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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Paz em Nice, paz no mundo.







            “É uma revolta?"



            "Não, Majestade, é uma revolução.”



            
Assim teria sido o diálogo entre o rei Luís XVI e o duque de Liancourt. Falavam sobre os acontecimentos que levaram à queda da Bastilha, fato marcante da Revolução Francesa. A conquista  daquela fortaleza medieval transformada em prisão foi algo espetacular não pelos números envolvidos. Dizem que lá dentro só havia seis ou sete prisioneiros e poucos canhões que ainda prestavam. Mas expressava a participação popular na derrubada do absolutismo. O grupo que tomou a Bastilha não era uma tropa, muito menos de elite. Eram marceneiros, sapateiros e outros artesãos, gente das camadas populares, mostrando que a bandeira de luta por novos tempos não havia de ser conduzida apenas pela burguesia.



           
A notícia de que um símbolo do poder real tinha sido tomado pelo populacho se espalhou como um rastro de pólvora pela Europa. E era recebida como algo tão grandioso, a ponto do filósofo Kant, quando soube do acontecido, pela primeira vez na vida, atrasar o passeio diário, feito pontualmente às 18 horas.



            
Era só uma revolta? Não, era uma revolução. Tanto que a queda da Bastilha, ocorrida num quatorze de julho, há mais de duzentos anos,  ainda hoje é celebrada como grande feriado francês. Neste último, porém, mais uma notícia vinda da França abalou o mundo, e não foi resultado de uma revolução. Como resumiu a frase de um site jornalístico, naquele dia, “o inferno tomou conta de Nice”.



            
Por volta das dez e meia de noite, numa avenida à beira-mar de uma das praias mais famosas da França, uma multidão estava reunida para assistir a queima de fogos. De repente, um caminhão avançou cerca de dois quilômetros no meio das pessoas, atropelando quem estivesse pela frente, provocando morte e sofrimento, espalhando medo e sensação de insegurança mundo afora.



            
O mundo sedento de paz condenou o  ataque e expressou solidariedade às suas vítimas que, no fundo, somos todo nós. O Presidente do Conselho Europeu, além de lamentar o atentado, observou que se tratava de um trágico paradoxo. Aqueles homens, mulheres e crianças foram mortos e feridos pela ação do terror, justamente quando estavam reunidos para celebrar a liberdade, a igualdade e a fraternidade.



            
Paradoxos trágicos, porém, não existem apenas em ações terroristas. Os mesmos revolucionários que derrubaram a Bastilha e contribuíram para que o mundo proclamasse os direitos humanos como direitos universalizáveis, independente de nacionalidade, religião, gênero e classe social, não empunharam as bandeiras da liberdade, igualdade e fraternidade sem manchar as mãos com sangue de outros seres humanos.



            
Norberto Bobbio, falando sobre o legado da Revolução Francesa, destaca o testemunho de pensadores sobre aqueles momentos que assinalaram uma verdadeira virada na história do gênero humano. A primeira fase, segundo Tocqueville, era “o tempo de juvenil entusiasmo, de orgulho, de paixões generosas e sinceras, tempo do qual, apesar de todos os erros, os homens iriam conservar eterna memória, e que, por muito tempo ainda, perturbará o sono dos que querem subjugar ou corromper os homens.” Kant, por outro lado, condenou o regicídio como abominação e observou que os revolucionários tinham acumulado, ao mesmo tempo, miséria e crueldade. No entanto, escreveu que aquela revolução foi de um povo rico em espiritualidade, cheio do verdadeiro entusiasmo, entendido como participação de todos no bem, com intensa paixão.



            
Apaixonar-se pelo bem comum é essencial para fundamentar os direitos humanos como direitos que possam ser universais. Embora não seja fácil a sua universalização, em razão do relativismo cultural e das desigualdades socioeconômicas, essa paixão por um bem que seja de todos requer a transcendência do individualismo egoísta. Para Thomas Paine, os direitos humanos não podem ser justificados se nos contentamos com o relativismo da história, mas somente quando buscamos o momento da origem, quando os seres humanos, todos eles, sem qualquer distinção, surgiram das mãos do Criador, pois a  “a história nada prova salvo os nossos erros, dos quais devemos nos libertar. O único ponto de partida para escapar dela é reafirmar a unidade do gênero humano, que a história dividiu.”



            
Talvez não seja preciso escapar da história para transcendê-la. Mas penso que é preciso, todos os dias, reafirmar a unidade do gênero humano, que a história e o terror insistem em dividir. Bombardear o inimigo e intensificar os aparelhos de segurança, ainda que encontrem justificativas razoáveis, certamente não são soluções definitivas para os trágicos paradoxos que ameaçam a paz mundial. Sei também que não temos todas as respostas nem todos os meios necessários para a construção de um mundo de paz. Contudo, jamais o construiremos de braços cruzados. Como aprendi com o Padre Comblin, na história humana nunca há adequação entre meios e fins, e novos seres humanos hão de ser construídos com materiais de velhos seres humanos. Mesmo não existindo meios históricos ideais, pois na precariedade da condição humana tudo é inadequado, “a ação é imprescindível, a opção inevitável, a escolha necessária”. E a melhor escolha nunca é combater  ódio com ódio, terror com mais terror, mas a ação imprescindível, cotidiana e apaixonada pela paz. Paz interior, paz em Nice, paz no mundo.

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