Não é só para Filemon, nem apenas sobre Onésimo.

 
Na fé, todo cristão não deixa de ser filho de Paulo. Mesmo quando os ditos e feitos de Jesus não tinham sido narrados em livros, ele ia de cidade em cidade, anunciando a Boa Nova. Evangelizava antes de haver Evangelhos. Mais pregador e missionário do que teólogo sistemático, Paulo fundava comunidades e depois mandava cartas para elas.

As cartas podiam ser escritas a próprio punho ou ditadas para um copista. Lidas em voz alta, tinham caráter retórico, pois eram feitas para convencer. E o convencimento dependia não só da qualidade do escrito, mas da autoridade de quem escrevia.

De tão importantes, elas dominam, em números, o Novo Testamento. Dos seus vinte e sete livros, vinte e um são cartas. Algumas, com maior toque literário e de cunho doutrinário-moral, são chamadas de epístolas. Mas nem todo mundo faz essa distinção. Já as cartas, propriamente ditas, são comunicações mais práticas sobre assuntos imediatos e urgentes, entre o remetente e os destinatários. A endereçada a Filemon é uma delas, que de tão pequena é quase um bilhete.

Mas a carta não é só para Filemon. Paulo escreveu a comunicação, de próprio punho – como faz questão de destacar –, para Filemon, Ápia e Arquipo.

Filemon parece ter sido um cristão rico – tinha escravo, talvez mais de um –, convertido por Paulo. Especula-se que Ápia fosse a esposa de Filemon, tratada na carta como “irmã Ápia”. Arquipo, referido como companheiro de luta, certamente era alguém próximo de Paulo e da família de Filemon. Há quem o identifique como filho de Filemon, mas não há dado seguro sobre isso.

Pelo que se sabe, Filemon, Ápia e Arquipo eram líderes de igreja doméstica. Os primeiros cristãos deixaram o culto nas sinagogas para se reunirem em casas de famílias. Isso, por si só, provocou rupturas. Uma delas tem a ver com o papel das mulheres na igreja. Nos templos, às mulheres não era dado papel de liderança, diferente do espaço doméstico, em que elas tinham vez e voz.

O objeto central da comunicação é de uma típica carta intercessora. Paulo faz um pedido em favor de Onésimo, escravo que havia fugido da casa de Filemon, e que também foi convertido pelo Apóstolo. Se engana, porém, quem pensa que se trata apenas da carta de um amigo para outro, pedindo-lhe um favor, no caso, que Filemon receba Onésimo de volta, sem os castigos que se aplicavam a um escravo fujão. Há muito mais que se beber da fonte evangelizadora, que flui sob a superfície das palavras da carta.

Paulo se apresenta como alguém privado da liberdade em razão do seguimento a Cristo, que intercede pela liberdade de Onésimo. E mesmo sabendo que exerce autoridade moral sobre Filemon e os seus, prefere fazer o pedido por amor.

Naquele tempo, a separação entre as camadas sociais era muito rigorosa. Se às mulheres não eram reconhecidos os mesmos direitos dos cidadãos, imaginem como era a condição dos escravos. Ainda por cima, depois da revolta liderada por Spartacus, era afrontoso alguém se posicionar pela abolição do regime escravocrata.

Nesse contexto, as palavras de Paulo não se confundem com um panfleto abolicionista. Elas não partem da comparação entre a condição de escravo e a do cidadão livre, mas entre o escravo e a nova criatura em Cristo.

Não só Onésimo, mas o próprio Paulo, Filemon, Ápia e Arquipo têm a consciência de que, apesar da força que detém as instituições do império romano, não há poder maior que a força do amor, que transforma todas as relações humanas em relações entre irmãos.

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