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Religio

sábado, 9 de abril de 2011

Augusto... dos Anjos



(Este texto, escrito por minha filha, Talitha Giovanna Maranhão da Costa, recebeu menção honrosa da comissão julgadora do Concurso de Redação Correio das Artes 60 anos, promovido pelo jornal A União, do Governo do Estado da Paraíba).

Menino feioso, magro, meio desajustado, de olhos profundos cheios de mágoa e – o que para alguns causa desprezo – nordestino, mais especificamente da cidade de Sapé, na Paraíba. Talvez não se pudesse esperar muito de uma criatura assim. Aquele menino, contudo, tornou-se um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no dia 20 de abril de 1884, no Engenho Pau d’Arco, próximo à Vila Espírito Santo. Aprendeu a ler e a escrever com seu pai, Alexandre Rodrigues dos Anjos. Estudou no Liceu Paraibano e cursou Direito em Recife. Casou-se com Ester Fialho, com quem teve dois filhos: Glória e Guilherme. Morreu em Leopoldina, Minas Gerais, na madrugada do dia 12 de novembro de 1914.

O poeta publicou apenas um livro, “Eu”, e não fez sucesso enquanto vivo, pois era brutalmente criticado devido às características não usuais de sua poesia. Augusto tinha uma visão de mundo bem peculiar. Ele não encobria com eufemismos a miséria da condição humana. No poema “A um gérmen”, ele chega a pedir para que a “geléia humana” não progrida para não ter “o infortúnio de ser alma”; dizia que o homem é um ser irracional que age de acordo com seus desejos; condenava o amor humanístico, por julgá-lo superficial: “O amor da Humanidade é uma mentira”; tinha uma fascinação pela morte e via a única solução para a mesquinhez humana na imaterialidade das coisas, e tudo isso se reflete no caráter pessimista de sua poesia.

Sua obra já foi julgada pobre de sentimentos, por ele fazer uso de termos científicos. Estes, porém, quando usados por Augusto, ganham uma sonoridade e expressividade magníficas. Isso se comprova, por exemplo, no Monólogo de uma sombra: “Sou uma sombra! Venho de outras eras,/ Do cosmopolitismo das moneras.../Pólipo de recônditas reentrâncias...” ou no conhecido soneto Psicologia de um vencido: “Eu, filho do carbono e do amoníaco,/ Monstro de escuridão e rutilância,/ Sofro, desde a epigênesis da infância,/ A influência má dos signos do zodíaco.”

Mas por trás daqueles olhos tristes e de toda sua melancolia estava um homem realista, que ansiava por um mundo diferente, talvez nem um mundo, mas uma imaterialidade ou algo parecido, que nenhum de nós é capaz de saber ao certo. Por isso não devemos considerá-lo apenas mórbido. Há em sua poesia uma angústia cósmica e um desejo de imaterialidade que chegam a tocar na transcendência: “Não! Jesus não morreu! Vive na serra/ Da Borborema, no ar de minha terra,/ Na molécula e no átomo... Resume/ A espiritualidade da matéria/ E é ele que embala o corpo da miséria/ E faz da cloaca uma urna de perfume.”

Augusto é um enigma que ninguém consegue desvendar por completo. Porém é certo que aquele menino feioso tornou-se um poeta esplêndido. Ele nos mostrou que a poesia também pode habitar no vale das sombras, e com sua beleza sombria, fez por merecer seu nome. Poeta maior, sublime: Augusto; mensageiro dos deuses da poesia, imortal: dos Anjos.

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