hora,data

[Guarabira] -

Religio

sábado, 2 de abril de 2011

Fome e sede de justiça

Nova Iorque, fevereiro de 2002: chefes de Estado, políticos, líderes empresariais e religiosos, sob forte esquema de segurança, reuniam-se no Fórum Econômico Mundial. No cardápio do encontro, além do prato principal da economia global, foi posto na mesa o tema liderança em tempos de fragilidade, uma visão para o mundo compartilhado, iguaria temperada com certa demagogice, num mundo tão desigual, especialmente naquela latitude do globo, onde ainda se lambiam as feridas fumegantes do onze de setembro. Enquanto isso, no hemisfério de baixo, muita gente, de diferentes tribos e nações, participava do Fórum Social Mundial, na cidade de Porto Alegre. Naquele evento, em que anônimos e autoridades deram-se as mãos e cirandaram sob a batuta de Lia de Itamaracá, foi lido um texto de José Saramago, que toca na ferida deste mundo da injustiça globalizada.

O texto traz um caso ocorrido há muito tempo nas cercanias de Florença. Entretidos em seus afazeres, os aldeões de repente ouviram o sino da Matriz soar o toque de finados. Como não lhes constasse que alguém dali estivesse prestes a ir desta para melhor, foram todos até o adro da igreja, para saber que defunto iriam prantear. Foi quando um camponês, saindo da igreja, disse que ele, e não o sineiro, tocara o sino. “Mas então não morreu ninguém?”, perguntaram os aldeões. “Ninguém que tivesse nome e figura de gente,” respondeu o camponês. “Toquei a finados pela Justiça, porque a Justiça está morta.”

É que um poderoso do lugar, há tempos vinha avançando as cercas de sua propriedade, braças adentro das terras do pobre campônio. Este, depois de muito protestar, e suplicar às autoridades alguma providência, sem nenhum resultado, não viu outra saída senão tocar o sino do campanário, imaginando que seu gesto indignado fizesse badalejar todos os sinos deste mundo, a tocarem juntos pela morte da Justiça até que ela fosse ressuscitada. Aquele sino melancólico de Florença, arremata Saramago, nunca mais se fez ouvir. Já a Justiça, esta continua a morrer todos os dias, às vezes morta por nossas mãos.

Matamos a Justiça quando proclamamos a igualdade perante a lei e negamos ao outro a igualdade perante a vida. De que vale dizer ao sem-teto que o direito à moradia é garantido pela Lei Maior, ou tentar convencer o sem-médico de que a saúde é um direito social? Também matamos a justiça quando a confinamos em conceitos que passam longe do chão da vida, como se ela fosse artigo de luxo, teorizado só por doutores, manuseado só por juízes, e dela não fazemos o que ela deve ser. Justiça, mais que definição abstrata ou aplicação do direito por tribunais, deve nascer da consciência de cada um no respeito ao viver do outro, deve ser ação concreta para a construção de um mundo compartilhado de verdade. Justiça, a verdadeira Justiça, é tão necessária para a vida quanto o pão que mata a fome e a água que mata a sede. Houvesse justiça, simplesmente justiça, lembra Saramago, e ninguém mais morreria de fome ou de doenças curáveis somente para uns poucos; e a vida não seria, para milhões de pessoas neste mundo, o vale de lágrimas que literalmente é.

Bem-aventurados os que tivermos fome e sede dessa Justiça, porque seremos saciados. Pois ela não se limita a dar a César o que é de César, mas na partilha do quanto temos e somos, nos permite dar a Deus o que é de Deus.

(Este texto, com as devidas citações e referências, é parte do livro O sentido da vida).

11 comentários:

kamilakyarafb disse...

ACREDITO Q A MEDIDA Q O TEMPO VAI PASSANDO OS ANIMAIS RACIONAIS(NÓS) TENDE A EVOLUIR, Ñ FALO DA EVIOLUÇÃO TECNOLÓGICA MAS D UMA EVOLUÇÃO ESPIRITUAL, ONDE O AMOR AO PRÓXIMO PREVALECERÁ D FORMA INCONDICIONAL, AI SIM PASSAREMOS À "SERES HUMANOS". E O SR. JÁ É PROVA Q CAMINHAMOS PARA ISSO. UM SER ESPIRITUALIZADO!

