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Religio

sábado, 13 de agosto de 2011

Ao meu pai, João Epifanio


Quase vinte anos de saudade, e toda saudade, como disse Guimarães Rosa, é uma espécie de velhice. Hoje, mais velho, aprendo a cada dia a ser pai, com meus filhos, com a vida, com a saudade de meu pai. Compartilho, então, neste blog, um texto que a saudade dele me fez escrever anos atrás.


Hoje eu entendo, meu pai*

Há coisas que só com o tempo a gente consegue entender melhor. Meu pai dizia que tudo para ser bem feito, devia ser feito com amor. Dizia isso não somente em família, mas nas reuniões do colégio. Ele, diretor da escola, e eu, aprendiz de professor, achava a falação de meu pai de uma pieguice sem igual. Discursar sobre amor em pleno planejamento pedagógico! Aquilo era o fim da picada!

Mas o tempo e a reflexão me ensinaram o quanto eu estava errado sobre as fronteiras do amor. Aprendi que os gregos, ainda no alvorecer de seu filosofar, já compreendiam o amor como força que move todas as coisas, as une e mantém juntas, o que pode ser observado no amor eros, philia e ágape.

O amor eros faz do homem e mulher uma só carne. Não é mero desejo de vencer a morte pelo instinto de gerar, presente em todo animal, mesmo que ao acasalamento do animal humano se dê o inadequado título de fazer amor. O amor conjugal implica respeito e ternura, compromisso recíproco, cuidado constante do outro e pelo outro. É tão sublime que o Cântico dos Cânticos, para exaltá-lo, necessita valer-se de figuras de linguagem relacionadas às maravilhas dadas pela natureza ou construídas pelas mãos humanas, metáforas de amor que evocam montanhas e árvores, animais e aromas, colunas e torres, jóias e vinho. É a linguagem dos amantes invocando as belezas do mundo para tentar exprimir um mistério, experimentado e vivido pelo ser humano, que não se pode explicar com a métrica precisa do falar denotativo.

O amor philia, amor de amizade, é dos bens o bem maior. Que proveito têm o dinheiro e o poder, se não se tem amigos com quem compartilhá-los? Os amigos, dizia Pitágoras, têm tudo em comum, e a amizade é a igualdade, enquanto Zenão de Eléia perguntava: quem é um amigo? E ele mesmo respondia: “um outro eu.” Com o cristianismo, a máxima aristotélica de amizade, de comportar-se com o amigo como consigo mesmo, ver nele o “outro eu”, estende-se a toda pessoa. Seguindo o exemplo do bom samaritano, mais do que companheiro ou camarada, é preciso fazer-se do outro o próximo. Aí a questão não é mais de laços de família, nacionalidade ou credo; é questão de atitude de pessoa para pessoa.

Por fim, o amor ágape religa a humanidade e o cosmos a Deus, numa eterna comunhão. A diversidade faz-se unidade. Não há mais judeu nem grego, escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois tudo e todos se tornam um, tomando parte no banquete do Deus feito pão. É o amor caridade, que não conhece limites porque nasce do coração do próprio Deus. E como exorta a Encíclica Deus caritas est, não se trata de um sentimento genérico e abstrato, mas exige comprometimento de cada um no serviço cotidiano do amor. Este, na parábola do Juízo Final, é tomado como critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade da vida humana: dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, dar abrigo ao retirante, acudindo o próprio Emanuel, na pessoa do irmão mais pequenino. Mas não se limita ao ativismo, tampouco se circunscreve às estremas de uma ordem social justa. Pois como lembra o belíssimo hino ao amor, eternizado pelo apóstolo Paulo, ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, isso nada me adiantaria.

E hoje, meu pai, tudo isso me faz entender que o amor se permite invadir não apenas um planejamento pedagógico, mas todas as dimensões do existir. Pois o amor, como diz o poeta Novalis, é o início e o fim de tudo, a finalidade última da história universal, o amém do universo.

*Este texto faz parte da coletânea O sentido da vida.

4 comentários:

Marcos Aurélio disse...

Caríssimo Antônio,

Parabéns pelo belíssimo texto! Pela ciência das suas colocações - marca registrada das suas produções textuais - mas, sobretudo, pelo amor, sentimento sincero que impulsionou o surgimento de tão belas palavras.
Hoje eu também endento!... Buscando enfatizar a importância de colocarmos o amor nas nossas obras, seja da mais simples à mais complexa, na certeza de obtermos resultados sempre satisfatórios.
O que falar do meu grande tio João Epifânio?
Um homem pautado em promover o bem, a paz e o progresso através das suas idéias, com uma sabedoria, dedicação e simplicidade que nos comovia e até hoje nos ensina através do exemplo que foi.
Mesmo estando eu, aos 6 anos de idade, pude testemunhar o impacto da noticía do seu falecimento, quando posicionados para o desfile do dia 7 de setembro, vivenciávamos uma das mais tristes páginas que a história da nossa pequena cidade registrava.
Enfim... Na verdade gostaria apenas de registrar que o vosso pai foi um grande herói da história daquela cidade, um exemplo de vida e dedicação à família e à promoção do bem comum. Percebo também em você um grande exemplo de vida, de ser humano, de humildade e brilhante jurista, que impulsiona a busca pelo conhecimento.
Espero, mas já com plena certeza, que tenha tido um ótimo dia dos pais.

Abraço forte!

MARCOS AURÉLIO HENRIQUE DA COSTA

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, Aurélio. Suas palavras me comovem e me incentivam. Um abraço!

celia coutinho disse...

DR. ANTONIO, QUANTA EMOÇÃO senti ao ler o que esta escrito nesta pagina, fico muito orgulhosa de tudo,vejo que continua mais inteligente, mais brilhante, mais competente, que Deus ilumine sempre seus passos nesta estrada da vida.
abraços
Célia (professora)

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, professora Célia. Que Deus a ilumine também. Abraços.

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