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[Guarabira] -

Religio

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Justiça poética


Visões que na alma o céu do exílio incuba
Mortais visões! Fuzila o azul infando...”




Estes versos, que abrem o soneto Banzo, de Raimundo Correia, sempre me lembram as aulas de Teoria da Literatura, primeira disciplina que me foi dada para lecionar na Faculdade. Eu havia terminado o curso de Letras, e nossa professora, que se afastou para assumir a presidência do sindicato da categoria, indicou meu nome para substituí-la como professor-assistente.
Texto na mão, eu convidada a turma a declamarmos o poema, sem qualquer preocupação que não fosse o prazer da leitura. Tudo o que pedia era que procurássemos recitar o melhor possível, tentando perceber a beleza daquela massa fônica e contemplar as “imagens pintadas com palavras”, para me valer de uma expressão de Manoel de Barros, quando diz que aprendeu com o Padre Vieira, que imagens assim são para “se ver de ouvir.”
Depois da leitura lúdica, fatiávamos o texto, na busca de sua compreensão. Fazíamos a escansão dos decassílabos, colocávamos alguns versos na ordem direta, aqui e acolá com uma pitada de análise sintática, ao mesmo tempo pesquisando o significado das palavras novas do rico vocabulário do soneto. Ao final, fazíamos nova leitura em voz alta, procurando unir beleza e compreensão do que estávamos recitando.
Além dos elementos do texto, procurávamos informações sobre o contexto, além de elementos pré-textuais, incluindo a biografia do autor. Este, como diz a teoria hermenêutica, pode ser visto como um elemento ocasional, pois uma vez gerado, o texto corta o cordão umbilical com o seu criador. O cuidado, porém, é que o leitor respeite a alteridade do texto, deixe-o falar, e não o transforme em mero pretexto para que só o intérprete fale.
Também não se há de esquecer que, mesmo “ocasional”, o autor não pode ser desprezado para compreensão de sua obra. Se “tudo que é dito é dito por alguém”, conhecer a biografia desse alguém pode ajudar a entender o que ele diz. No caso do poeta parnasiano, sua história de vida é iluminada e iluminadora.
Raimundo Correia foi poeta e juiz. Tão cuidadoso com as consequências de suas decisões, que sobre ele surgiram várias histórias, como as registradas na coletânea Brasil anedótico, de Humberto de Campos, extraídas de discursos proferidos na Academia Brasileira de Letras. Nelas são destacadas diversas virtudes do poeta juiz, algumas até exageradas, se é que pode haver excesso nas virtudes.
Conta-se que ele era de um escrúpulo quase doentio ao lavrar suas decisões. Teria passado nove noites sem dormir, antes de se averbar suspeito num processo cujo autor era o amigo Medeiros e Albuquerque. No íntimo, ele achava que Medeiros tinha razão. Mas nisso residia o escrúpulo que fez o poeta confessar ao amigo: “há nove noites eu pergunto a mim mesmo: mas eu acho que o Medeiros tem razão porque tem mesmo, ou é porque o Medeiros é meu amigo?”
Em outra história, Humberto de Campos destaca o lado cristão do juiz poeta. O empregado de um açougueiro tinha ferido o patrão a facão. Raimundo Correia mandou chamar as partes. Disse que ia absolver o culpado, porque ele tinha sido ofendido no insulto. Mas tinha uma condição: que os dois não guardassem ódio. Fez, então, uma preleção sobre a violência, e terminou:
                  “- Vocês têm religião?
                  - Sim, senhor.
                   E aproximando-os:
                  -Então, vão, e sejam amigos...”
Ouvi nesses dias, no comentário de um jornalista sobre a prisão de ex-governadores por atos de corrupção, comemorada por parte da população, que esse episódio pode ser visto como parte de uma justiça poética, na qual as virtudes triunfam sobre os crimes. Mas de nada adiantará a euforia, se não concretizarmos as consequências desse triunfo. Talvez seja o caso de nos inspiramos em Raimundo Correia e termos mais cuidado com as consequências de nossas decisões, opção fundamental para concretizar a justiça poética, sem a qual justiça não é justiça.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Grande Sertão.

