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Religio

sábado, 30 de abril de 2011

A entrega absoluta


Diante do crucifixo da igrejinha de São Damião, São Francisco ouviu uma voz divina: Francisco, vai e reconstrói minha igreja, que está em ruínas. Diante do crucifixo de São Damião, Santa Clara também vivenciou profundos momentos de contemplação e êxtase.

O crucifixo de São Damião é mais uma grande obra de autor desconhecido. Supõe-se ter sido um artista italiano, do século XII, que trouxe ao mundo aquele ícone magistral, de quase dois metros de altura por mais de um metro de largura, pintando-o sobre o pano e colando-o numa peça de nogueira.

Jesus Cristo, no centro do ícone, é a figura que domina toda a cena. Luminoso e de olhos abertos, o Salvador contempla o mundo por Ele criado e por Ele salvo. Ele não deixa de ser o Crucificado, mas, naquela cruz, é ao mesmo tempo o Salvador e o Ressuscitado. A cruz, nesse contexto, é mais que o madeiro do suplicio, é o altar da exaltação. Nela e por ela o Crucificado é também o eternamente Glorificado.

Na cruz de São Damião, Jesus Cristo não é o Ensanguentado. O sangue se faz presente, sim, mas não é o elemento preponderante, pois o vermelho que se sobressai no ícone é o vermelho do amor, e não do sangue. Este brota do corpo de Cristo como uma flor, e asperge não só os seres humanos, mas também os anjos. Mais do que hemorragia de morte, o sangue derramado na cruz é semente de vida.

As imagens evocadas pela cruz de São Damião podem parecer românticas demais, quando comparadas, por exemplo, às imagens hollywoodianas da Paixão de Cristo, de Mel Gibson, inspiradas, entre outras obras, n’A dolorosa paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que traz as visões da freira alemã Anne Katharina Emmerick. Todavia, é importante ponderar que a cruz de São Damião é, antes de tudo, um ícone, representação pictórica de mensagem teológica, tendo como inspiração fundamental o Evangelho de São João.

O Evangelho começa falando do Verbo e da luz. O Verbo, que desde sempre estava com Deus e era Deus, é princípio de vida, por meio do qual tudo é criado. O Verbo também é a luz verdadeira, que ilumina todo ser humano, luz que veio ao mundo, mas que por este não foi reconhecida. Se o Verbo é a fonte da vida, não admira que o evangelista, no capítulo dez, apresente Jesus dizendo que ninguém pode tirar-lhe a vida, mas que Ele dará a vida livremente, tendo o poder de entregá-la e o poder de retomá-la.

Essa completa liberdade diante da morte ou a “serena majestade” de Jesus não quer dizer que Ele não tenha sofrido uma dolorosa Paixão, como relatam as visões da freira alemã ou mostram as cenas de Mel Gibson, nem que Ele não tivesse seu aspecto tão desfigurado, que sua forma não parecesse humana, como diz o canto do Servo Sofredor, do profeta Isaías. Todavia, como nos faz ver a teologia joanina, bem como a teologia da cruz de São Damião, a crucifixão de Jesus é muito mais que o resultado de um julgamento humano injusto, mais do que a execução de uma sentença de morte; é a entrega absoluta do Amor Absoluto.

Um comentário:

Joel Cavalcante disse...

Enquanto lia, as palavras de São Paulo aos Coríntios apareciam à minha mente:

"Pois a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus." (1 Co. 1:18).

Quando eu era evagélico, eu gostava de um hino tradicional, que sempre era cantado na Santa Ceia (Eucaristia):

"Sim eu amo a mensagem da cruz
Té morrer eu a vou proclamar
Levarei eu também minha cruz
Té por uma coroa trocar"

...entrega absoluta do amor Absoluto!

Disse tudo!

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