Bem-Aventurado Encoberto.

Na minha região, antes da Festa da Luz festejamos São Sebastião. Na festa de rua, encontro de amigos para a tradicional galinha de capoeira. E mais tradicional ainda é a procissão que alimenta a fé no santo que nos protege da peste, da fome e da guerra.

Parte da fama de São Sebastião se deve aos sermões de outro santo. Ambrósio, bispo de Milão e Doutor da Igreja. Embora a autoria de alguns dos textos atribuídos ao bispo seja questionada, é corrente a afirmação de que muitas das histórias sobre a vida de São Sebastião tiveram sua origem em relatos de Santo Ambrósio.

Nesses relatos, Sebastião é descrito como um rapaz bonito, cheio de vida. No entanto, a perseguição aos cristãos, promovida pelo Imperador Diocleciano, deixou seu coração inquieto. Por isso ele resolveu alistar-se no exército, tornando-se, ao mesmo tempo, um soldado exemplar – chegou a capitão da guarda imperial – e alguém que ajudava os irmãos em Cristo, fazendo o que podia para aliviar o sofrimento deles nos calabouços romanos, e convertendo muitas pessoas à fé cristã.

Aconteceu, porém, o que era de se esperar. Um delator corrupto fez chegar aos ouvidos do Imperador a narrativa da suposta traição do seu oficial. Sem um justo julgamento, Sebastião foi condenado à morte. Debaixo de zombaria e humilhação, foi despido de suas vestes e amarrado numa árvore. Arqueiros atiraram flechas em seu corpo, que logo cobriu-se de sangue, fazendo supor aos executores que ele já estava morto. Por isso o deixaram amarrado à árvore, para ser devorado pelos abutres.

Todavia, ocorreu o inesperado. Ao cair da noite, uma mulher e seus criados foram buscar o corpo de Sebastião para sepultá-lo. Chamava-se Irene, que ao se aproximar do corpo, percebeu que ele ainda respirava. Levou-o para sua casa e tratou das feridas do santo soldado, que se restabeleceu semanas depois.

Em vez de fugir e se esconder, Sebastião preferiu ir ter com Deocleciano. Queria explicar que os cristãos não eram inimigos do império, como pintavam as narrativas dos bajuladores do governante. Tudo em vão. Deocleciano mandou prendê-lo, matá-lo a pancadas, esquartejá-lo, e que as partes do corpo fossem jogadas na Cloaca Máxima. Miraculosamente, os restos mortais ficaram presos em uma grade de ferro, sendo depois resgatados pelos cristãos.

No ano 680 da era cristã, as relíquias de São Sebastião foram trasladadas para uma basílica construída em Roma pelo Imperador Constantino. No momento em que elas passavam pelas ruas, cessou a epidemia de peste que assolava a cidade. Tempos depois, no século XVI, Milão e Lisboa foram livradas da peste, por intercessão do povo ao famoso soldado mártir. Histórias parecidas ocorreram no Brasil e em nossa região, com a devoção se originando de promessas ao santo, por ocasião de epidemias.

Padre Antonio Vieira, no Sermão a São Sebastião, o Encoberto, diz que aqueles que fazem pior conceito do mundo, cuidam que só no céu há bem-aventurados. Mas Cristo nos ensina que também há bem-aventurados na terra. No céu não há pobreza, e são bem-aventurados os pobres. No céu não há lágrimas, e são bem-aventurados os que choram. No céu não há fome nem sede, e são bem-aventurados os que a padecem. No céu não há perseguições, e são bem-aventurados os perseguidos. A diferença é que no céu a bem-aventurança é descoberta, enquanto na terra, ela é encoberta. São Sebastião, o Encoberto, encobriu a realidade da vida debaixo da opinião da morte.

Nestes dias vi a pregação de um bispo sobre São Sebastião. Na homilia, ele nos mostra o santo como modelo de fidelidade em tempos difíceis, que enfrentou um contexto de perseguições e injustiças, sob uma estrutura de poder que exigia submissão da consciência. Estruturas de poder podem perseguir e tirar a vida dos que a elas se opõem. Não tiram jamais a liberdade de espírito dos bem-aventurados encobertos.

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