Porque o amor jamais acabará.

Uma das melhores coisas da vida é encontrar com pessoas num clima de amizade. Pois é na amizade – e sobre isso estou com Aristóteles –, que se dá o encontro profundo entre os seres humanos. Você se aproxima do outro não para obter vantagem, mas para, enxergando no outro um “outro eu”, partilharem o conviver, o que torna a vida bela e boa.

Mas a partilha desses momentos não é exclusiva de encontros entre grandes amigos, feito os da canção de Oswaldo Montenegro: “Quem você mais via há dez anos atrás? Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?” Convivência pode gerar alteridade, que pode gerar empatia, que pode gerar amizade social, destacada na Fratelli Tutti, do Papa Francisco, que nos exorta para a cultura do encontro e do diálogo.

Bem jovem eu participava da Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP). Daquele tempo vieram muitas amizades. Amigos que guardo no coração, mesmo que não os veja todo dia. Daquele tempo trago lembranças de encontros de formação, que ainda hoje me ajudam a tentar compreender o mundo.

Da assiduidade nos encontros veio o convite do padre encarregado da PJMP, para eu conduzir, diante de outros jovens, uma palestra que antes era dada por ele. O tema era família. E hoje eu me pergunto o que me fez aceitar o convite, pois naquela fase da vida, que conselhos eu podia dar sobre a vida na família?

Muitos anos se passaram. Encontrei o amor que me fez deixar pai e mãe para formar nova família. Tivemos filhos, criamos filhos. Tive oportunidade de aprimorar minha formação na ciência da fé e nas coisas da Igreja. E voltei a ser convidado a falar sobre família, por outro padre que admiro e que, feito eu, deixou o interior para abraçar a missão na capital.

Procurei direcionar a palestra sobre realidade e desafios da família no rumo do tema da semana: “Família, torna-te aquilo que és!”, com o lema “o amor jamais acabará.” (1Cor 13,8). Lembrei que o tema não é novidade. Ele foi retomado da Familiaris Consortio, do Papa São João Paulo II, Exortação que vai fazer 45 anos. Mas há velhos temas que são sempre novos. Isso me faz lembrar a comparação feita pelo Mestre Jesus entre o bom conhecedor da Palavra e um dono de casa que retira de sua despensa coisas velhas e novas. E por conhecer a casa por dentro, tem condição de falar com autoridade, como o próprio Mestre, que mais do que como Doutor da Lei, falava como Doutor do Reino de Deus.

Na Familiaris Consortio, João Paulo II reflete sobre as transformações da sociedade e da cultura que afetam a família, com suas luzes e sombras. Ao mesmo tempo, convida a família a se tornar o que é, reafirmando sua identidade e missão de serviço à vida, formação de comunidade de pessoas, participação na Igreja e na sociedade, tendo o amor como princípio de força e comunhão.

Parte dessa reflexão foi resgatada pelo Papa Francisco, na Amoris Laetitia, que já fez dez anos. Na Exortação, Francisco exalta a alegria do amor na família como júbilo da Igreja. Ao mesmo tempo, trata dos desafios de pais que chegam em casa cansados, sem vontade de conversar, famílias em que não se tem mais o hábito de comer juntos, diante de uma variedade de distrações e problemas.

Apesar disso, convida-nos a um realismo paciente. Fazermos uma reflex ão honesta e realista, mas também criativa. E que a Igreja jamais deixe de expressar sua doutrina de forma clara e objetiva, mas não renuncie ao bem possível. Por isso, devemos nos alegrar com as conquistas da família, pequenas que sejam, conscientes de que, apesar das dificuldades e desafios, sua força vem da capacidade de amar e ensinar a amar.

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