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Religio

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

NATIVIDADE


“Ao nascer, também eu respirei o ar comum. E, ao cair na terra que a todos recebe igualmente, estreei minha voz chorando, igual a todos.” (Sb 7,3)

Assim como Salomão, referido no livro da Sabedoria, estreou na vida feito qualquer criança, o Verbo se fez nascido de mulher. Bem mais humilde que o rei, veio ao mundo longe das pompas e circunstâncias que cercam as autoridades. Aos pais, por falta de hospedagem decente, não restou outra alternativa a não ser o abrigo numa gruta, lugar onde se deu o parto, e onde as santas mãos de Maria cuidadosamente envolveram o recém-nascido em panos, para deitá-lo numa manjedoura, sob o olhar amoroso de José. Não há, no mundo, porém, nascimento mais glorioso que o da Natividade de Jesus, na cidade de Belém.

A celebração da Natividade é muito mais que a lembrança de um evento ocorrido num dia específico do passado. Não se trata simplesmente da comemoração de um aniversário, até porque não se tem registro sobre o exato dia do nascimento de Jesus. Sabe-se, porém, que por volta do ano 336 da era cristã, já havia uma festa do Natal em Roma, comemorada em 25 de dezembro, e Santo Agostinho, por sua vez, também nos informa que mais ou menos na mesma época, a festa do Natal cristão era comemorada nas terras da África, nesse mesmo dia.

Na verdade, antes da sua cristianização, 25 de dezembro era o dia em que se realizavam festas de culto ao sol, no solstício de inverno, no hemisfério norte. E a Igreja, por considerar tais festas idolátricas, foi aos poucos oficializando essa data como ocasião para a humanidade afirmar a fé no mistério da Encarnação do Verbo, “a luz verdadeira que ilumina todo homem”, como proclama o prólogo do Evangelho de João.

A Natividade se fundamenta no mistério da Encarnação, evento salvífico para a humanidade, Boa-Nova para os pobres deste mundo. Não é à-toa que no belo relato de Lucas, a notícia do nascimento do Menino é dada em primeira mão, pelo Anjo do Senhor, a simples pastores, que, de repente, se veem banhados de luz, o que a princípio lhes deixa com medo. O Anjo, porém, tranquilizando-os, lhes comunica a grande mensagem, para eles e para todos nós: hoje nasceu-nos o Deus Menino, o Messias, o Salvador!

Entrar no espírito da Natividade é, pois, ir além do sentimentalismo fomentado por um espírito natalino forjado pela sociedade que hiperboliza o consumismo, inclusive religioso, e se contenta com filantropia de fim de ano, sem cultivar a caridade nossa de cada dia.
Por isso talvez cheguemos mais próximo do sentido da Natividade se não nos limitarmos a mensagens açucaradas, do consumismo religioso voltado para bem-estar e autoajuda, mas refletirmos sobre o significado mais profundo da religião, enquanto religação dos laços com o divino dentro de nós, na pessoa do outro e na construção de um mundo mais fraterno.

Quem nos chama a atenção sobre essa verdadeira religião é a Epístola de Tiago, que parece não ser tão difundida entre nós, talvez por ser tão contundente. Segundo o autor sagrado, religião irrepreensível aos olhos de Deus consiste em cuidar dos necessitados e não se deixar contaminar pela corrupção do mundo. Essa religião verdadeira, norteada pelo irrestrito respeito aos pobres, não nos permite acepção de pessoas. Se em nossas reuniões, tratamos diferente quem tem mais dinheiro, poder ou autoridade, como exorta a Epístola, não estamos fazendo o mesmo que o mercado, cujas lojas muitas vezes tratam melhor uma pessoa que adentra suas portas, ricamente vestida, e menospreza a outra que não tem dinheiro e notoriedade?

Não nos esqueçamos que no centro da Natividade está um recém-nascido pobre, filho de pobres, envolto em panos, deitado numa manjedoura. E toda a celebração perde a razão de ser se desprezamos o seu sentido salvífico. Nascendo de mulher, respirando o ar comum, caindo na terra que a todos recebe igualmente, estreando a voz chorando, igual a todos, e ainda muito, muito mais humilde que muitos, o Verbo assume o que é nosso para nos dar o que é seu, como lembra Santo Agostinho, pois é pela Natividade, que Deus se faz homem para que o homem se torne Deus.

