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[Guarabira] -

Religio

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mentiras e mentiras.


            
Não lembro o ano que isso aconteceu, mas não pensem que é mentira. Quando eu era menino, e na minha cidade ainda havia cinema fora de shopping, fui assistir Dio, come ti amo. O filme me fez chorar, especialmente na cena final, em que Gigliola Cinquetti corre para o aeroporto e canta a canção de fazer parar avião. Só tinha chorado assim quando vi Coração de luto, de Teixeirinha. Mas no Dio come ti amo havia uma novidade. Antes da exibição da película, fizeram uma demonstração do sabão Omo, que estava sendo lançado no mercado. Em vez do sabão em barra, comprado em pedaço na mercearia, lá estava o sabão em pó, fazendo o branco parecer mais branco, como se fosse um toque de mágica diante de nossos olhos.
            
Soube há pouco que Omo é abreviatura de Old Mother Owl, que significa Velha Mãe Coruja, e que na primeira embalagem havia a figura de uma coruja, em que as letras “o” representavam os olhos, e o “m”, o nariz e o bico da ave. A coruja simboliza não só a sabedoria, mas o zelo materno. Por coincidência, o ingresso para assistir ao filme era cortesia em homenagem às mães. Mas como a minha não pode me levar ao cinema, coube a uma irmã postiça me fazer passar por seu filho de mentirinha para, no colo dela, me deslumbrar com a brancura da demonstração do sabão em pó e me emocionar com a cena daquele filme.
            
Fosse hoje, teria como registrar, nas imagens instantâneas do mundo virtual, o fato que nunca me saiu da memória. Mas naquele tempo, nem passava em minha cabeça que algum dia haveria internet, nem podia imaginar o que chamamos de rede social ou jogos virtuais.  Minha brincadeira preferida era com bolas de gude, no quintal de terra, onde cavava buracos para o “bola ou bura”,  e o principal brinquedo não se comprava em loja. Era o carrinho com cabine feita de lata de óleo, chassi de madeira, aspas como feixes de molas e rodas recortadas de chinelas velhas.
            
Uma vez ou outra, ousava uma travessura. Você sabe o que é “pegar morcego” em carro de boi?! Aquilo dava um prazer, que chego a comparar com o de Marty MacFly e seu skate, tanto o do passado,  que precisava da carona de um carro, quanto o voador, no De volta para o futuro.  Se não tínhamos como caçar pokemon, dava para pegar “cascudo” com a mão, num riacho perto de casa. Confesso que às vezes escondia alguma estripulia, mas não achava que fosse um pecado grave, pois mentia não para prejudicar alguém, e sim para escapar da pisa de minha santa mãe.
            
No fundo, sabia que mentir nunca era certo. Como aprendi depois no catecismo, mentira é sempre condenável por ser profanação da palavra, que deve servir para comunicar a verdade. Quando alguém mente, rouba do outro a plena capacidade de conhecer, sem a qual não se pode decidir livremente. Mas também aprendi que existem mentiras e mentiras, que o tamanho do pecado do mentiroso depende das circunstâncias em que ele mente, de suas intenções e do prejuízo sofrido por suas vítimas, e que nem todo aquele que mente deve ser automaticamente condenado. Vejam o caso de Pedro. Ele não mentiu ao negar Jesus três vezes?!
           
Diferente, porém, são as mentiras da hipocrisia, da fraude e da traição,  que ferem de morte a justiça e a caridade. Nesse caso, a mentira consiste em dizer uma falsidade a pessoas que têm o direito de saber a verdade, e fazer isso com manifesta intenção de enganar ou prejudicar os outros.
            
Dizia Otto von Bismarck que nunca se mente tanto como em véspera de eleição, durante a guerra e depois da caça. Às histórias de caçadores ou de pescadores talvez não se possa dar muito crédito. Mas elas são a mentira da espécie jactância, que segundo Aristóteles, consiste em exagerar a verdade. Na guerra, porém, a situação é mais séria. No dizer de Ésquilo, nela a verdade é a primeira vítima. Fala-se, por exemplo, que muitas vidas têm sido ceifadas com o uso de drones. Mas quem quer revelar a face oculta da “guerra contra o terror?”
            
Quanto à política, é comum nos depararmos com farsas e estelionatos eleitorais, com campanhas que gastam fortunas com marqueteiros para inventar um mundo virtual que sabemos estar longe do real. Mas não é justo jogar pedras de hipocrisia apenas em candidatos e marqueteiros, se nós também fazemos parte do processo eleitoral, e muitas vezes contribuímos com o estelionato de que também somos vítimas.
            
Por falar em pedras de hipocrisia, vi nestes dias o caso dos atletas olímpicos que inventaram uma história de assalto e depois foram pegos na mentira. Ainda bem que foram desmascarados, pois a verdade deve sempre prevalecer. Não acho justo, porém, tratar o caso como um linchamento moral. Denunciar o cisco da mentira no olho do outro, sem primeiro tirar do seu a trave da hipocrisia. E que atire a primeira pedra quem nunca mentiu na vida.

Paz em Nice, paz no mundo.







            “É uma revolta?"



            "Não, Majestade, é uma revolução.”



