas, era demonizado. Ajuste fiscal para retirar direitos de trabalhadores, isso nunca! Como foi dito na época: nem que a vaca tussa!
           
Perpetrado o estelionato eleitoral, a conversa agora é outra. A festa acabou, o povo sumiu, conta de luz aumentou, a vaca tossiu. Fala-se numa ponte fiscal provisória, que ninguém sabe para onde nos levará.
           
E agora, José? Como fazer bem a travessia dos anos de vacas magras, se não aprendemos a sua lição, de fazer nossas reservas não só de riquezas materiais, mas de tesouros como sensatez, decência e honestidade na administração da coisa pública?
        
Penso que não há sábio no mundo que tenha a chave para abrir as portas da rápida superação da crise, muito menos um adivinho tão poderoso que antecipe quais serão seus desdobramentos. Mas creio, como José, que Deus nos dará uma resposta favorável. Esta, porém, depende do trabalho de cada um de nós. E qualquer que seja a resposta, penso que tem de passar pelos caminhos da ética, do combate à corrupção, da luta pelos direitos e da partilha mais justa dos bens materiais e imateriais, sem esperarmos por pretensos salvadores da pátria.
           
O povo brasileiro é muito mais importante que qualquer governo ou governante. Já fizemos outras travessias de anos de vacas magras. Que esta seja apenas mais uma, a ser enfrentada com  força e altivez. E que não esqueçamos as lições de José, para que os tempos a serem vividos por nossos filhos, e pelos filhos dos nossos filhos, não sejam de vacas magras em bens para uma vida digna de todos, nem feias em desvalores éticos, como os que infectam os atos e atitudes de muitos daqueles que nós ainda permitimos que nos governem.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Perder para ganhar



Muitas palavras do Evangelho – digo eu, pafraseando Kant – me enchem o coração não só de admiração e respeito, mas de inquietação, quanto mais meu pensamento nelas se detém. É o que acontece quando paro para refletir sobre a seguinte  advertência de Jesus: Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz  e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, vai salvá-la.

Renúncia, nesse caso, não é anulação de si mesmo, mas buscar vencer o egoísmo; é não se achar senhor absoluto da própria vida, mas abrir-se ao verdadeiro autoconhecimento e à felicidade que só Deus pode nos dar. Por sua vez, tomar a cruz e doar a vida pelos outros implica um amor e uma ética exigentes, na consciência de que “uma vida que se esgota em conservá-la não tem sentido”. Pois quando o assunto é salvação e sentido da vida – coisas que se imbricam – é preciso perder para ganhar.

Perder a vida para salvá-la não é só derramar o próprio sangue num martírio. A mãe que doa o melhor de seus dias a seus filhos, o educador que passa a vida formando pessoas, o médico fiel aos preceitos de honestidade, caridade e  ciência, proclamados em  seu juramento, entre outros, são exemplos de como se perde a vida para salvá-la. Para dar sentido à vida, é preciso ser como uma vela, que se consome para levar luz ao mundo.

Falar em renúncia de si mesmo, porém, para muitos parece coisa de outro mundo, como observa Gilles Lipovetsky, quando fala da sociedade pós-moralista. Vivemos uma época em que a retórica do sacrifício não é levada a sério, em que se incensam os direitos individuais no altar do bem-estar pessoal, enquanto dever e responsabilidade são exorcizados como se fossem demônios. Nesse contexto, o sacrifício pessoal perde a razão de ser e, no dizer daquele autor, “as lições de moral são encobertas pelo fulgor de uma vida melhor, do irradiante sol das férias de verão, do banal passatempo das mídias.”

É possível enxergar traços dessa sociedade em pequenos exemplos do dia a dia, como a falta de responsabilidade de certos alunos. Mesmo chamados a ir para a escola no passinho e pelo funk da TV, alguns vão para a sala de aula somente para não perder algum benefício social, mas não dão a mínima para o estudo, muito menos para o professor, que tem de aprová-los sem qualquer cobrança, num faz de conta pedagógigo de uma pátria demagogicamente educadora. E esse tipo de comportamento não é exclusivo de alunos pobres. Em muitos colégios pagos reina o descompromisso de alguns, que nem merecem ser chamados estudantes. Mas em casa os pais nada exigem dos filhos, e se alguém ousa chamá-los a atenção, tentando lhe passar algum ensinamento moral, é tachado de chato, de errado, numa absurda inversão de valores.

A falta de seriedade no cumprimento dos deveres também se dá no exercício profissional,  bem como no trato da coisa pública pelas autoridades, a quem caberia dar o bom exemplo. E até na vivência religiosa se percebe a disseminação de contravalores de quem prefere criar uma religião para próprio consumo e satisfação. Para que se falar em renúncia a si mesmo, quando é mais cômodo substituir a ética e o amor exigentes pela religião do espetáculo? Para que pregar o sacrifício da cruz se é mais fácil viver uma prática religiosa de bem-estar individual e exibicionismo festivo no “banal passatempo das mídias sociais”?

Diante de tudo isso, ponho-me inquieto quando me reflito no espelho do Evangelho da renúncia e da cruz. E peço a Deus que nos ajude a abrir os olhos e o coração, para salvar nossas vidas da exaltação do ego e das vaidades, para nos livrar do reino da ética edulcorada e indolor da sociedade pós-moralista.

                                                          

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