Feliz Natividade!

sábado, 14 de dezembro de 2013

Nossos jardins



A cidade dos homens, dividida e violenta, por vezes me atemoriza e entristece. Nela coexistem, lado a lado, feudos e guetos. Condomínios fechados e catedrais do consumo erguem muros de concreto e torres de vigilância, para se apartarem e apartarem comunidades instaladas na vizinhança, onde quase sempre cidadania não há. E acabamos nos fechando não apenas por fora, mas por dentro de nós mesmos.  Nesse cenário, sonho com outras formas de convivência social, em que dentro e fora das pessoas haja mais espaço para cultivar jardins, como o de Rubem Alves, que me vem à mente em retalhos de lembranças de um vídeo apresentado em nossas aulas de Teologia, pelo saudoso mestre Paulo Afonso.

 Ao abrir a porta, Rubem Alves nos convida a um passeio pelo jardim. Não é um jardim qualquer, mas um lugar fundado no sonho, “testemunha de uma felicidade ausente.” Ele não começa na terra, na enxada ou na semente; antes de existir no mundo sensível, já havia brotado no coração do autor.

Naquele jardim cada flor tem uma razão de ser, uma história. A flor do imperador, com cheiro de pêssego; madressilva, a mãe da floresta, de flor com gosto de mel; o manacá da serra, que tem capacidade de dar flores de duas cores ao mesmo tempo, roxas e brancas; a murta, sinal da esperança messiânica; no Antigo Testamento, quando se falava na felicidade vindoura, dizia-se “a murta vai florescer”; a manhã gloriosa, cuja flor vive apenas sete horas, e no dia seguinte já está repleta de outras flores, símbolo da perene renovação da vida.

Afora o jardim, o autor nos leva a uma horta, no fundo do quintal. Entre as ervas ali plantadas, destaca-se a ora-pro-nóbis, verdura de gente pobre, cujo nome tem a ver com a situação dos humildes, pois toda vez que o pobre come é motivo de oração. Assim, cada cantinho daquele local mágico representa uma redescoberta da felicidade.

Pena, porém, que nem todo mundo goste de jardins. Como lembra o vídeo, talvez muitas pessoas preferissem que flores e gente fossem de plástico, que não dão trabalho; só assim não teriam de lidar com a vida e a morte.

No meio do jardim há também um sino, que faz ecoar a voz do vento, significando a imprevisibilidade dos tempos da natureza, diferente do outro, no alpendre da casa, retirado de uma estação de ferro, que lembra o tempo previsível das pessoas, que se deslocam nos movimentos da vida.

Tudo ali nos faz perceber que o jardim é antes de tudo um símbolo que evoca felicidade perdida. É, ao mesmo tempo, uma tentativa para recuperar a felicidade, pois parte desta é o jardim que floresce no interior da alma.  O símbolo pode ser muitas coisas, até um sacramento, sinal presente de uma felicidade ausente. Os símbolos tecem a essência das coisas e do próprio ser humano, verbo encarnado à semelhança do verdadeiro Sacramento.

Mas existem sinais que em vez de nos libertar nos amarram, em vez de nos integrar, nos apartam, como os feudos e os guetos. E por conta deles nos tornamos o intervalo entre os nossos desejos e aquilo que os desejos dos outros fazem de nós, como diz o poeta Fernando Pessoa. Nesse caso, nada melhor que cultivar jardins que sejam verdadeiramente nosso poema interior.

E importante, ainda, que nossos jardins não fiquem apenas no sonho. Jardim sonhado é nostalgia e ausência. É necessário que o corpo seja possuído pelo sonho e se ponha a trabalhar. Aí, sim, o jardim sonhado vai-se tornando um jardim real, e o ser humano vai construindo a felicidade, resultado entre a capacidade de sonhar e de trabalhar.  Só assim, quem sabe um dia, nossos jardins não terminarão em muros, e a cidade dos homens, mais do que nos apartar em feudos e guetos, enfim cultivará jardins para a felicidade de todos.

sábado, 26 de outubro de 2013

Ensinar e aprender felicidade




Gosto de textos que me levem a refletir. Reflexão é espírito curvando-se sobre si mesmo, pensamento sobre pensamento, mergulho nas profundezas do ser, fazendo de cada um de nós um espelho a refletir luz para outros espelhos.

Nestes dias, após receber felicitações pelo dia do professor, eu, que exerço o magistério não só por herança familiar, mas também por vocação, e sinto-me feliz quando estou em sala de aula, parei para refletir sobre um desses textos, o capítulo inicial do livro de Rubem Alves, “A alegria de ensinar”.

