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Religio

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Vida boa e feliz


Não tem sido fácil conciliar as férias da sala de audiência com as da sala de aula. Mais difícil, ainda, emparelhar o tempo livre de todos da família. Dois filhos estudando fora, uma ainda em casa, e a esposa, com dedicação exclusiva às atividades do lar, sem direito a férias regulamentares do perpétuo trabalho de mãe e dona de casa. Às vezes, porém, dá para unir o útil ao agradável. Escala de férias do Tribunal numa mão, e na outra o calendário letivo da Universidade, foi possível aceitar o convite da Escola da Magistratura do Trabalho de Alagoas. Como as aulas começavam no fim da tarde, dava para aproveitar o dia, com a esposa e a filha caçula, provando as delícias de Maceió, que ainda não conhecíamos.
           
Mais do que a encantadora Pajuçara e seus coqueirais; mais do que o lindo horizonte do mirante do Gunga; mais do que o gostoso mergulho na Praia do Francês; mais do que o filé de siri, saboreado às margens da lagoa em Massagueira; mais que tudo isso, que já foi muito bom, fomos cativados pelo carinho de quem nos acolheu. Pude comprovar, uma vez mais, que minha cabeça de juiz pode espairecer nas férias, enquanto meu coração de professor se enche de alegria ao realizar sua natureza e vocação. Quem é professor sabe bem o que digo. Por melhor que seja nosso pagamento – e os honorários do magistério em nosso país, todos sabemos, estão longe do ideal –, a felicidade de ensinar não se mede por dinheiro.
           
Numa palestra a educadores, Clóvis de Barros Filho provoca a reflexão sobre o que é uma vida boa e feliz. Fala sobre um teste de felicidade, que encontrou numa revista, com perguntas do tipo: você trabalha onde gostaria de trabalhar? Ganha quanto gostaria de ganhar? Mora onde gostaria de morar? Passa férias onde gostaria de passar? Seu cônjuge tem o aspecto físico que você gostaria que ele tivesse ou você tem o aspecto físico que gostaria de ter? Ao responder essas questões, o leitor soma os pontos e verifica seu nível de felicidade. Ele lembra, porém, que muitos famosos têm tudo isso e abreviam a vida devagar ou de uma vez só, sinal de que a pontuação máxima no teste não garante felicidade a ninguém. Mas o que torna a vida de alguém boa e feliz?
         
Platão nos diz que amar é desejar, e desejo, energia que leva alguém a procurar o que lhe falta. O problema é que a pessoa ama o que deseja, e deseja o que não tem, o que pode causar infelicidade. Depois vem Aristóteles, dizendo que felicidade é o desabrochar da natureza de quem vive. Para ser feliz o caminho é buscar o próprio aperfeiçoamento. E Jesus de Nazaré, alguns séculos depois,  ensina que só pode ser feliz quem faz o outro feliz.
           
Amor cristão não é desejo de alguém ter o que não tem. Se medimos a felicidade em ajuntar coisas, e sabemos que nunca vamos ter tudo o que desejamos, nunca alcançaremos o topo da pontuação na tabela do ser feliz. Também não basta a excelência pessoal, se ela for buscada no individualismo e na competitividade. É certo que Jesus disse para sermos perfeitos, como o Pai celeste é perfeito. Mas a perfeição divina não é de um amor carente, e sim transbordante, do Absoluto que se entrega por amor, e propõe ao ser humano a mesma entrega.
           
Vida boa e feliz, nessa proposta, é a de quem não se agarra com unhas e dentes à vida neste mundo como se fosse um bem definitivo, pois sabe que não adianta colocar o coração nos tesouros que perecem. É a vida de quem procura se parecer com o Mestre, não no aspecto físico desejado, mas assumindo o mandamento do amor, como dom de si mesmo, mudando a forma de pensar e agir, para superar a mentalidade do mundo e buscar as verdadeiras prioridades da vida.
           
O chamado para essa vida nos retira da zona de conforto, mas nos leva do mundo das possibilidades finitas para o das possibilidades infinitas. É a busca dessa vida que me permite aprender e ensinar na escola do amor cotidiano da família, na prática da vida de juiz, procurando fazer da toga um manto da justiça possível, na formação acadêmica de tantos alunos ao longo da minha vida de professor, e nas escolas de formação missionária, sementes de luz divina, plantadas em várias comunidades de nossa diocese. E como ninguém é de ferro, também me permitiu conciliar lazer, trabalho e prazer, nos dias que passamos na acolhedora Maceió.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Nem Freud explica


           

