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Religio

sábado, 25 de março de 2017

Alhos com bugalhos

         
Em pleno domingo de carnaval, reunidos em nossa casa, as happy hours não foram só regadas a frevo e churrasco. Por incrível que pareça, a conversa jogada fora acabou caindo dentro da Bíblia. A pergunta partiu de meu irmão: afinal, Judas se enforcou ou morreu de uma queda no penhasco? Na dúvida, a saída foi buscar o Texto Sagrado e voilà: uma narrativa, do enforcado, em Mateus; outra, do traidor despencando no precipício, nos Atos dos Apóstolos.
         
A mistura de religião e folia, porém, não se limitou ao nosso carnaval doméstico. Um dia antes, uma escola de samba de São Paulo fez um tributo ao terceiro centenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida das Águas, com as bênçãos dos dirigentes da Igreja Católica local. E como quem abençoa também se acha no direito de fazer cobranças, a supervisão religiosa veio com pitadas de devota censura: nada de sincretismo religioso, muito menos exibição de mulheres seminuas.
         
Uma das integrantes da escola, indagada por um repórter sobre o que pensava das restrições, disse que o desfile foi lindo. Sentia-se, contudo, um tanto frustrada. Seu desejo mais sagrado era mostrar o corpo esculpido com o sacrifício da dieta e da malhação, sem a limitação concertada entre os dirigentes da Igreja e da escola. Mas como carnaval tem todo ano, quem neste desfile teve de cobrir o que queria exibir, em outros será livre para mostrar o que bem quiser e entender.
         
No Rio de Janeiro, a história foi diferente. Uma das escolas mais tradicionais preferiu não se valer de orientação eclesial, nem se sujeitar a supervisão de qualquer denominação religiosa.  Botou na avenida o carnaval de todos os santos, salpicado de sincretismo e seminudez, nos limites normais de temperatura e pressão de uma festa da carne. Puxando os percussionistas trajados de São Francisco, uma voluptuosa rainha simbolizava um pássaro branco. Teve ainda fantasia de Nossa Senhora Aparecida e uma alegoria que resumia bem o sincretismo do enredo. De um lado, uma escultura de Jesus Cristo – que a apresentadora da TV confundiu com São Sebastião – e, do outro, Oxalá. No desfile das campeãs, retiraram a alegoria. Mas os outros santos e orixás voltaram para sambar, juntos e misturados, na Marquês de Sapucaí.
         
Voltando à questão levantada por meu irmão, há algumas explicações para a aparente divergência entre os textos. Podem ser narrativas complementares, relatos vindos de fontes diversas, eco da narrativa da morte de Aquitofel, único suicida do Antigo Testamento, no caso do enforcamento, ou da sorte do injusto, jogado cabeça abaixo, no livro da Sabedoria, no caso da queda do precipício. Nada disso, porém, estremece a fé de quem a tem, tampouco muda o papel de Judas, o grande malhado no Sábado de Aleluia.
         
Judas é o hipócrita, que critica a unção de Jesus em Betânia; o ladrão, que metia a mão no bisaco de moedas dos discípulos, dos quais era uma espécie de tesoureiro; o corrupto, que traiu o Mestre por trinta dinheiros. Ele é a ovelha definitivamente perdida, desfalcando o grupo dos doze selecionados por Jesus. Há quem questione porque o Mestre o chamou se sabia previamente de sua traição. O discípulo teria sido escalado apenas para cumprir o papel de um roteiro já escrito? Não se deve confundir, porém, presciência com predestinação, da mesma forma que a nossa conversa, num domingo de carnaval, não se confunde com evangelização.
         
Não estávamos reunidos num momento litúrgico ou com finalidade catequética,  mas apenas para brincar o carnaval de forma sadia, que cristãos e não cristãos podem fazer, sem precisar pular numa cristofolia.  Meter a colher religiosa em festa da carne também não a transforma naquilo que ela não é nem precisa ser. Não duvido que cristãos possam honrar a Deus sambando na avenida, como declarou uma respeitável autoridade de nossa Igreja. Mas justificar a bênção e supervisão de um espetáculo carnavalesco, porque também rezamos missas fora dos templos ou levamos o sagrado a espaços profanos pode ser uma falsa analogia. Talvez seja misturar alhos com bugalhos.

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