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Religio

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Evangelho da liberdade



“É para a liberdade que Cristo nos libertou!” Com esta frase, Paulo exorta a comunidade da Galácia, que mesmo depois de ouvir do Apóstolo o anúncio de Cristo que liberta do jugo da lei, parecia seduzida pela pregação manipuladora, que a acorrentava à observância cega de normas religiosas. Daí o tom indignado e até sarcástico de algumas palavras da exortação, dirigidas ora aos membros da comunidade: “Ó gálatas insensatos, quem vos enfeitiçou?”, ora aos manipuladores: “Oxalá se mutilassem, de vez, aqueles que vos inquietam!”

É claro que o propósito da Carta aos Gálatas não era chamá-los de bobos, nem desejar que na circuncisão, valorizada mais que o batismo por alguns pregadores, a faca escorregasse e amputasse o seu órgão genital. A grande mensagem é proclamar que a boa nova de Cristo é o evangelho da liberdade, que não tolera relações perversas entre as pessoas.

Ocorre uma relação perversa sempre que alguém trata o outro como objeto. Pode ser num relacionamento conjugal, em que o homem se comporta como no bordão do coronel Jesuíno, personagem encarnado pelo grande José Wilker : “deite, que eu vou lhe usar”, ou no comércio de carne humana para exploração sexual ou transplante de órgãos. Mas também pode ocorrer no comércio da fé, com manipulação da boa fé, ou ainda na exploração do trabalho humano, não raro em benefício de quem se diz liberto por Jesus Cristo.

Costumo lembrar um episódio que me ocorreu quando eu era juiz no sertão paraibano. Uma senhora, de modos educados, questionou-me porque eu, sendo católico, não pendurava um crucifixo na sala de audiência. Notei que ela trazia uma cruz no pescoço, mas estava ali porque não pagava horas extras a seu empregado. Pensei comigo mesmo: quem estava errado diante da fé comum que dizíamos professar? Eu, que preferia não ornar um espaço público com um símbolo religioso, ou ela, que o ostentava, sem lhe pesar a consciência por negar ao empregado um direito básico para a dignidade humana? Mas será que algum patrão confessa o pecado de não pagar hora extra? Pois quem trabalha de graça, não sendo voluntário, é escravo, tratado como coisa numa relação perversa.

Ó nós, cristãos insensatos! Libertos para a liberdade, por que e por quem nos deixamos enfeitiçar? Em vez de vivermos livres na prática da caridade, nos acomodamos em religião de muito rito e pouca vivência, de repetição irrefletida de gestos e chavões, de rebanho que se faz manada, manipulada, infantilizada.

O tema da liberdade é inesgotável, como lembra o teólogo José Comblin. No livro vocação para a liberdade, ele nos convida a refletir sobre vários aspectos desse tema. O evangelho cristão deveria ser um evangelho da liberdade. No entanto, “uma Igreja que não é capaz de instalar a liberdade em suas estruturas não poderá anunciar o verdadeiro evangelho,” e no vazio desse anúncio, cresce uma prática religiosa de infantilismo generalizado, que atinge membros e dirigentes de grupos e movimentos, pois “cristãos infantilizados sentem-se àvontade em grupos onde nada mais lhes é exigido do que expressões infantis de fé.”

Desfazer essa infantilização é um grande desafio. É preciso evangelizar na liberdade, o que não se faz só com palavras e gestos efusivos. Evangelizar não é fazer propaganda nem oba-oba, mas é vida, é caminhada. E como diz o Padre Comblin, “o caminho da liberdade é a própria liberdade.”

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