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Religio

sábado, 8 de outubro de 2011

Palavras humanas, Palavra de Deus

São Jerônimo (Caravaggio).

S. Jerônimo é padroeiro dos tradutores, bibliotecários e secretárias.


Acordar, rezar e twittar, eis um pouco da minha rotina no começo das manhãs. Um parêntese: o certo é twittar ou tuitar? Li opiniões de professores que divergem sobre o assunto, mas concordam que só daqui a algum tempo saberemos qual a forma escolhida pelos usuários e produtores da língua, o que me faz lembrar Guimarães Rosa: pão ou pães é questão de opiniães... Mas como eu vinha dizendo, o twitter matinal incorporou-se à minha rotina (ou vice-versa). No limite dos 140 caracteres, compartilho mensagens bíblicas em Português e Francês. E antes que alguém me pergunte o porquê do Francês, eu explico.

Só agora, na idade madura, pude retomar o estudo da primeira língua estrangeira que estudei, na quinta série do Colégio da Luz, com o professor Edgardo Júlio. Não me lembro o nome do livro, mas não me esqueço da folhinha de cartão, com janelinhas cobrindo o texto, para que repetíssemos as frases vendo apenas as ilustrações. Depois o Francês foi expulso do colégio. Vieram, então, as aulas de Inglês, com o bom humor do professor Vicentão e a elegância da professora Madalena. Mas o interesse pelo Inglês, que me fez chegar a dar aulas no antigo C.C.A.A, não diminuiu minha inclinação pela francofonia. Lembro que um dos primeiros LPs que comprei, na antiga Musical, foi o disc d’or de Gilbert Bécaud, do qual não me cansava de ouvir L’important c’est la rose. Estas recordações, que no twitter cairiam bem na #guarabiradasantigas, aqui tentam explicar minha francofilia e a razão das aludidas mensagens, que me ajudam na apreensão do idioma que me fascina desde a adolescência, e na contemplação do mistério que me seduz desde que me entendo por gente.

Deus é mistério que se revela aos homens também por meio das palavras. Para revelar-se, Ele se vale da linguagem que os seres humanos são capazes de compreender, com as fraquezas e riquezas próprias das palavras humanas. Além disso, a compreensão humana se dá na diversidade linguística, que imagino não ter grande valia no céu. Pois no Paraíso não deve haver línguas oficiais, nem necessidade das falas de Deus serem legendadas em Português ou Francês. Seja como for, o certo é que, como lembra a Dei Verbum, por causa do seu muito amor, Deus se revela na história humana falando aos homens como a amigos, para convidá-los a estar com Ele no seu convívio. E essa revelação tem sido narrada em inúmeras línguas e culturas.

Do diálogo amoroso entre Deus e os homens formou-se uma tradição oral sobre as maravilhas de Deus na vida do povo, e cresceu a consciência deste de que era imperativo repassar a sabedoria divina guardada na memória coletiva. Como diz o salmista (Sl 78,3-7): “o que nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos a seus filhos, nós o contaremos à geração seguinte: os louvores de Iahweh e seu poder, e as maravilhas que realizou; ele firmou um testemunho em Jacó e colocou uma lei em Israel, ordenando a nossos pais que os transmitissem aos seus filhos, para que ponham em Deus sua confiança, não se esqueçam dos feitos de Deus e observem seus mandamentos.”

A Bíblia surgiu, então, como memória escrita dessa longa tradição oral. Na verdade, “surgiu” nem é a palavra mais adequada para dizer do processo de produção dos textos sagrados, escritos durante centenas de anos, por diversos redatores (fala-se em cerca de quarenta), geralmente desconhecidos, mas inspirados por Deus, o verdadeiro autor das Escrituras. Não que os textos sagrados tenham sido psicografados ou ditados diretamente por um anjo, mas foram inspirados por terem sido produzidos sob a ação do Espírito Santo, do mesmo sopro divino que nos torna mais do que a argila primordial da qual fomos modelados.

Os originais dos textos bíblicos, escritos sobre papiros e pergaminhos, em hebraico, grego e aramaico, perderam-se no tempo. Mas o trabalho inestimável de copistas, tradutores e exegetas, como São Jerônimo, cuja festa se celebra no mês de setembro (por isso escolhido como mês da Bíblia), permite-nos chegar o mais próximo possível das palavras contidas naqueles manuscritos. E mesmo que haja divergências, aqui e acolá, quanto às palavras humanas das diversas cópias e traduções ─ o que é natural, pois as palavras não nascem amarradas, como diz o poeta Drummond, e toda tradução tem um quê de traição ─, o essencial é termos consciência do que nos ensina o escritor sagrado (2Tm 3,16-17): “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra.”

Materializada em palavras humanas, a Bíblia é Palavra de Deus. Por isso, quer seja proclamada nos templos, lida no silêncio do quarto ou compartilhada no twitter; quer seja decifrada em Português, Francês ou em qualquer outra língua, o importante é que a Palavra chegue aos nossos corações e transforme nossas vidas, fazendo-nos aceitar o chamado para entrar em comunhão com o Amor Absoluto, única via para a bem-aventurança.

4 comentários:

Levi Bronzeado disse...

”...o que é natural, pois as palavras não nascem amarradas, como diz o poeta Drummond...”,

Realmente, as palavras registradas na Bíblia não nasceram para ficar amarradas como algo fixo ou imutável. O segredo reside em imprimir alma às letras, como faziam os antigos escribas. Quando assim o fazemos podemos colher significações ricas e insólitas.

Parabéns pelo texto. Ele nos leva a refletir mais sobre o verdadeiro sentido das escrituras sagradas, que sempre caminhou e vai continuar caminhado de modo contrário ao dos consumidores modernos que, ansiosos, se guiam pela velha fórmula anticristã do “eu sou = o que tenho e o que consumo” .

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, Dr. Levi. Um comentário seu é para mim motivo de honra, pois sou um admirador de seus textos, tão ricos e tão bem escritos.

Ana Luisa disse...

"(...) o importante é que a Palavra chegue aos nossos corações e transforme nossas vidas"...

Maravilhoso texto Dr Antônio, na verdade é um grande prazer ler suas postagens, assim como é um privilégio assistir suas enriquecedoras aulas.

Ana Luísa Vasconcelos

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado Ana Luísa. Sinto-me feliz e honrado no convívio com vocês. Abraços.

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