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Religio

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

De carnavais e quaresmas



Se nós somos o intervalo entre nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fazem de nós, como diz o poeta Fernando Pessoa, há momentos na vida que em que podemos reduzir ou ampliar esse intervalo. Carnavais e quaresmas podem ser alguns desses momentos.


Os carnavais, desde os primórdios, apresentam-se como criação de um mundo não apenas pelo avesso, mas como um mundo menos desigual. Embora não haja certeza quanto às suas origens ─ pois geralmente sobre origens, quem fala não sabe e quem sabe não fala ─, existem especulações de que os primeiros carnavais eram festas agrárias. No rigor do inverno, todo mundo ficava encolhidinho em suas locas. Mas na primavera, tudo se transformava em festa: cantos e danças pelo sol que chegava, trazendo consigo a possibilidade de cultivar a terra, para dela colher o pão de cada dia. Era momento para a alegria espantar coisas ruins, que ficavam para trás.

Em Roma havia as festas em homenagem a Saturno, deus da agricultura. Conta-se que as saturnálias eram marcadas por música, comilança e sexo, além de serem momentos para libertação das convenções sociais. Escravos faziam-se senhores e podiam desfrutar a igualdade efêmera do mundo às avessas.

Na Idade Média, os carnavais ocupavam lugar central na vida das comunidades. Havia ainda a festa dos tolos, a festa do asno e o riso pascal, e mesmo as festas religiosas tinham um lado cômico, com desfile de bufões e bobos. Com tais festejos, a cultura medieval construía, no dizer de Bakhtin, um segundo mundo. Era um mundo de cabeça para baixo, no qual as pessoas habitavam em ocasiões especiais. Mas logo as cinzas quaresmais cuidavam de desvirar o mundo, recolocando-o no lugar de costume, com tudo de bom e de ruim que decorria dessa revirada. Uma das coisas ruins era a sevícia do corpo, como castigo pelos excessos do carnaval. Nas viradas e reviradas do mundo, o corpo humano, que historicamente tem sido objeto de exercício do poder, como nos faz ver Michel Foucault, sofria com a tensão entre carnavais e quaresmas. Sobrecarregado com os desmandos dos primeiros, era supliciado pelas penitências das últimas, sem maiores escrúpulos.

No mundo de hoje, carnavais e quaresmas não têm o mesmo sentido que tinham na cultural medieval. Mas podem, ambos, ser momentos tanto de libertação e autoconhecimento, quanto de escravização e alheamento. Se a nossa alegria nos carnavais depende da vassalagem às drogas ou da exploração indevida do corpo; se os festejos de momo não servem para nos libertar das amarras sociais e nos tornar menos desiguais, e sim para satisfazer aos interesses econômicos de uns poucos que se apropriam das festas que deveriam ser do povo, de que nos vale a carnavalização temporária do mundo? Se as quaresmas não forem tempo de espontâneo recolhimento, de mergulho profundo em nossa interioridade, e sim tempo de cerimonialismo artificial, vazio e manipulável, elas serão mesmo o deserto necessário para cada um se conhecer e se encontrar consigo mesmo, e por conseguinte, encontrar-se com o divino dentro de cada um de nós?

Nos carnavais e nas quaresmas, o corpo não deixa de ser templo do espírito, sendo muito mais do que cárcere da alma. Viver bem ou mal os carnavais e as quaresmas da vida pode aumentar ou diminuir o intervalo entre nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fazem de nós, intervalo que, afinal, somos nós mesmos, como nos diz o poeta.

2 comentários:

amanda disse...

Ótimo texto!
Sua aluna de IED.

Antônio Cavalcante disse...

Obrigado, Amanda.
Um abraço.

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