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Religio

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ESTAMIRA EM TODO CANTO




Nossa rua ainda é sossegada. As calçadas, diferentes de outras no centro da cidade, não são esbulhadas pela mercantilice – formal ou informal e impune à fiscalização –,  o que permite que elas cumpram não apenas a função social de tráfego de pedestres, mas a  conversa com os vizinhos, nas noites agradáveis de verão.

Numa dessas noites, comentávamos o caso de uma menina, de comportamento um tanto agressivo (não sei se devido a pertubações mentais) que, para deixar de importunar outras pessoas, tinha sido colocada num depósito de lixo. No meio da conversa, um vizinho, em tom de brincadeira, perguntou se a solução para o problema não seria ele ou eu adotar a menina.

 Aquela pergunta, feita de maneira despretensiosa por um amigo que irradia bom humor, pode provocar reflexão bem mais profunda do que muitos filosofismos de happy hour de calçada: o que estamos fazendo – eu e você – para adotar a causa das pessoas que tratamos como estorvo na sociedade? Pensando sobre a questão, lembrei-me de Estamira.

Rotulada de louca por parentes e pela Medicina, Estamira virou protagonista de documentário de sucesso, filme de estreia do fotógrafo Marcos Prado como diretor de cinema, que foi premiado aqui e alhures. Nele podemos ver e ouvir a contundência da vida e das filosofices – para muitos, maluquices – de uma mulher sexagenária, que encontra no lixão a possibilidade não apenas de sobreviver, mas de se sentir feliz, e que contrapõe sua manifesta sandice à nossa presunçosa lucidez.

Vindas do meio do lixo para as telas do cinema, muitas falas de Estamira, entrecortadas por xingamentos contra Deus e os “espertos ao contrário”,  ganham projeção bem maior do que os discursos daqueles que tachamos de loucos e deixamos falando sozinhos. Isso aqui, diz ela falando sobre o lixão, “é um depósito de restos e de descuidos... quem revelou o homem como único condicional ensinou ele conservar as coisas e conservar as coisas é proteger, lavar, limpar... quem revelou  o homem como único condicional não ensinou trair, não ensinou humilhar, não ensinou tirar, ensinou ajudar... sou louca, sou doida, sou maluca, sou azogada, porém lúcido, consciente e sentimentalmente... a minha missão é revelar... eu não estou orientando, nem quero orientar, estou alertando... eu nunca tive aquela coisa que eu sou, sorte boa... tudo que é imaginário tem, existe, é...”

Alguns anos após o sucesso do filme,  Estamira morreu. Chegava ao fim a história de uma vida atribulada: sofrimento devido à doença mental da mãe; abandono de quem, em vez de lhe dar o devido cuidado, jogou-a num prostíbulo aos doze anos de idade; traição e maus tratos dos companheiros; violência do estupro, mesmo ante o apelo de que o estuprador não fizesse aquilo pelo amor de Deus; espancamento para externar, à força, a fé nesse mesmo Deus; o filho que acha que as alucinações da mãe são possessões demoníacas; a filha mais nova, criada por mãe postiça, que tem dúvida se teria ficado mais feliz ao lado de Estamira; tudo isso teve ter contribuído para que a cabeça daquela mulher ficasse “parecendo um copo cheio de sonrisal”.

A insanidade de Estamira, diz Arnaldo Jabor, é uma “linguagem de defesa diante de um mundo mais louco que ela. A sua loucura é a narração de uma sabedoria torta, de uma anomalia que a salva de uma realidade, esta sim, terrivelmente insana.”
            
Nessa realidade, exorcizamos não apenas possessão demoníaca, mas a centelha de fé e amor do coração das pessoas;  dopamos alienados e alienamos a lucidez; convivemos bem com o lixo debaixo do tapete da nossa consciência de “cidadãos impecáveis” e nos livramos de pessoas como se descartam objetos no lixo. Nessa realidade insana, a exemplo do que diz a protagonista do filme, Estamira está em tudo quanto é canto.

2 comentários:

Joel Cavalcante disse...

'Nessa realidade, exorcizamos não apenas possessão demoníaca, mas a centelha de fé e amor do coração das pessoas; dopamos alienados e alienamos a lucidez; convivemos bem com o lixo debaixo do tapete da nossa consciência de “cidadãos impecáveis” e nos livramos de pessoas como se descartam objetos no lixo. Nessa realidade insana, a exemplo do que diz a protagonista do filme, Estamira está em tudo quanto é canto.'

Perfeito professor!

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, Joel. Um abraço.

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