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Religio

sábado, 2 de abril de 2016

Sob o céu do Planalto


           
Comemorávamos o Ano Internacional da Criança. Entre as comemorações, a Liga da Defesa Nacional (LDN) realizou a Caravana de Integração Nacional. A Liga, que até então eu nem sabia que existia, tinha sido fundada em 1916 por Olavo Bilac. Seu estatuto listava, entre as finalidades, manter a ideia de coesão nacional, propagar a educação popular, difundir o amor à justiça e o culto ao patriotismo. E naquele ano, a LDN achou por bem premiar um “estudante símbolo” de cada cidade do Brasil, de preferência de escola pública e com maior média de aprovação final no ano anterior, com uma viagem de estudos a Brasília. O tal estudante símbolo acabou sendo eu, e a  viagem de estudos foi, na verdade, para prestigiar a posse do Presidente Figueiredo.
             
Quando soube da novidade, minha mãe ficou preocupada. Eu tinha quase dezesseis anos, mas nunca viajado para tão longe. No ônibus, conosco, iria o professor Balbino, que nos ensinava história na secção do Colégio Estadual. Conhecido por sua visão crítica, sua presença na caravana seria um contraponto a eventual ufanismo propagado no evento. Mas a preocupação de minha mãe, naquela hora, não era com patriotismo nem segurança nacional, e sim com a segurança do filho. Por isso, quando Balbino foi lá em casa, falar sobre a viagem, ela o submeteu quase a um interrogatório.
             
Saímos de João Pessoa na sexta depois do jantar e chegamos a Brasília na segunda à noite. Na quinta, dia da posse, ficamos na Esplanada, acenando bandeiras e vendo, de longe, o Presidente saudar os populares do parlatório. À tarde, num show com artistas da TV e cantores, o general Presidente falou da confiança depositada nos jovens de todo o Brasil, ali representados. A volta para casa, no dia seguinte, foi depois do almoço e das condecorações. Cada um recebeu uma medalha da LDN. Cheguei em casa no final da manhã da segunda. Trazia comigo muitas lembranças do que meus olhos tinham contemplado, especialmente do céu de Brasília, inspiração de músicos e poetas, que alguns defendem seja tombado como paisagem cultural brasileira. Era 19 de março de 1979, dia de São José e do aniversário de minha irmã.
            
Naquele ano, o assunto do momento era a abertura política. Na posse, o Presidente fez questão de enfatizar o propósito inabalável de fazer do país uma democracia. A gente  sabia, porém, que não se faz democracia por decreto, e que aquele tempo, como diz a canção de Chico, era uma página infeliz da nossa história. Nas sombras do poder  autoritário, a pátria mãe era subtraída em tenebrosas transações. Mas apesar de distraída, ela via a mobilização de seus filhos para iluminar o caminho de volta à normalidade democrática. A Lei da Anistia, que sempre me lembra Simone cantando “tô voltando”, foi aprovada já no primeiro ano do mandato do general Presidente.
            
De lá para cá outras luzes se acenderam. Temos hoje uma democracia que se constrói com negociações e conflitos, punhos cerrados e apertos de mão. Como reino imperfeitamente humano, dela não se pode esperar que seja um mundo apenas de claridades, pois a humana condição é feita de sombras e luzes. Mas nesse mundo imperfeito, as relações entre os filhos da pátria precisa de uma pauta mínima de convivência, com respeito às diferenças, com formas de resolver conflitos dentro da normalidade democrática. Nesta, se a lei não é o “pau que dá em Chico e em Francisco”, pois hoje nem no gato atiramos o pau, ela deve ser a soberana de um império em que não se admite ninguém acima dela.
            
Passados quase quarenta anos da caravana, e viradas algumas páginas infelizes de nossa história, ainda pairam nuvens carregadas nos céus do Planalto, que a todos nós envolve. Tenebrosas transações continuam a ser feitas, subtraindo nossa pátria mãe, talvez menos distraída. Como um dos seus filhos, penso  que não é bom para ninguém transformar os conflitos saudáveis de um ambiente democrático em ódio visceral por quem pensa diferente. Não é boa para ninguém a polarização maniqueísta e personalista que vivemos ultimamente. De um lado quem se comporta como devoto de um semideus, do outro, quem personifica a justiça numa espécie de vingador de toga. No reino imperfeito da democracia convivem as mais diversas formas de agir e de pensar, até de jararacas de distintas colorações, e de lobos em peles de cordeiro, de ideologias várias. Mas não deve ser um reino do vale-tudo, de fins justificando meios, do salve-se quem puder. Nela o importante é que a lei esteja acima de todos, não para esmagar a cabeça das jararacas, mas para tratá-las como merecem ser tratadas, tampouco para arrancar a pele dos lobos, mas retirar-lhes o disfarce de cordeiro. Que tenebrosas transações saiam das sombras para a luz, e nada se resolva com violência ou arbitrariedade. Isto sim, pode aperfeiçoar nossa democracia, que embora jamais chegue a ser de um azul sem manchas como o céu do Planalto Central, é a única que temos, e é dela que devemos cuidar.

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