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Religio

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Alfinetes



Imagine que um certo número de operários, trabalhando 8 horas por dia, produz todos os alfinetes que o mundo precisa. Inventa-se, então, uma máquina capaz de dobrar a produção sem aumento de mão-de-obra nem da jornada de trabalho. Porém, o mundo não precisa de mais alfinetes, nem compensa estocá-los em razão da queda dos preços (pois alfinete já é troço tão barato!). Que fazer numa situação dessas?

Eis a questão posta por Bertrand Russell, num dos artigos publicados sob o título O Elogio ao Ócio. Russell, como se sabe, além de escritor famoso (prêmio Nobel de Literatura em 1950), era filósofo e matemático. O Elogio ao ócio, por sua vez, foi retomado, como objeto de reflexão, por Domenico De Masi, que defende mundo afora o chamado ócio criativo.

O ócio criativo não é apologia da indolência ou da inatividade (que fecundidade há, por exemplo, na situação de um desempregado, forçado a ficar em casa encangando grilo?). Longe disso, De Masi constata que a automação vem possibilitando ao ser humano livrar-se do trabalho pesado e repetitivo, transformando em realidade o sonho profético de Aristóteles, segundo o qual se cada instrumento pudesse, a uma ordem dada, trabalhar por si, se as lançadeiras tecessem sozinhas, se o arco tocasse sozinho a cítara, os empreendedores não iriam precisar mais de operários.

Todavia, os grilhões que nos prendem ao reino do labor não podem ser quebrados só pela automação, pois deitam raízes na ideologia do trabalho, presente, por exemplo, na fábula da cigarra e da formiga; ideologia tão forte que nos deixa sem saber o que fazer com o tempo livre, normalmente associado a tédio e desperdício, já que “tempo é dinheiro” e “dia útil”, só aquele em que se trabalha, chegando ao cúmulo de ver-se desonra no descanso e na contemplação. Nietzsche, a esse respeito, alfinetava: “tem-se vergonha do repouso, a meditação mais demorada causa remorso. Reflete-se com o relógio na mão, da mesma forma como se almoça com os olhos fixos no pregão da bolsa.”

E tudo isso nos leva a uma questão crucial, discutida por Hanna Arendt, na obra A condição humana: como será uma sociedade educada na exaltação ao trabalho, sem que haja trabalho para todos?

Para começar, bem que poderíamos levar mais a sério o ócio criativo, que, em linhas gerais, preconiza a simultaneidade entre trabalho, estudo e lazer; redistribuição do tempo, do trabalho, da riqueza, do saber e do poder; e a construção de uma nova ética, centrada em necessidades humanas fundamentais como introspecção, convívio, amizade, amor e atividades lúdicas.

A não ser que optemos pela solução ortodoxa que se tem dado ao problema da produção de alfinetes, de que fala Bertrand Russell. Este afirma que, num mundo sensato, os operários deveriam passar a trabalhar metade da jornada e aproveitar criativamente o tempo livre. Entretanto, no mundo em que vivemos, isto seria considerado uma desmoralização. Por isso a solução tem sido bem outra: mantém-se a jornada, sobram alfinetes, alguns empregadores vão à falência e 50% dos operários são demitidos. No final, a quantidade de lazer é a mesma, porém, enquanto metade dos trabalhadores fica desempregada, a outra é submetida a trabalho excessivo. Dessa forma, perpetua-se o dogma de que o inevitável lazer causará a miséria por toda a parte, em vez de ser fonte universal de felicidade. E conclui Russell: pode-se imaginar coisa mais insana?

Um comentário:

Wellington Júnior disse...

Poderíamos chamar isso de um paradoxo?
No atual sistema de trabalho,quem trabalha, geralmente trabalha muito. Quem não trabalha, não faz nada o dia inteiro.
A solução seria dividir as horas de trabalho para mais funcionários, assim mais pessoas trabalhariam e todos teriam uma atividade laboral, algum salário e boa quantidade de tempo livre.
O lado bom, como o professor falou, é que a automação faz com que o ser humano se livre do trabalho árduo e repetitivo. Mas por outro lado, só os técnicos e operadores de máquinas terão espaço no mercado de trabalho. Além dos patrões e alguns poucos especialistas, é claro.

Sendo assim, alguns dilemas surgem:
- O que fazer com os cidadãos que inevitavelmente ficarem sem trabalho devido a soberania das máquinas ou especialização excessiva das atividades laborais?
- Numa sociedade assim, dinheiro não seria o problema, pois as máquinas estariam criando bens de consumo suficiente. No entanto, os ociosos involuntários não teriam nenhum poder aquisitivo, e se o Estado os beneficiassem com amparos financeiros poderia estar incentivando a indolência e a preguiça. Sendo assim, o que o Estado teria que fazer ou como poderia agir junto a iniciativa privada para que fossem criadas vagas suficientes e adequadas para esta parcela desprezada da população?

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