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Religio

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Votar, vigiar e orar

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Desde jovem gosto de votar. Senti-me o máximo quando completei a idade para fazer o título, que ainda trazia a foto do eleitor. Tinha candidato que não gostava daquele modelo de documento, pois se tirar o título era de graça, tirar o retrato não era, e o dinheirinho para esse fim às vezes fazia parte do kit para angariar o voto.

Lembro, como se fosse hoje, da primeira vez que votei. Campanha para prefeito, no tempo da sublegenda. Dois candidatos do mesmo partido, os votos de um contavam para o outro. Meu pai foi o um. O partido ganhou, ele perdeu. Mas ainda hoje sinto-me feliz por ter votado num homem bom.

Na eleição seguinte, meu voto foi um dos milhões de fragmentos do poder constituinte. Aqueles homens e mulheres – muito mais eles do que elas, pois entre os quase seiscentos contavam-se apenas vinte e seis deputadas e nenhuma senadora – receberam de nós o poder para, junto com os senadores eleitos no pleito anterior, fiarem o novo tecido constitucional de uma sociedade sedenta por direitos, democracia e justiça.

Em duas campanhas posteriores tive a chance de votar em mim mesmo, o que não deixa de ter um gostinho especial. Em número de votos, perdi feio as duas eleições, e a segunda foi trágica. Não porque perdi uma eleição para vereador, afinal, não ter sido eleito não me fez um derrotado, mas por termos perdido meu pai, candidato a vice, em plena campanha eleitoral.

Depois disso me afastei da política partidária. Eu já era servidor concursado do TRT, o que não me proibia de tentar a carreira política. Mas um ano depois de ter sido reprovado nas urnas, fui aprovado no concurso de juiz, e a Lei Maior, para a qual contribuí com meu fragmento de poder constituinte, afasta do magistrado o cálice da política partidária, para garantir-lhe independência judicial. Mas o fato de ser tirada de mim a degustação pública da política partidária nunca me tirou o apetite de votar.

Como cidadão, sinto no voto um sabor especial de festa democrática. Claro que democracia não se reduz a escolher um representante para chamar de seu. Mas, por meio do voto, o cidadão eleitor pode fazer valer a força que tem. É pelo voto direito e secreto de todos, com igual valor, que se exerce a soberania popular, como diz o texto da Constituição. Quando o assunto é votar, esta não faz distinção entre homem e mulher, empregado e patrão, pobre e rico, pois nesse banquete não deve haver excluídos, como havia no passado.

Houve um tempo, no Brasil, em que mulheres e pobres não podiam participar dessa festa. Só podiam votar os chamados “homens bons”, nobres, burocratas, senhores de engenho, homens de posse, mesmo que fossem analfabetos. Quando não era secreto, havia o voto de cabresto, que não expressava a vontade do eleitor, mas de quem o dominava. Na democracia de então, era comum eleição fraudada, com gente morta votando.

Hoje muita coisa mudou. Além de todos serem convidados para a festa da votação, há mais liberdade, facilidade e acesso à informação. Nada disso, porém, garante uma boa escolha, se o eleitor vende seu voto, escolhe só por simpatia, paixão ou interesse pessoal, sem pensar no bem do povo. Falamos mal dos políticos, mas quem dá poder a eles? Nem o dinheiro que corrompe, nem a promessa que engana devem engolir a vontade popular.

Não tenho ilusões sobre democracia humana perfeita, que nunca existiu, nem há de existir. Mas ainda que imperfeita, é nela que se depositam os sonhos de um governo em que o soberano deve ser o povo, a lei deve ser igual para todos, e o voto universal, direto, secreto e igualitário é uma espécie de senha que dá direito a todo e qualquer cidadão eleitor entrar em pé de igualdade no banquete eleitoral.

Por isso, apesar das desilusões com a politicagem, decepções com alguns políticos e aparente falta de boas opções de escolha, esta deve ser feita pelo voto consciente, livre de qualquer dominação. Depois é preciso vigiar a atuação daqueles a quem damos o poder, exigir que prestem conta dos compromissos assumidos, sem deixar de orar a Deus pelo povo e por seus condutores, como ordena a 
Sagrada Escritura. Afinal, se no preâmbulo da Carta Magna, os representantes do povo, para instituir um estado democrático, fundado nos valores supremos de uma sociedade fraterna, suplicam a proteção divina para promulgarem a Constituição, é somente Deus que, em seu amor verdadeiramente democrático, faz nascer o sol para todos, bons e maus, e faz cair a chuva sobre justos e injustos.

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