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Religio

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Vale tudo?


Estávamos em 1988. Faltavam três dias para o Natal. O Brasil de Norte a Sul se emocionava diante da telinha, com a trama da novela das oito da Rede Globo. Em Xapuri, no Acre, por conta do fuso horário, a telenovela começava por volta das seis horas. Enquanto Ilzamar assistia à TV, seus dois filhos pequenos brincavam no chão da sala. Na cozinha, Chico Mendes jogava dominó com seus guarda-costas. Terminado o jogo, foram à sala ver se ainda pegavam o final da novela. Veio o jantar, e depois dele Chico resolveu se refrescar num chuveiro ao lado da casa. Pegou uma toalha azul, com a estampa de um arco-íris e notas musicais, presente de aniversário. Completara 44 anos uma semana antes. Como estava escuro, apanhou uma lanterna. Ao abrir a porta dos fundos, foi atingido pelo disparo de uma doze, a famigerada espingarda que já havia ceifado a vida de outros líderes de sindicatos rurais (só naquele ano foram quinze!). E Chico, o décimo-quinto, mesmo com quarenta perfurações de chumbo no peito e no ombro direito, cambaleando à porta da cozinha, ainda conseguiu murmurar as derradeiras palavras: — Dessa vez me acertaram.


Era o desfecho de mais uma das muitas crônicas de mortes anunciadas. Chico Mendes, que até aquela quinta-feira ainda era para grande parte do nosso povo um ilustre desconhecido, a partir daquele momento virou celebridade. Seu enterro, em pleno Natal, chegou a abalar o país, e desviar um pouco a atenção do que realmente estava comovendo a nação brasileira: as fortes emoções da novela das oito, cujo título era bastante sugestivo — Vale Tudo.

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