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Religio

domingo, 20 de março de 2011

As maxilas da hiena e o coração de mãe


Diz o Eclesiastes que há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu: tempo de nascer e de morrer, de plantar e de colher, de matar e de sarar, de destruir e construir, de chorar e de sorrir, de gemer e de dançar, de atirar pedras e de ajuntá-las, de abraçar e de se separar, de buscar e de perder, de guardar e de jogar fora, de rasgar e de costurar, de calar e de falar, de amar e de odiar, tempo de guerra e tempo de paz. Diz em acréscimo o Livro Sagrado:

Observei as tarefas que Deus impôs aos homens, para com elas se ocuparem. As coisas que ele fez são todas boas no momento oportuno. Além disso, ele dispôs que fossem permanentes, mas sem que o homem chegue a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza. E compreendi que não há outra felicidade para o homem senão alegrar-se e assim alcançar a felicidade durante a vida.

Para alcançar essa felicidade, ensinam alguns comentaristas da Sagrada Escritura, o ser humano tem de vencer duas grandes tentações: a de possuir mais e mais coisas, sem qualquer limite, e a de tentar descobrir, sem qualquer limite, o último sentido de todas as coisas. Só assim o ser humano poderá agradar a Deus, recebendo a bênção da vida simples, que é antes de tudo, sensatez e alegria.

Mas, sejamos francos. Não é fácil falar em vida simples, sensatez e alegria, quando cuidamos de agradar somente os deuses da opulência e do consumismo. Se cada criança estadunidense continuar consumindo, em média, o que consomem cinquenta crianças da Índia, conforme estimativas publicadas há algum tempo atrás, cada vez mais ficará patente que, antes do problema demográfico, crucial mesmo é a desigualdade nos padrões de consumo e na apropriação dos recursos naturais do planeta. E as raízes históricas dessa desigualdade são as mesmas que podem explicar não apenas as diferenças nos padrões de consumo das crianças estadunidenses e indianas, mas o atual nível de pobreza no mundo.

Talvez nessas raízes históricas também possamos encontrar alguma explicação para outro aspecto do atestado de incompetência de nossa civilização: o de não resolver seus conflitos senão através do morticínio, o que nos faz lembrar as palavras de Monteiro Lobato, para quem os governantes dos povos são incapazes doutra filosofia que não seja a das maxilas da hiena. Eles perpetuam as guerras, e, com isso, quase sempre são elevados à condição de semideuses. E com eles, como diz Lobato, “poetas, pensadores, generais, a indústria, o comércio, a imprensa, todos, todos e tudo — fora as mães — zelam, como vestais, para que não se extinga o fogo sagrado do Ódio.”

Ainda bem que a filosofia das maxilas da hiena, apesar de predominar na mente dos condutores dos povos, não conseguiu eliminar do mundo as verdadeiras mães, que são vestais do fogo sagrado do Amor. Pois este é o único fogo capaz de gerar em cada um de nós um coração de mãe.

2 comentários:

Joel Cavalcante disse...

Consumir, consumir, consumir... Característica típica dessa pós-modernidade que tanto me encanta quando me causa ojeriza. A igreja foi trocada pelo shopping Center. Lembrei da última campanha presidencial. A prova de que o Brasil estava melhor, tinha mudado, tinha avançado muito mais do que no tempo dos tucanos, era o aumento do poder de compra das camadas populares. E passava imagens de homens e mulheres com geladeira, TV, vários eletrodomésticos antes reservados apenas a elite. O poder de consumo aumentou tanto que as pessoas comuns estão comprando carros, motos... A propósito, segundo um jornalista do Sul, esse é o motivo do aumento do número de acidentes de trânsito. Os pobres dirigindo... Claro que como simpatizante, às vezes fanático, do atual governo, esses números que comprovam a ampliação do poder de consumo das classes populares, a subida à classe média de milhões de brasileiros, muito me alegra. Contudo, penso e repenso: será que a felicidade de um povo é medida pelo seu poder de compra? Se isso fosse verdade, os Estados Unidos não deveriam ter um número considerável de suicídios, de pessoas estressadas... E o que falar os jovens que entram em escolas, faculdades, lojas americanas e disparam contra as pessoas matando umas e ferindo outras? Esse é um fenômeno tipicamente americano. Apesar de ocorrer em outras partes do mundo, em nenhum lugar existem tantas ocorrências quanto lá. O país símbolo do capitalismo, do consumismo carregar esses fatos é no mínimo paradoxal. Para finalizar, lembrei de um trecho cantado por Ana Carolina e Seu Jorge. “A vida tão simples é boa, quase sempre.”

Antônio Cavalcante disse...

Quase sempre, amigo Joel.

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