            
Assim teria sido o diálogo entre o rei Luís XVI e o duque de Liancourt. Falavam sobre os acontecimentos que levaram à queda da Bastilha, fato marcante da Revolução Francesa. A conquista  daquela fortaleza medieval transformada em prisão foi algo espetacular não pelos números envolvidos. Dizem que lá dentro só havia seis ou sete prisioneiros e poucos canhões que ainda prestavam. Mas expressava a participação popular na derrubada do absolutismo. O grupo que tomou a Bastilha não era uma tropa, muito menos de elite. Eram marceneiros, sapateiros e outros artesãos, gente das camadas populares, mostrando que a bandeira de luta por novos tempos não havia de ser conduzida apenas pela burguesia.



           
A notícia de que um símbolo do poder real tinha sido tomado pelo populacho se espalhou como um rastro de pólvora pela Europa. E era recebida como algo tão grandioso, a ponto do filósofo Kant, quando soube do acontecido, pela primeira vez na vida, atrasar o passeio diário, feito pontualmente às 18 horas.



            
Era só uma revolta? Não, era uma revolução. Tanto que a queda da Bastilha, ocorrida num quatorze de julho, há mais de duzentos anos,  ainda hoje é celebrada como grande feriado francês. Neste último, porém, mais uma notícia vinda da França abalou o mundo, e não foi resultado de uma revolução. Como resumiu a frase de um site jornalístico, naquele dia, “o inferno tomou conta de Nice”.



            
Por volta das dez e meia de noite, numa avenida à beira-mar de uma das praias mais famosas da França, uma multidão estava reunida para assistir a queima de fogos. De repente, um caminhão avançou cerca de dois quilômetros no meio das pessoas, atropelando quem estivesse pela frente, provocando morte e sofrimento, espalhando medo e sensação de insegurança mundo afora.



            
O mundo sedento de paz condenou o  ataque e expressou solidariedade às suas vítimas que, no fundo, somos todo nós. O Presidente do Conselho Europeu, além de lamentar o atentado, observou que se tratava de um trágico paradoxo. Aqueles homens, mulheres e crianças foram mortos e feridos pela ação do terror, justamente quando estavam reunidos para celebrar a liberdade, a igualdade e a fraternidade.



            
Paradoxos trágicos, porém, não existem apenas em ações terroristas. Os mesmos revolucionários que derrubaram a Bastilha e contribuíram para que o mundo proclamasse os direitos humanos como direitos universalizáveis, independente de nacionalidade, religião, gênero e classe social, não empunharam as bandeiras da liberdade, igualdade e fraternidade sem manchar as mãos com sangue de outros seres humanos.



            
Norberto Bobbio, falando sobre o legado da Revolução Francesa, destaca o testemunho de pensadores sobre aqueles momentos que assinalaram uma verdadeira virada na história do gênero humano. A primeira fase, segundo Tocqueville, era “o tempo de juvenil entusiasmo, de orgulho, de paixões generosas e sinceras, tempo do qual, apesar de todos os erros, os homens iriam conservar eterna memória, e que, por muito tempo ainda, perturbará o sono dos que querem subjugar ou corromper os homens.” Kant, por outro lado, condenou o regicídio como abominação e observou que os revolucionários tinham acumulado, ao mesmo tempo, miséria e crueldade. No entanto, escreveu que aquela revolução foi de um povo rico em espiritualidade, cheio do verdadeiro entusiasmo, entendido como participação de todos no bem, com intensa paixão.



            
Apaixonar-se pelo bem comum é essencial para fundamentar os direitos humanos como direitos que possam ser universais. Embora não seja fácil a sua universalização, em razão do relativismo cultural e das desigualdades socioeconômicas, essa paixão por um bem que seja de todos requer a transcendência do individualismo egoísta. Para Thomas Paine, os direitos humanos não podem ser justificados se nos contentamos com o relativismo da história, mas somente quando buscamos o momento da origem, quando os seres humanos, todos eles, sem qualquer distinção, surgiram das mãos do Criador, pois a  “a história nada prova salvo os nossos erros, dos quais devemos nos libertar. O único ponto de partida para escapar dela é reafirmar a unidade do gênero humano, que a história dividiu.”



            
Talvez não seja preciso escapar da história para transcendê-la. Mas penso que é preciso, todos os dias, reafirmar a unidade do gênero humano, que a história e o terror insistem em dividir. Bombardear o inimigo e intensificar os aparelhos de segurança, ainda que encontrem justificativas razoáveis, certamente não são soluções definitivas para os trágicos paradoxos que ameaçam a paz mundial. Sei também que não temos todas as respostas nem todos os meios necessários para a construção de um mundo de paz. Contudo, jamais o construiremos de braços cruzados. Como aprendi com o Padre Comblin, na história humana nunca há adequação entre meios e fins, e novos seres humanos hão de ser construídos com materiais de velhos seres humanos. Mesmo não existindo meios históricos ideais, pois na precariedade da condição humana tudo é inadequado, “a ação é imprescindível, a opção inevitável, a escolha necessária”. E a melhor escolha nunca é combater  ódio com ódio, terror com mais terror, mas a ação imprescindível, cotidiana e apaixonada pela paz. Paz interior, paz em Nice, paz no mundo.
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