Meu pai nasceu anos antes da Grande Depressão.  Alfabetizou-se com o próprio pai, meu avô Epifanio, de quem não me foi dado conhecer as feições nem por fotografia, e cujo sobrenome Figueiredo não perdurou na descendência, o que me lembra o comentário de um amigo, de que existem pessoas que se gabam de ser de família tradicional, mesmo conhecendo muito pouco sua genealogia.  O certo é que meu pai ficou órfão aos doze anos, quando saiu de casa para trabalhar na portaria de um seminário na capital, tendo enfrentando muita dificuldade em sua vida. Como professor de história, ele falava sobre os efeitos da Grande Depressão no mundo e no Brasil.  Dizia que o governo queimou toneladas de café, para manter o preço da nossa principal riqueza, tentando diminuir os efeitos negativos da crise iniciada em 1929, ano em que Freud escreveu o mal-estar na civilização.
            
Na opinião daquele autor, a grande questão da humanidade é saber se a evolução cultural pode conter as perturbações da vida em sociedade, provocadas pelos instintos humanos de violência e destruição. Já naquela época, Freud observava que nós tínhamos atingido um controle tamanho das forças da natureza, que não era difícil usá-las para exterminar a humanidade. E da consciência dessa capacidade de autodestruição decorreria grande parte dos nossos medos e infelicidades.

“Freud explica” é um lugar-comum bastante utilizado no dia a dia. Foi parar até no chão de giz de Zé Ramalho. Contudo, como perspicaz mestre da suspeita, mais do que explicar, Freud pode chacoalhar pretensas certezas, que professamos como se fossem verdades de alicerces profundos, mas que não resistem aos menores abalos vindos do epicentro da razão.
            
No início do livro, ele diz ser difícil escaparmos à impressão de que as pessoas se valem de falsas medidas, buscam poder, sucesso e riqueza, e veneram quem os têm, subestimando os autênticos valores da vida. Mas em vez de procurar respostas instantâneas para as questões postas,  a abordagem é um convite para sondar a complexidade dos seres humanos, a incoerência entre  suas ideias e atos, a diversidade de seus desejos.
            
Para o autor, a busca da felicidade é um projeto irrealizável. Mais fácil é experimentar a infelicidade, com seus três lados a nos rondar: nosso corpo, condenado à velhice e morte; as forças inexoráveis e destruidoras da natureza; e as relações humanas, cujas normas de regulação têm sido precárias para garantir uma vida feliz para todos.
            
Mesmo assim, muitos buscam a felicidade por vários caminhos. No prazer imediato do tóxico, felicidade química presente no consumo de drogas lícitas e ilícitas. Ouvi de um médico que nas populações carentes cresce assustadoramente a procura por remédio controlado,  a ponto de ter ele de reservar boa parte do expediente para receitá-las, com receio da reação de pacientes. Também podemos sublimar o prazer no trabalho, na felicidade estética da fruição da arte, ou dando as costas ao mundo real para viver solitário no mundo virtual.
            
Nada disso, porém, garante felicidade que dure. Para Freud, aquilo que chamamos felicidade no sentido mais estrito vem da satisfação repentina de necessidades represadas, o que se alcança apenas no efêmero. Quando se alcança o objeto do desejo, a felicidade se torna um morno bem-estar. Nessa perspectiva, nem a experiência religiosa escapa. Marcada pelo infantilismo psíquico e delírio da massa que busca apenas bem-estar interior, esse tipo de religião não conduz à felicidade duradoura, que não pode se sustentar na alienação. Todavia, lembro que o exercício livre e honesto da razão nos induz a suspeitar também do pensamento de um mestre da suspeita, embora ele seja importante para nos tirar da zona de conforto das ilusões que tomamos por verdades.
            
Lendo o que foi escrito por Freud na época da Grande Depressão, fico imaginando o que ele diria se presenciasse o atual mal-estar de nossa civilização. O Presidente da maior potência mundial, eleito após atiçar fagulhas do discurso do ódio; seres humanos sem lar e sem pátria, buscando migalhas nos banquetes da civilização do primeiro mundo; seres humanos encarcerados, decapitando seus semelhantes, enquanto instituições e normas de um Estado que se diz democrático quedam-se impotentes para vigiar e punir com justiça.
            
Por essas e outras, às vezes me bate a tentação de desacreditar no futuro. Mas quando penso no exemplo de pessoas como meu pai e meu avô, que lutaram tentando fazer do mundo um lugar que possibilite a todos buscar seus caminhos para a felicidade, termino me convencendo de que não tenho direito de espalhar desesperança. Apesar de concordar que a fragilidade do corpo, a prepotência da natureza e a insuficiência das instituições e normas são causas de infelicidade, ainda assim penso ser possível dar um sentido a nossas vidas. E isso, data vênia, nem Freud explica.


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