                                 

Desde que me entendi por gente, tomei gosto pelos livros. Até nas brincadeiras de criança eu tinha fascínio por eles. E quando ganhava um ainda no plástico... Ah! Como era bom tirar-lhe a embalagem, acariciar-lhe as páginas, sentir o cheirinho do novo. Nas asas da leitura, sempre viajei pelo mundo sem precisar sair de casa.

Das tantas viagens, ainda me encanta a do Grande Sertão: Veredas. Narrativa que completou sessenta anos, é romance mais que romance, universo rico criado por uma linguagem singular, é o pensar sobre a travessia da vida, vista como invenção coletiva, “mutirão de todos, por todos remexida e temperada,” mesmo que não seja “entendível”.

Além da prosa de Riobaldo, o personagem narrador, repleta de pensamentos profundos, suas histórias de luta, amizade e amor ao lado de Diadorim, algo que sempre me seduz no romance de Guimarães Rosa é a dualidade não maniqueísta entre Deus e o diabo.

O maniqueísmo reparte o mundo em duas bandas: de um lado, o reino do bem e dos bons; do outro, o império do mal e dos maus. Porém, no Grande Sertão, tal qual na parábola bíblica, o joio e o trigo não estão em cercados separados. A gente pode até, como o narrador, carecer que “o bom seja bom e o ruim, ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza”, mas a realidade, como ele observa, é que “este mundo é muito misturado.”

No maniqueísmo, há uma equivalência entre o príncipe das trevas e o da luz, e ambos comunicam sua substância a seus súditos, fazendo com que os indivíduos sejam bons ou maus conforme sua origem. Porém, uma ideia assim não cabe na cabeça de quem sabe que Deus é absoluto, e que a pequenez do diabo não pode ser páreo para o Amor Infinito.

Não quero, com isso, subestimar a ação devastadora do mal. Ele está solto no meio do mundo. Com ele, todo cuidado é pouco. E como alerta a Carta de Pedro, devemos estar sóbrios e vigilantes, pois o adversário nos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar.

Talvez para não ser devorado pelo demo, moradores do Grande Sertão “desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga”, ou se referem aos seus apelidos, como “Rincha-Mãe”, “o Muitos-Beiços”, “o Rasga-em-Baixo”, entre tantos. Afinal, falar o nome de alguém não deixa de ser uma invocação, e chamar o diabo pelo apelido é uma tentativa de tapeá-lo. Mas Riobaldo sabe que nesse artifício há muito de exagero e fantasia. O diabo pode até fazer alarde e meter medo, e nesse mundo misturado, “cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo,” dando a impressão de que o Coisa-Ruim vai triunfar. Mas como diz Riobaldo, “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”.

Mesmo dizendo que Ele é “definitivamente”, o narrador também exclama: “Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.” Como o tempo Dele não é impaciente como o nosso, somos tentados a pensar que Deus é passivo, só porque Ele não “arrocha o regulamento,” como diz o Grande Sertão e, em vez de cortar logo o mal pela raiz, deixa o ser o humano livre para amar e desamar.

Também somos tentados a repartir o mundo entre nós e os outros, achando que só é do bem quem está conosco, e quem não reza na nossa cartilha tem parte com o Capiroto. Nesse apartheid insano, mergulhamos o coração no azedume da raiva e do ódio, sem nos darmos conta, como lembra Riobaldo, que “quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”, e ainda que “só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor”, pois “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Não vale a pena, portanto, remoer sentimentos ruins para dar gosto ao Que-não-Ri. É pura perda de tempo, e tempo, mais do que dinheiro, é a nossa própria vida. Esta, como diz o Grande Sertão, pode até ser “ingrata no macio de si, mas transtaz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.”
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