Quando meu pai, em 21 de abril de 1986, completou sessenta anos, dei a ele o
livro “Assim morreu Tancredo”, com esta dedicatória:
“Papai.
Faz um ano que morreu um homem que, por sua dedicação à pátria, tornou-se imortal.
E hoje é aniversário de um homem que, por seu amor aos filhos, já é imortal.
Feliz aniversário.”
O livro traz o depoimento de Antônio Britto, escolhido para Secretário de Imprensa e Divulgação do Governo, ao repórter Luís Cláudio Cunha, sobre a “dor e a agonia dos últimos 38 dias de vida do Presidente Tancredo Neves.” Tocar aquelas folhas, com frases sublinhadas a grafite por meu pai, e uma folhinha do Sagrado Coração improvisada como marca página, leva-me a refletir sobre o legado de Tancredo Neves e a esperança da construção de uma Nova República, por tantos sonhada, inclusive por mim e por meu pai.
Em abril do ano seguinte, em vez das Diretas,
veio a frustração. Com a “Emenda Dante Oliveira” derrotada no Congresso, o
jeito era deixar que o Colégio Eleitoral votasse por nós. Mesmo assim, como
fruto da negociação política nos limites do que então se permitia, assistimos
no ínicio de 85, à última eleição indireta de um Presidente da República que,
naquele momento, representava a utopia possível e concreta. Na véspera da
posse, porém, veio a notícia da doença. Depois, as seguidas cirurgias, a
agonia, até a morte anunciada em 21 de abril. Era um domingo à noite, e após o
Fantástico, o hino nacional, entoado por Fafá de Belém, fazia-se ouvir em todo
o país, na mesma voz que embalara a peregrinação do Menestrel das Alagoas.
Aquele Presidente, que “fez e não viu a Nova República”, não chegou a nos
governar, mas nos deixou um legado. Lembro que em janeiro de 1988, quando me
foi dada, mais uma vez, a honra de falar em nome de nossa turma, desta feita na
formatura de Direito, de novo me reportei à crise econômica, política, moral e
institucional reinante à época. Mas como palavra de ânimo, invoquei o
pensamento de Tancredo Neves, para quem “a esperança é o único patrimônio dos
deserdados, e é a ela que recorrem as Nações, ao ressurgirem dos desastres
históricos.”
Vivemos mais uma crise econômica e política, alimentada pela crise moral de
alguns dirigentes da República. Um governo de coalização quebrou-se em duas
bandas. Cada uma, sem a humildade e a sabedoria da autocrítica, acusa a outra
de ser a banda podre, quando a corrupção estava entranhada no núcleo desse
casamento político, desfeito com ares e xingamentos de um divórcio litigioso.
Mãos que até ontem se afagavam, e juntas saqueavam nossas economias – afinal,
corrupção não é crime que se pratique sozinho –, apedrejam-se sem medir as
consequências dos seus atos para o futuro da nação.
Não deixemos que a crise se transforme num desastre histórico. Que ela seja
tempo propício para aperfeiçoamento da República com que sonhamos. Para que
desta crise possa nascer um futuro melhor para nosso povo, é preciso combater o
discurso do ódio e a prática da intolerância, com os quais não se pode falar em
“repactuação” ou “ponte para o futuro.” Que se respeitem as instituições
democráticas, pois sem elas não há governo do povo. Que as conquistas sociais
sejam não só mantidas, mas que a desigualdade social diminua, pois já se sabe
que, nos últimos anos, para os pobres se tornarem menos pobres, os ricos
tornaram-se ainda mais ricos. Só assim, a esperança, patrimônio dos deserdados,
não será uma palavra vazia, mas a prática de uma utopia possível e concreta, a
antecipação de um “dever ser” que pode se tornar realidade a cada dia, apesar
da crise que o país vivencia.
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