O autor começa falando sobre o sofrimento dos professores. Compara-o à dor do parto: “a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho,” e quase como um acalanto para esse sofrimento, o texto cita um poema de Rückert, extraído de um livro de Hermann Hesse:

        Nossos dias são preciosos
        mas com alegria os vemos passando
        se no seu lugar encontramos
        uma coisa mais preciosa crescendo:
        uma planta rara e exótica,
        deleite de um coração jardineiro,
        uma criança que estamos ensinando,
        um livrinho que estamos escrevendo.

Pode um professor cultivar a alegria de um coração jardineiro, vendo seus dias preciosos passando, sem a justa recompensa pelo trabalho prestado? E se ao aluno que ele estiver ensinando não forem dadas condições para uma educação que lhe faça crescer? Família estruturada que seja a primeira escola de amor, valores e exemplos; escola atraente e acolhedora, que não o faça “carregar o peso de um conhecimento morto que ele não consegue integrar com a vida”; sociedade que ajude para que alunos e professores não se tornem reféns do medo e da violência; poder público que não se valha do cassetete para calar a voz de professores... Olhando por esse prisma, os versos do poeta parecem surreais. Mas como tudo na vida tem mais de um lado, é bom meditar sobre a lição mais cheia de esperança, de Rubem Alves.

Na polifonia do seu texto, aquele autor vai buscar no prólogo de Zaratustra, de Nietzsche, a inspiração para mais uma palavra de sabedoria. Observa que a trajetória do sábio começa com uma meditação sobre a felicidade, nascida na solidão: “uma taça que se deixa encher com a alegria que transborda do sol.” Todavia, chegado o tempo em que a taça se enche, ela não consegue conter tudo o que recebe e anseia transbordar, tal qual a abelha que não pode guardar só para si o mel que produz, tal qual o seio intumescido da mãe, suplicando que a boca do filho o esvazie.

Compreendendo que “felicidade solitária é dolorosa”, o sábio busca uma alegria  maior, compartilhar com os outros a felicidade que nele habita, e vai em busca de mãos estendidas com quem possa partir e repartir sua riqueza interior. Nesse momento, opera-se a transformação: “Zaratustra, o sábio, transforma-se em mestre. Pois ser mestre é isto: ensinar a felicidade.”

Essa é uma das lições sobre a qual sempre reflito, que procuro aprender e ensinar em minha vida como professor. Não se trata de encobrir as mazelas de um sistema político e socioeconômico no qual o professor ainda não tem o respeito e o lugar que merece, com um discurso banhado nas águas da pieguice, quando não na torrente da demagogia. Mas quem é professor sabe que as disciplinas que ensinamos não deixam de ser formas diversas de compartilhar sabedoria, e esta só é verdadeira sabedoria quando voltada para a construção de um mundo melhor. Isso não é ensinar e aprender felicidade?

DIANTE DO ESPELHO




DIANTE DO ESPELHO, OLHAR PROFUNDO.
LENTAMENTE REVIVENDO TUDO QUE FIZ.
PROCESSO VOLUMOSO NO TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA...
VÁRIAS PRELIMINARES SUSCITADAS NESTE MUNDO.
QUE NÃO FORAM RECONHECIDAS, PELA ÂNSIA DE SER FELIZ,
E OUTRAS TANTAS PELA MINHA INCOMPETÊNCIA...

RECURSOS E MAIS RECURSOS DESPROVIDOS.
AGRAVOS DE PETIÇÕES E SEGURANÇAS,
COMO SEMPRE NA VIDA FORA DOS PRAZOS...
EMBORA TODOS TENHAM SIDO RECEBIDOS.
NUMA SUCESSÃO DE MORTAS ESPERANÇAS
NOS ACÓRDÃOS DOS EMBARGOS EXARADOS...

A JUSTIÇA PÁRA, MAS A CONSCIÊNCIA ESPERA,
NÃO ADIANTA RECURSOS PROCRASTINATÓRIOS
SE O TEMPO PARA ELA NÃO SE CONTA...
SEU REGIMENTO INTERNO NÃO SE ALTERA.
DETERMINANDO SEMPRE UM PRECATÓRIO
QUE NO FUTURO ÀS VEZES DESAPONTA...