Wellington Júnior disse...

Certa vez li que à Justiça cabe dar a cada um o que é seu. Nem mais, nem menos.
Hoje já não penso assim. Pois se assim fosse a Justiça apenas daria a miséria a quem tem miséria e a riqueza a quem já a tem.
Por muitos anos, vi pessoas (políticos, professores, magistrados, promotores, doutores e até mesmo aqueles vulgarmente chamados de filósofos e revolucionários de botequim) falarem sobre Justiça com uma retórica impecável, linguagem cheia de floreios e frases de efeito. Tudo aquilo me encantava, hoje vejo que nem tudo é o que parece. Uma coisa é a proclamação dos Direitos, outra coisa é sua efetivação, já dizia Norberto Bobbio.
São esses tipos de questionamentos muitas vezes levantados pelo nobre professor em sala de aula e até mesmo em textos como esse de José Saramago que me fazem pensar que se as mudanças que nós precisamos tem sempre que passar necessariamente pelo crivo do Estado. Até que ponto temos que esperar a anuência do Estado ou simplesmente ir lá e fazer?
Espero um dia encontrar a resposta.

Joel Cavalcante disse...

A primeira vez que li o texto sobre a morte da justiça do imortal Saramago foi assim que ele deixou a vida terrena para vivê-la em outro mundo. Uma amiga me enviou por e-mail. Eu não curto muito os romances dele em virtude da forma como é escrita, sempre me perco, tudo devido à falta de hábito. O único livro que li foi “Caim”. Agora os textos dele voltados para temáticas sociais, como esse, alguns estão disponíveis em vários sites ligados à esquerda, sempre leio e releio. Enquanto li a postagem eu lembrei de um dos dez mandamentos do advogado de Eduardo Couture. O quarto mandamento diz: “Teu dever é lutar pelo Direito, mas no dia em que encontrares em conflito o direito e a justiça, luta pela justiça.” Justiça, justiça, justiça... Palavra gostosa de dizer, ótima para embelezar os discursos dos políticos, sacerdotes, intelectuais, empresários... Ao mesmo tempo que uma realidade quase impossível de ser alcançada. Essa semana comentando pelo Twitter com amiga de Sampa sobre a Igreja Primitiva descrita em Atos 2. 42-47 eu dizia ser aquele modelo impossível de ser efetivado hoje em dia, mas será sempre um referencial de conduta e ação para a Igreja de qualquer tempo. Da mesma forma penso a Justiça. Nunca vamos alcançá-la. Ultimamente tenho perdido a esperança em um monte de coisa referente ao ser humano. Mas a Justiça será sempre um modelo retratado em livros, ensaios, artigos, discursos que nos apontará os erros e qual é a melhor forma de agir. Justiça será sempre um modelo, um norte, um horizonte para o qual devem caminhar as pessoas, contudo, é preciso ter sempre em mente que sua concretização é utópica. A propósito, Eduardo Galeano diz: "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Penso que a comparação é válida também para Justiça.

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, Kamila, Joel e Wellington. Abraços.

AMIGOS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
AMIGOS disse...

Excelente artigo Dr. Antonio!
Tem por objetivo a justiça reparar o dano causado e corrigir o infrator, tornando-o útil à sociedade na qual se encontra.
A justiça trabalha em favor da educação utilizando-se de métodos disciplinares, inclu-sive limitando a liberdade do delinqüente, a fim de poupá-lo, bem como a comunidade, de males mais graves.
O delito resulta do desrespeito aos códigos estabelecidos de leis que regem os po-vos, propiciando direitos e deveres iguais aos indivíduos.
Quando a justiça se corrompe, o homem tresvaria e o abuso da autoridade conduz aos extremos da sandice.
Em uma sociedade justa, todos desfrutam de oportunidades iguais de progresso, face a uma idêntica distribuição de rendas. Nela, o forte ampara o fraco, o sadio socorre o enfermo, o jovem ajuda o idoso, comportamento natural, decorrente de uma consciência clara de dever, que estabelece a felicidade como conseqüência da solidariedade entre as diversas criaturas.
À medida que o homem desenvolve os sentimentos e a inteligência se aprimora, as suas leis são mais brandas e a sua justiça mais eqüânime.
Nos povos primitivos, a “lei do mais forte” prevalecia, substituída, mais tarde, pela condição absurda da hereditariedade, até alcançar os elevados princípios sóciodemo cráticos, nos quais, a responsabilidade pessoal tem prioridade na ação livre dos seus membros.
É longo, porém, ainda, o caminho a percorrer, para que seja alcançado o respeito do homem pela vida, pelo próximo, pela natureza, pela justiça sem arbitrariedade, sem punição.
*JÚNIOR MADRUGA

AMIGOS disse...

