Minha posse solene como desembargador foi no dia 29 de maio. Ao chegar ao gabinete, fui avisado que alguns repórteres viriam para uma coletiva de imprensa. O inesperado, porém, ocorreu com o da TV Arapuan. Ao entrar no gabinete, qual foi sua surpresa ao encontrar o antigo professor. Pois quando eu nem imaginava ser juiz, ele foi meu aluno, na Escola Estadual Maria José Miranda Burity, em Serra da Raiz.
Mas as lembranças do passado não se resumiram àquele reencontro inesperado. O arranjo de chão foi feito por André Luiz, a quem fiz especial menção, não por ser renomado florista, mas por fazer parte de nossas vidas desde meu casamento, em que ele fez até a maquiagem de minha esposa Gerley. O arranjo era prova material de que, em momentos como aquele, flores são mais do que flores.
O Tenente Edilson Alves, que veio à frente da fração da banda de música da Polícia Militar foi o último músico formado por meu tio Zé Pereira. Ele também foi aluno da escola onde estudou o repórter da Arapuan. Na época, a mãe dele era merendeira, e meu pai, além de diretor do colégio, era maestro de canto coral e da fanfarra. Por isso, enquanto a banda tocava o hino nacional e as músicas Sebastiana e Nossa Senhora, era como se eu estivesse vendo, diante de mim, meu tio no sax e meu pai na regência.
Saudando-me em nome do tribunal, o amigo desembargador achou por bem sair da fala protocolar. Inspirado na obra Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, fez um paralelo entre o Caminho de Swann e o caminho de Antônio. E nem precisou comer um bolinho madeleine mergulhado no chá para desencadear suas lembranças.
O representante do Ministério Público do Trabalho citou fragmentos do meu livro Em Honra da Pétala Intocada. E expressou certa admiração de como eu gerencio meu tempo. Não tenho receita pronta para isso. Mas um bom caminho é o proposto por Anselm Grün e Friedrich Assländer, na Administração Espiritual do Tempo. Procurar, no dia a dia, equilibrar cronos e kairós. Sem planejamento e cronômetro não se constrói a cultura. Mas a vida não se torna plena sem a inteireza no agora. Pois como teria dito John Lennon, “a vida é o que passa enquanto nos ocupamos em elaborar outros planos.”
Em nome da Associação de Magistrados, o jovem juiz também resolveu inovar. Proferiu sua fala a partir de uma enquete que fez minutos antes do início da solenidade, em que pediu para algumas pessoas me definirem com uma palavra. E todas que ele revelou foram cheias de ternura e carinho. A ele devolvo o gentleman, ele que além de cavalheiro é musicista da nova geração, que ouve a canção É preciso saber viver como sendo dos Titãs, e não de Roberto e Erasmo Carlos.
Momento mais que especial foi o discurso de minha filha. Por deferência do Presidente da OAB, ela, que é advogada e professora da UEPB, onde ensinei até me aposentar, falou em nome da Ordem. Depois de traçar um esboço histórico da advocacia e lembrar a figura do professor, como alicerce na formação dos profissionais do direito, ela falou de minha trajetória como educador, juiz, filho e irmão, marido e pai, para concluir que meu exemplo era seu maior orgulho.
Depois de ouvir aquele discurso, talvez o melhor fosse eu deixar as lágrimas de emoção falarem por mim. Mas como uma palavra precisava ser pronunciada, a tônica de minha fala foi gratidão. Como era de esperar, comecei dando graças a Deus, Senhor do agora e do sempre. E depois de agradecer a todas as pessoas que contribuíram para eu chegar onde cheguei – nas entrevistas fiz questão de repetir que aquela conquista não era um troféu que se carrega sozinho –, pedi licença para terminar lendo um cartão que recebi de minha mãe no meu aniversário de trinta e dois anos. Entre outras coisas, minha mãe diz no cartão que “é o amor, a compreensão, a capacidade de amar o nosso semelhante que nos fazem crescer e deixar marcas no nosso caminho.” Como observei na ocasião, aquelas palavras, escritas em outro contexto, para mim são uma perene lição que me ajuda a seguir na caminhada da vida.

Comentários
Postar um comentário