Todos os anos, depois da folia, nós católicos somos chamados a nos unir ao mistério de Jesus no deserto. Seguindo o exemplo do Redentor, somos convidados a privações voluntárias e exercícios espirituais para vencermos o tentador. É tempo forte de penitência, jejum e partilha fraterna.
No Brasil, desde 1961, Quaresma também é tempo de Campanha da Fraternidade. Nascida no Rio Grande do Norte por iniciativa de Dom Eugênio Sales, na época bispo auxiliar de Natal, a campanha tornou-se nacional em 1964. Para isso foi decisiva a atuação de outro bispo nordestino: Dom Hélder Câmara, então secretário-geral da CNBB.
Sobre Dom Hélder muito se fala. Seus críticos o pintam como bispo comunista, que relativizava o perigo do tentador no carnaval. Talvez por ter dito publicamente: “o carnaval é a alegria popular. [...] Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido!”
Muito da minha formação - faço questão de repetir sempre que posso -, eu devo ao tempo da Pastoral de Juventude do Meio Popular. Na época, nosso bispo era Dom Marcelo Carvalheira, colaborador de Dom Hélder. Eu, que tive a honra de conviver com Dom Marcelo, estive em eventos com Dom Hélder. Suas falas, seus gestos, sua presença, para mim sempre foram expressões de um homem de Deus.
É certo que o padre Hélder fez parte da Ação Integralista Brasileira. Mas o fato de ter sido um camisa verde, da divisa “Deus, Pátria e Família”, não faz dele um ex-fascista. Pelo que se conta, ele sempre foi muito intenso em tudo o que fazia, desde o tempo em que atuava na Legião Cearense do Trabalho, na Juventude Operária Católica e na Sindicalização Operária Feminina Católica.
Seu ativismo, porém, não o reduziu a mero militante político-ideológico. Ele era, antes de tudo, um homem de fé e de oração. Sua devoção a Nossa Senhora se reflete nos poemas que escreveu entre os anos de 1945 a 1974, reunidos na coletânea Nossa Senhora no Meu Caminho. Num deles, pede à Maria Santíssima: “Mãe, ensina-se a não discutir com o Altíssimo - a fechar os olhos e pular no escuro, repelindo os demônios que semeiam raciocínios, tanto mais falsos quanto mais lógicos, quando se está diante do mistério que desnorteia a pobre inteligência humana tão desaparelhada para ver!”
Demônios podem semear falsos raciocínios nas mais diversas lógicas, inclusive religiosas. Para identificá-los é preciso discernimento, que nas palavras de Juan Claudio Sanahuja, é “essencial nos dias de hoje para julgar com sentido cristão as realidades temporais, as situações humanas, as correntes de pensamento, as tendências da opinião pública,” para não cairmos “no fascínio do que os outros querem que pensemos e do modo como querem que ajamos.”
Não é fácil exercitar o discernimento num mundo em que reina a confusão. A receita de Juan Sanahuja passa pela humildade de saber que discernimento é graça de Deus para, seguindo os passos de Santa Teresa de Jesus, andar na verdade de Cristo, que nos permite distinguir o joio do trigo da ação moral, e requer sólida formação na doutrina católica tradicional. Mas o próprio Sanahuja, referindo-se a uma pregação do Cardeal Giacomo Biffi, na presença do Papa Bento XVI, afirma que o Cardeal, com base num romance de Soloviev, disse que o Anticristo é pacifista, ecologista e ecumenista. Uma afirmação dessas também não pode gerar confusão?
O texto da Campanha da Fraternidade deste ano tem sido criticado por católicos tradicionalistas. Há quem veja nele traços de militância político-ideológica, por louvar líderes políticos e seus programas sociais, mais do que convocar à penitência, jejum e partilha. É justo ou não esse tipo de comentário? A confusão é do texto ou da crítica? A Deus peço discernimento, para com a devida humildade, falar sobre isso noutra ocasião.
No Brasil, desde 1961, Quaresma também é tempo de Campanha da Fraternidade. Nascida no Rio Grande do Norte por iniciativa de Dom Eugênio Sales, na época bispo auxiliar de Natal, a campanha tornou-se nacional em 1964. Para isso foi decisiva a atuação de outro bispo nordestino: Dom Hélder Câmara, então secretário-geral da CNBB.
Sobre Dom Hélder muito se fala. Seus críticos o pintam como bispo comunista, que relativizava o perigo do tentador no carnaval. Talvez por ter dito publicamente: “o carnaval é a alegria popular. [...] Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido!”
Muito da minha formação - faço questão de repetir sempre que posso -, eu devo ao tempo da Pastoral de Juventude do Meio Popular. Na época, nosso bispo era Dom Marcelo Carvalheira, colaborador de Dom Hélder. Eu, que tive a honra de conviver com Dom Marcelo, estive em eventos com Dom Hélder. Suas falas, seus gestos, sua presença, para mim sempre foram expressões de um homem de Deus.
É certo que o padre Hélder fez parte da Ação Integralista Brasileira. Mas o fato de ter sido um camisa verde, da divisa “Deus, Pátria e Família”, não faz dele um ex-fascista. Pelo que se conta, ele sempre foi muito intenso em tudo o que fazia, desde o tempo em que atuava na Legião Cearense do Trabalho, na Juventude Operária Católica e na Sindicalização Operária Feminina Católica.
Seu ativismo, porém, não o reduziu a mero militante político-ideológico. Ele era, antes de tudo, um homem de fé e de oração. Sua devoção a Nossa Senhora se reflete nos poemas que escreveu entre os anos de 1945 a 1974, reunidos na coletânea Nossa Senhora no Meu Caminho. Num deles, pede à Maria Santíssima: “Mãe, ensina-se a não discutir com o Altíssimo - a fechar os olhos e pular no escuro, repelindo os demônios que semeiam raciocínios, tanto mais falsos quanto mais lógicos, quando se está diante do mistério que desnorteia a pobre inteligência humana tão desaparelhada para ver!”
Demônios podem semear falsos raciocínios nas mais diversas lógicas, inclusive religiosas. Para identificá-los é preciso discernimento, que nas palavras de Juan Claudio Sanahuja, é “essencial nos dias de hoje para julgar com sentido cristão as realidades temporais, as situações humanas, as correntes de pensamento, as tendências da opinião pública,” para não cairmos “no fascínio do que os outros querem que pensemos e do modo como querem que ajamos.”
Não é fácil exercitar o discernimento num mundo em que reina a confusão. A receita de Juan Sanahuja passa pela humildade de saber que discernimento é graça de Deus para, seguindo os passos de Santa Teresa de Jesus, andar na verdade de Cristo, que nos permite distinguir o joio do trigo da ação moral, e requer sólida formação na doutrina católica tradicional. Mas o próprio Sanahuja, referindo-se a uma pregação do Cardeal Giacomo Biffi, na presença do Papa Bento XVI, afirma que o Cardeal, com base num romance de Soloviev, disse que o Anticristo é pacifista, ecologista e ecumenista. Uma afirmação dessas também não pode gerar confusão?
O texto da Campanha da Fraternidade deste ano tem sido criticado por católicos tradicionalistas. Há quem veja nele traços de militância político-ideológica, por louvar líderes políticos e seus programas sociais, mais do que convocar à penitência, jejum e partilha. É justo ou não esse tipo de comentário? A confusão é do texto ou da crítica? A Deus peço discernimento, para com a devida humildade, falar sobre isso noutra ocasião.

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