ETERNAMENTE RÉU DE UMA RAZÃO.
NA MINHA INFINITA PROPORCIONALIDADE.
LUTANDO NESTA VIDA PELO MUNDO...
DE ALGUMA MANEIRA, NÃO VIVI EM VÃO.
É EXTREMAMENTE DIFÍCIL NOS VÊ EM REALIDADE,
DIANTE DE UM ESPELHO COM UM OLHAR PROFUNDO...

QUE DEUS ABENÇOE, POR QUEM VIVO!!!

                                  André Travassos,15/06/2009.

sábado, 28 de setembro de 2013

Infringentes




Na medida do possível, procuro aprender com os mais jovens,  absorver um pouco da invejável familiaridade com o mundo virtual dos nativos digitais, conhecer seus gostos e desgostos. Com minha filha caçula, além das aulas de instagram, aprendi a gostar da oitavo andar, de Clarice Falcão. E dos muitos livros que ela tem devorado com adolescente voracidade, um me chamou à atenção pelo título: Divergente, que mostra uma sociedade dividida em cinco facções: Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição, vivendo e convivendo em conflito, e fazendo com que as escolhas definam a existência de cada um. O segundo livro da série, explicou-me ela, é Insurgente. O terceiro, disse-lhe eu, brincando, poderia ser Detergente ou, quem sabe até, Infringente, palavra esta tão falada nestes dias, por conta do julgamento dos embargos pelo Supremo Tribunal Federal, que vai fazer os onze Ministros julgarem de novo uma parte das irresignações dos acusados na ação penal apelidada de Mensalão.

Infringente vem do verbo infringir, oriundo do Latim infringo  (arremessar contra, despedaçar), e quer dizer desobedecer. Embargo é aquilo que impede, é um obstáculo. Do substantivo embargo temos o verbo embargar e o seu antônimo desembargar, que significa desembaraçar, de onde vem a palavra Desembargador, apelido pomposo dado a juiz de tribunal.

Embargos infringentes de um julgado são pedras no caminho de julgamento não unânime de um colegiado de juízes, recurso arcaico que se presta a retardar processos judiciais, contribuindo para ferir o princípio constitucional da sua razoável duração. Também não o vejo como instrumento democrático, pois democracia não é unanimidade e, às vezes, unanimidade é burra, como dizia Nelson Rodrigues.

Dizem os processualistas − não sei se unânimes, ou se desta afirmação cabem infringentes −, que  esses embargos são invenção de português − e aqui não vai nenhum tipo de preconceito contra nossos irmãos lusitanos, mas apenas uma constatação histórica. As Ordenações do Reino, a nós impostas pelos colonizadores, legaram ao nosso sistema processual um recurso instituído em decorrência da desorganização judiciária da Coroa Lusitana, mas que já foram suprimidos do direito português, sobrevivendo somente no Brasil, sem que nossos legisladores cuidassem de extingui-los.

No caso do STF, é irônico que alguns partidos, que hoje criticam a decisão pelo recebimento dos infringentes, tiveram a oportunidade de suprimi-los do regimento daquela Corte, proposta à época do Presidente Fernando Henrique, mas não o fizeram, e agora fazem média − ou mídia − com o reconhecimento de sua existência,  numa decisão aparentemente “técnica”.

Havia bons argumentos a favor e contra o reconhecimento da sobrevida dos infringentes pelo STF. Por outro lado, não há julgamento puramente técnico. Direito é filho da política, das várias forças que se digladiam nos sistemas socioeconômicos, assim como ocorre nas facções do Divergente e, no caso brasileiro, é também filho dos ventos que trouxeram nas caravelas de Cabral o direito do colonizador, que infringiu a paz e a vida dos povos indígenas, o mesmo direito que inventou os infringentes e depois os aboliu.

É certo, ainda, que toga de juiz não é capa de justiceiro, nem há tribunal no mundo que, sozinho, acabe com a corrupção no exercício do poder, do qual nasce o direito. Os infringentes, porém, podem ser suprimidos se nossos mandatários quiserem. Mas talvez nesse ponto muitos daqueles que bradam contra a decisão do STF, na hora de extingui-los legalmente do mapa, por interesses diversos, prefiram ser Divergentes, do mesmo modo que muitos de nós, quando vamos às ruas nos manifestar pelo fim da roubalheira dos cofres públicos, mas continuamos a delegar poder a representantes desonestos, não somos Detergentes, quando o assunto é tentar limpar a sujeira da corrupção nossa de cada dia.
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