“Se um veleiro repousasse na palma da minha
mão...” Quando aquela menina, linda e
talentosa, começou a cantar em minha homenagem, percebi que um veleiro de
emoções seguiria com sentimento rumo ao meu coração, como diz a letra da
canção. Além da música, tantas palavras lisonjeiras foram dirigidas aos
homenageados da noite. O propositor da honraria a mim concedida, a medalha
Osmar de Aquino, disse que falar de bem a meu respeito em nossa cidade era
“chover no molhado”. Fiquei feliz com o que ouvi – afinal, quem não gosta de
elogio?! – mas sempre me vinha a mente o pensamento de Aristóteles: a grandeza
não consiste em receber honras, mas em merecê-las, e penso que o mais
importante é, no dia a dia, fazer por merecer o que de bom nos é dado pelas
pessoas com quem convivemos. Por isso, na minha fala, procurei compartilhar com
elas a homenagem que recebi. Como não tive tempo de preparar um pronunciamento
escrito, como recomenda o protocolo numa ocasião como aquela, vali-me de uma
lista.
As listas sempre foram utilizadas na história
humana para os mais diversos fins. Para descrever o povoamento da terra, o
redator do capítulo 10 do Gênesis recorreu à lista dos povos, mesclada de nomes
e fatos, elaborada à visão dos hebreus, de que genealogia era bem mais do
que simples descendência. Se os direitos
dos indivíduos eram fruto da participação no clã e na tribo, a lista
representava uma prova escrita dessa pertença. Outra lista importante para os
judeus foi a de Schindler, que se transformou num estrondoso sucesso nas telas
do cinema, no filme de Spielberg. Fazer parte daquela lista representava a
diferença entre viver ou morrer, e como diz a frase do Talmude, gravada no anel
dado a Schindler por seus trabalhadores, “aquele que salva uma vida salva o
mundo inteiro”.
Existem outras listas que, dependendo da ocasião,
podem ter serventia ou causar aborrecimento. Lista de convidados para uma festa
normalmente nos deixa em dificuldade, seja em razão do orçamento, seja dos
critérios para quem deixar de fora; lista de presentes de casamento, que faz
muito convidado correr à loja para comprar o seu e não ficar com a opção dos
mais caros. Se a lista telefônica, tão requisitada em outros tempos, hoje
sucumbiu ao mundo virtual do google, este nos apresenta não só playlists de
todos os gêneros musicais, mas listas para todos os gostos. Os “top 10” vão
desde filmes e séries até os piores casos de corrupção na história brasileira, passando
por outras esquisitices do mundo bizarro em que às vezes navegamos
Entre as várias listas que povoam nosso cotidiano,
uma das que pode ser útil ou causar
aflição é a lista de compras. Nas poucas vezes que vou ao supermercado desacompanhado,
mesmo com ela na mão, acabo ligando para minha esposa, indagando sobre os
produtos que devo levar, e pergunto a mim mesmo: se toda vez ligo pra ela, para
que então me serve a lista? Ainda bem
que não sofro, como o artista da música lista de compras de Amado
Batista. O sujeito fica se lamentando, com saudades de quando era garotinho e
namorado da esposa, nos tempos que não voltam mais, porque depois de casado,
quando chega o fim de semana, em vez do namoro, o que lhe espera é uma lista
mostrada pela mulher, que diz estar faltando desde o gás, arroz, café, açúcar e
feijão até uma borracha para panela de pressão. E assim, como diz a música,
“vai seguindo a lista, e o bolso do artista sem nenhum tostão.”
Mas voltando à lista que utilizei para minha fala,
ela poderia ser traduzida nos verbos agradecer e dedicar. No topo da lista,
como não poderia deixar de ser, constava o nome de Deus. Se nele vivemos, nos
movemos e existimos, como disse Paulo no areópago, nada é possível de se fazer
sem Ele. Depois lembrei os antepassados. Somos descendência de Deus, mas a vida
chega até nós pelos que nos antecederam.
Fiz menção ao único avô que conheci, de
quem herdei o nome. Homem do campo, simples e de poucas letras, de gestos
contidos e laconismo agreste, como já me referi em outro escrito a ele
dedicado. Aos meus pais, exemplos de professores honrados, cujo sangue corre em
nossas veias, minhas, de meus irmãos e meus filhos. À minha esposa, que se não é sangue do meu
sangue, é carne de minha carne, unidos
que somos pelo amor, a “livre entrega do coração”.

E como cada um de nós é formado não só no seio da
família, mas por todos os grupos do qual fazemos parte, agradeci e dediquei a
honraria aos professores de todas as escolas de nossa cidade onde estudei,
desde o Antenor Navarro até a Universidade Estadual, destacando a importância
dos que atuam na UEPB, onde sou professor, e da Vara do Trabalho de Guarabira,
onde sou juiz.
Por fim, o veleiro de emoções, que tocou meu
coração a partir da bela interpretação da menina Ranna, dirigiu-se a todos os
presentes naquele evento. Se uma medalha é conferida por representantes do povo,
a este devo eterna gratidão, com o compromisso de continuar, na medida do
possível, retribuindo com trabalho e dedicação, o muito que Guarabira, terra de
Osmar de Aquino e minha terra, tem dado a mim e aos que fazem de mim o que eu sou.
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