JESUS E JUSTIÇA
Jesus fez-se paladino da justiça equânime.
Sua atitude para com as pessoas era sempre a mesma: de benevolência, com o objetivo da educa-ção.
A Nicodemos, que era doutor da alta câmara do Sinédrio, concedeu uma entrevista, nada diferen-te daquela que facultou a Zaqueu, o cobrador de impostos, ou à convivência com Lázaro e suas irmãs, em Betânia, ou ao ladrão, na cruz, que Lhe buscara apoio.
Reconhecendo que os homens se diferenciam pelas suas conquistas intelectuais e morais e que a hierarquia na qual se encontram é de aquisição pessoal e sem jactância ou privilégios, a todos proporcionava as mesmas condições e oportunida-des, jamais se excedendo com qualquer um deles.
À adúltera, ou à vendedora de ilusões, ou aos sacerdotes que o interrogaram, ou aos saduceus hábeis, ou aos fariseus hipócritas, sempre con-cedeu o mesmo tratamento.
Quando invectivou os que tentavam envolvê-lo em ciladas sofistas, comprometedoras, usou de energia sem esquecer da compaixão, por sabê-los enfermos da alma, da qual procedem todos os fenômenos do comportamento.
Num período de arbitrariedades, foi magnânimo; de abuso do poder, falou sobre a renúncia à arrogância, e fez-se humilde; de exploração, ensinou a generosidade e viveu-a.
JÚNIOR MADRUGA

AMIGOS disse...

Olhemos para Jesus - O Mestre de Justiça
Jesus fez-se paladino da justiça equânime.
Sua atitude para com as pessoas era sempre a mes-ma: de benevolência, com o objetivo da edu-cação.
A Nicodemos, que era doutor da alta câmara do Sinédrio, concedeu uma entrevista, nada dife-rente daquela que facultou a Zaqueu, o cobrador de impostos, ou à convivência com Lázaro e suas irmãs, em Betânia, ou ao ladrão, na cruz, que Lhe buscara apoio.
Reconhecendo que os homens se diferenciam pelas suas conquistas intelectuais e morais e que a hierarquia na qual se encontram é de aquisição pessoal e sem jactância ou privi-légios, a todos proporcionava as mesmas condições e oportunidades, jamais se excedendo com qualquer um deles.
À adúltera, ou à vendedora de ilusões, ou aos sacerdotes que o interrogaram, ou aos saduceus hábeis, ou aos fariseus hipócritas, sempre concedeu o mesmo tratamento.
Quando invectivou os que tentavam envolvê-lo em ciladas sofistas, comprometedoras, usou de energia sem esquecer da compaixão, por sabê-los
enfermos da alma, da qual procedem todos os fe-nômenos do comportamento.
Num período de arbitrariedades, foi magnânimo; de abuso do poder, falou sobre a renúncia à arrogância, e fez-se humilde; de exploração, ensinou a generosidade e viveu-a.
JÚNIOR MADRUGA

AMIGOS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
AMIGOS disse...

Propõs que a nossa não fosse a “justiça dos fariseus” que exploravam os doentes, esfalfavam os fracos, as viúvas e as crianças,aprovei-tando-se da situação.
E quando Pilatos, que iria lavar as mãos culpadas pela pusilanimidade do caráter. Lhe disse que tinha poder e autoridade sobre Ele, redargüiu-lhe que estes lhe haviam sido concedi-dos, desde que, por sua vez, ele também se encontrava sob uma condu-ção maior. Porque o verdadeiro poder, a excelen-te
justiça, vêm de Deus.
*
Emaranhado nos próprios erros e tropeçando nas mal

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, Júnior Madruga.

Postar um comentário

/